Primeira Pergunta: A política monetária é incapaz de aumentar a produção e o emprego, tanto no modelo clássico quanto no modelo keynesiano. Explique porque nos dois casos.
Segunda Pergunta: No modelo clássico a expansão monetária causa inflação. No modelo da síntese neoclássica, a expansão monetária pode aumentar o preço das ações. Quais hipóteses explicam esta diferença?
Terceira Pergunta: Cagan explicou a hiperinflação na Alemanha como decorrente do fato de o governo estar arrecadando imposto inflacionário à direita do ponto de máximo da curva de receita total deste imposto. Critique o argumento
Quarta Pergunta: Como funciona o regime de metas de inflação e câmbio flutuante? pontos)
segunda-feira, 25 de junho de 2007
domingo, 24 de junho de 2007
240607 Vigésima Aula:Conclusões do Curso (2)
240607 Vigésima Aula:Conclusões do Curso (2)
I- Sobre a revisão da Literatura:
a) Para os clássicos, dinheiro é uma mercadoria como outra qualquer. Pode ser estudada através de um modelo de demanda e oferta. A inflação decorre de um excesso de oferta.
b) A política monetária não consegue afetar a produção e o emprego, A economia tende naturalmente ao pleno emprego. Ninguém considera o dinheiro um fim em si mesmo, mas apenas uma passagem, um facilitador do funcionamento de uma grande economia de trocas.
c) Consequentemente, a inflação é um problema apenas por causa do imposto inflacionário e pelo “peso morto” causado pela inflação que leva o público a “economizar” dinheiro desnecessariamente.
d) O dinheiro dos clássicos pretende ser real—ouro ou qualquer outra coisa que tenha valor de uso e de troca em si mesmo. Lutam contra o dinheiro mito. Mas o dinheiro clássico, dinheiro real, é ele mesmo um mito. Isto é, um discurso, onde a essência é mais importante do que a existência.
e) Keynes não fala explicitamente sobre a inflação, pois está escrevendo sobre um período de deflação e desemprego.
f) A política monetária pode ser ineficaz pela atração do dinheiro como porto seguro, líquido e sem risco (armadilha da liquidez). O investimento é uma decisão difícil de explicar, dependendo dos “humores” dos capitalistas (a demanda de investimento pode ser pouco sensível à taxa de juros).
g) A ilusão monetária, ou a rigidez de preços nominais, é para os clássicos um “defeito” no funcionamento da economia capitalista. Para Keynes e Kaldor, a existência do dinheiro depende da rigidez de algum preço nominal, que mais tarde será chamado de âncora. Sem âncora ou sem ilusão monetária, não há dinheiro.
h) O dinheiro real de Keynes é um mito.
i) Por outro lado, os neoclássicos estendem o conceito de dinheiro como representante geral do valor e aplicação preferencial dos capitalistas e mostram principalmente os artigos do Tobin, que o dinheiro concorre com os investimentos e modifica a taxa de crescimento e a relação capital - produto da economia.
j) Levada ao extremo, a diferença entre clássicos e não clássicos se referem ao horizonte de tempo. Para os clássicos, a economia tende no longo prazo a um equilíbrio onde o dinheiro é apenas um véu e os preços relativos estão em equilíbrio em cada mercado. O longo prazo é um horizonte de tempo que espera, imóvel, que os desequilíbrios de curto prazo se resolvam. Para os não clássicos, o longo prazo está sempre muito distante e o equilíbrio de longo prazo se altera em função dos desequilíbrios de curto prazo.
k) A prosperidade e o crescimento da economia mundial depois da II Grande Guerra transformam o dinheiro em crédito. A idéia de controlar a quantidade de dinheiro, dos clássicos, perde sentido numa economia de pagamentos feitos por sistemas informatizados.
l) No mundo onde as finanças se tornam tanto importantes, a teoria das expectativas racionais se torna a melhor teoria. As decisões econômicas passam a ser um jogo entre os formuladores da política monetária e os agentes econômicos. As autoridades devem apenas coordenar expectativas.
m) Quando a inflação se apresenta como problema importante para a economia—depois da II Grande Guerra e até os anos 80—os clássicos insistem no excesso de dinheiro como causa principal. Enquanto os herdeiros keynesianos insistem na idéia de inflação de custos.
n) A inflação de custos não explica a inflação. A inflação decorre antes da procura de um valor real do dinheiro, isto é, do seu poder de compra. A indexação é um caso extremo desta procura. Ou seja, a inflação decorre da inexistência de uma âncora ou de algum preço relevante que seja rígido em termos nominais, como o salário ou a taxa de câmbio.
o) Hoje em dia, a política econômica “politicamente correta” propõe taxas de câmbio flutuantes e taxas de juros fixadas em função da inflação doméstica.
p) É uma proposta consistente com um mundo onde falta um sistema internacional de pagamentos e onde os mercados financeiros são livres e muito importantes. No lugar de taxas de câmbio fixas, como no sistema Bretton Woods, taxas de câmbio que não são em tese manipuladas pelos Bancos Centrais. E no lugar do controle da quantidade de moeda, que não faria sentido hoje , controle da taxas de juros sem olhar para a situação do balanço de pagamentos.
q) É um sistema que pode funcionar bem se operado pragmaticamente, isto é, se estiver disposto a alterar as regras básicas em caso de necessidade. E que funciona bem enquanto os desequilíbrios externos dos Estados Unidos forem absorvidos voluntariamente pelos superávits externos da Ásia e da China, especialmente. Em caso de crise, não está definida qual a solução.
r) A teoria que orienta o regime de metas de inflação se baseia na presença de uma curva de Philips negativamente inclinada, ou seja, na idéia de que inflação e desemprego estão negativamente inclinados. E usa uma linguagem de inflação de custos—core inflation, mecanismos de transmissão, etc.
s) O discurso afirma que a teoria keynesiana morreu nos anos 80. Mas a teoria que orienta a política econômica atual é de extração keynesiana e não clássica ou monetarista. O que mudou foi a prioridade dada ao pleno emprego. Agora, a prioridade número um é a estabilidade do valor da moeda, custe o que custar em termos de emprego. Taxas flutuantes auxiliam na manutenção do emprego. Mas a âncora mais importante da economia mundial são os salários chineses e a liberalização do comércio que segura os salários nominais e a inflação do mundo inteiro.
II - A estabilização do valor da moeda brasileira.
a) Desde os anos quarenta, a inflação brasileira tem sido alta e persistente.
b) Depois do governo JK a inflação atinge valores mais elevados ainda e acentua-se a tendência a aceleração. O governo militar que se instala a partir de 64, introduz a indexação formal na economia o que torna a inflação menos problemática, enquanto existe uma âncora como os salários nominais até 1974.
c) A indexação transforma a taxa de inflação como a verdadeira moeda nacional que exerce a função de unidade de conta. Para que este dinheiro exista, é necessário que a indexação seja imperfeita, isto é, que existam preços submetidos a “ilusão monetária” e nominalmente rígidos. O salário desempenha este papel até 74.
d) Depois de 74, com o anúncio da redemocratização, as pressões salariais se tornam mais importantes. O choque do petróleo em 74 dobra a inflação da economia indexada que assume uma tendência crescente e incontrolável. A crise da dívida externa em 82, provoca maxi desvalorizações cambiais, isto é desvalorizações cambiais acima da taxa de inflação passada, que aceleram ainda mais a taxa de inflação.
e) Com o primeiro governo civil, em 1985, a inflação continua a subir e as pressões para correção salarial mais freqüente (e mais perfeita) adiciona combustível a inflação.
f) Aparecem propostas de indexação generalizada da economia, como mecanismo necessário para uma reforma monetária.
g) O país passa por cinco reformas monetárias - o Cruzado, o plano Bresser, o Plano Verão, o Plano Collor e o Plano Real.
h) Todos os planos propõem uma forma de indexação generalizada e congelamento de preços, com exceção do Real. O congelamento de preços tenta fazer o papel de uma ancora dos preços, de curto prazo e provisória, dada a impossibilidade de usar o câmbio como âncora, por causa da crise da divida externa. Ou os salários, que são a fonte da pressão.
i) O Plano Real adota uma indexação generalizada implementada gradualmente de março a julho de 94. E, como a divida externa havia sido renegociada em março do mesmo ano, usa o câmbio como ancora.
j) Nos primeiros quatro anos, o cambio fica sobre valorizado incentivando grandes déficits no balanço de pagamentos. O governo se endivida mais com taxas de juros muito altas e tomando empréstimos externos para evitar a desvalorização cambial.
k) A partir do final de 98, o cambio se desvaloriza, a inflação sobe. O Banco Central anuncia o regime de metas de inflação e câmbio flutuante.
l) O regime de metas atua tanto reduzindo a demanda doméstica quanto através da sobrevalorização cambial que combate a inflação, mas provoca redução da demanda interna, desindustrialização e desemprego.
m) A inflação chega a 3,5% a.a. depois de oito anos de plano Real e vinte e dois anos de reformas monetárias. O crescimento do país foi muito baixo e continua baixo.
n) O combate à inflação custou vinte anos de estagnação e baixo crescimento do emprego. E ainda custa.
o) Inflação e dinheiro são coisas mais importantes do que a teoria do imposto inflacionário e o peso morto da inflação sugerem.
I- Sobre a revisão da Literatura:
a) Para os clássicos, dinheiro é uma mercadoria como outra qualquer. Pode ser estudada através de um modelo de demanda e oferta. A inflação decorre de um excesso de oferta.
b) A política monetária não consegue afetar a produção e o emprego, A economia tende naturalmente ao pleno emprego. Ninguém considera o dinheiro um fim em si mesmo, mas apenas uma passagem, um facilitador do funcionamento de uma grande economia de trocas.
c) Consequentemente, a inflação é um problema apenas por causa do imposto inflacionário e pelo “peso morto” causado pela inflação que leva o público a “economizar” dinheiro desnecessariamente.
d) O dinheiro dos clássicos pretende ser real—ouro ou qualquer outra coisa que tenha valor de uso e de troca em si mesmo. Lutam contra o dinheiro mito. Mas o dinheiro clássico, dinheiro real, é ele mesmo um mito. Isto é, um discurso, onde a essência é mais importante do que a existência.
e) Keynes não fala explicitamente sobre a inflação, pois está escrevendo sobre um período de deflação e desemprego.
f) A política monetária pode ser ineficaz pela atração do dinheiro como porto seguro, líquido e sem risco (armadilha da liquidez). O investimento é uma decisão difícil de explicar, dependendo dos “humores” dos capitalistas (a demanda de investimento pode ser pouco sensível à taxa de juros).
g) A ilusão monetária, ou a rigidez de preços nominais, é para os clássicos um “defeito” no funcionamento da economia capitalista. Para Keynes e Kaldor, a existência do dinheiro depende da rigidez de algum preço nominal, que mais tarde será chamado de âncora. Sem âncora ou sem ilusão monetária, não há dinheiro.
h) O dinheiro real de Keynes é um mito.
i) Por outro lado, os neoclássicos estendem o conceito de dinheiro como representante geral do valor e aplicação preferencial dos capitalistas e mostram principalmente os artigos do Tobin, que o dinheiro concorre com os investimentos e modifica a taxa de crescimento e a relação capital - produto da economia.
j) Levada ao extremo, a diferença entre clássicos e não clássicos se referem ao horizonte de tempo. Para os clássicos, a economia tende no longo prazo a um equilíbrio onde o dinheiro é apenas um véu e os preços relativos estão em equilíbrio em cada mercado. O longo prazo é um horizonte de tempo que espera, imóvel, que os desequilíbrios de curto prazo se resolvam. Para os não clássicos, o longo prazo está sempre muito distante e o equilíbrio de longo prazo se altera em função dos desequilíbrios de curto prazo.
k) A prosperidade e o crescimento da economia mundial depois da II Grande Guerra transformam o dinheiro em crédito. A idéia de controlar a quantidade de dinheiro, dos clássicos, perde sentido numa economia de pagamentos feitos por sistemas informatizados.
l) No mundo onde as finanças se tornam tanto importantes, a teoria das expectativas racionais se torna a melhor teoria. As decisões econômicas passam a ser um jogo entre os formuladores da política monetária e os agentes econômicos. As autoridades devem apenas coordenar expectativas.
m) Quando a inflação se apresenta como problema importante para a economia—depois da II Grande Guerra e até os anos 80—os clássicos insistem no excesso de dinheiro como causa principal. Enquanto os herdeiros keynesianos insistem na idéia de inflação de custos.
n) A inflação de custos não explica a inflação. A inflação decorre antes da procura de um valor real do dinheiro, isto é, do seu poder de compra. A indexação é um caso extremo desta procura. Ou seja, a inflação decorre da inexistência de uma âncora ou de algum preço relevante que seja rígido em termos nominais, como o salário ou a taxa de câmbio.
o) Hoje em dia, a política econômica “politicamente correta” propõe taxas de câmbio flutuantes e taxas de juros fixadas em função da inflação doméstica.
p) É uma proposta consistente com um mundo onde falta um sistema internacional de pagamentos e onde os mercados financeiros são livres e muito importantes. No lugar de taxas de câmbio fixas, como no sistema Bretton Woods, taxas de câmbio que não são em tese manipuladas pelos Bancos Centrais. E no lugar do controle da quantidade de moeda, que não faria sentido hoje , controle da taxas de juros sem olhar para a situação do balanço de pagamentos.
q) É um sistema que pode funcionar bem se operado pragmaticamente, isto é, se estiver disposto a alterar as regras básicas em caso de necessidade. E que funciona bem enquanto os desequilíbrios externos dos Estados Unidos forem absorvidos voluntariamente pelos superávits externos da Ásia e da China, especialmente. Em caso de crise, não está definida qual a solução.
r) A teoria que orienta o regime de metas de inflação se baseia na presença de uma curva de Philips negativamente inclinada, ou seja, na idéia de que inflação e desemprego estão negativamente inclinados. E usa uma linguagem de inflação de custos—core inflation, mecanismos de transmissão, etc.
s) O discurso afirma que a teoria keynesiana morreu nos anos 80. Mas a teoria que orienta a política econômica atual é de extração keynesiana e não clássica ou monetarista. O que mudou foi a prioridade dada ao pleno emprego. Agora, a prioridade número um é a estabilidade do valor da moeda, custe o que custar em termos de emprego. Taxas flutuantes auxiliam na manutenção do emprego. Mas a âncora mais importante da economia mundial são os salários chineses e a liberalização do comércio que segura os salários nominais e a inflação do mundo inteiro.
II - A estabilização do valor da moeda brasileira.
a) Desde os anos quarenta, a inflação brasileira tem sido alta e persistente.
b) Depois do governo JK a inflação atinge valores mais elevados ainda e acentua-se a tendência a aceleração. O governo militar que se instala a partir de 64, introduz a indexação formal na economia o que torna a inflação menos problemática, enquanto existe uma âncora como os salários nominais até 1974.
c) A indexação transforma a taxa de inflação como a verdadeira moeda nacional que exerce a função de unidade de conta. Para que este dinheiro exista, é necessário que a indexação seja imperfeita, isto é, que existam preços submetidos a “ilusão monetária” e nominalmente rígidos. O salário desempenha este papel até 74.
d) Depois de 74, com o anúncio da redemocratização, as pressões salariais se tornam mais importantes. O choque do petróleo em 74 dobra a inflação da economia indexada que assume uma tendência crescente e incontrolável. A crise da dívida externa em 82, provoca maxi desvalorizações cambiais, isto é desvalorizações cambiais acima da taxa de inflação passada, que aceleram ainda mais a taxa de inflação.
e) Com o primeiro governo civil, em 1985, a inflação continua a subir e as pressões para correção salarial mais freqüente (e mais perfeita) adiciona combustível a inflação.
f) Aparecem propostas de indexação generalizada da economia, como mecanismo necessário para uma reforma monetária.
g) O país passa por cinco reformas monetárias - o Cruzado, o plano Bresser, o Plano Verão, o Plano Collor e o Plano Real.
h) Todos os planos propõem uma forma de indexação generalizada e congelamento de preços, com exceção do Real. O congelamento de preços tenta fazer o papel de uma ancora dos preços, de curto prazo e provisória, dada a impossibilidade de usar o câmbio como âncora, por causa da crise da divida externa. Ou os salários, que são a fonte da pressão.
i) O Plano Real adota uma indexação generalizada implementada gradualmente de março a julho de 94. E, como a divida externa havia sido renegociada em março do mesmo ano, usa o câmbio como ancora.
j) Nos primeiros quatro anos, o cambio fica sobre valorizado incentivando grandes déficits no balanço de pagamentos. O governo se endivida mais com taxas de juros muito altas e tomando empréstimos externos para evitar a desvalorização cambial.
k) A partir do final de 98, o cambio se desvaloriza, a inflação sobe. O Banco Central anuncia o regime de metas de inflação e câmbio flutuante.
l) O regime de metas atua tanto reduzindo a demanda doméstica quanto através da sobrevalorização cambial que combate a inflação, mas provoca redução da demanda interna, desindustrialização e desemprego.
m) A inflação chega a 3,5% a.a. depois de oito anos de plano Real e vinte e dois anos de reformas monetárias. O crescimento do país foi muito baixo e continua baixo.
n) O combate à inflação custou vinte anos de estagnação e baixo crescimento do emprego. E ainda custa.
o) Inflação e dinheiro são coisas mais importantes do que a teoria do imposto inflacionário e o peso morto da inflação sugerem.
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240607 Vigésima Aula:Conclusões do Curso (2)
quinta-feira, 21 de junho de 2007
PROVA SUBSTITUTIVA
AVISO : A PROVA SUBSTITUTIVA SERÁ NO DIA 27, QUARTA FEIRA, NO HORÁRIO DA AULA.
HAVERÁ AULA, NORMALMENTE, NA SEGUNDA FEIRA- DIA 25
HAVERÁ AULA, NORMALMENTE, NA SEGUNDA FEIRA- DIA 25
sexta-feira, 15 de junho de 2007
200607 Perguntas da Terceira Prova
O preço do petróleo se elvou quatro vezes numa economia que segue o regime de metas de inflação e deixa as taxas de cämbio flutuarem livremente. O capital financeiro se move com liberdade entre este país e o resto do mund o.
O Tesouro Nacional pode subsidiar o preço do petrõleo com aumento de gastos e do deficit público.
O Banco Central tem reservas elevadas de dólar e pode vender dólares para evitar a depreciação da moeda. Pode financiar o deficit público com titulos curtos de alta liquidez ou títulos de trinta anos de prazo com taxas de juros elevadas e fixas.
O objetivo tanto do Tesouro quanto do Banco Central é manter o pleno emprego, evitar a inflação e o desequilíbrio do balanço de pagamentos. Tome as seguintes decisões para atender estes objetivos:
a) subsidiar ou não o preço do petrõleo com aumento do deficit publico.
b) financiar o deficit público com papéis curtos ou longos.
c) vender reservas para evitar a desvalorização do càmbio ou não
d) elevar as taxas de juros ou não.
Suponnha os seguintes casos( cada caso é uma resposta e vale 2,5 pontos). Justifique cada resposta em termos destes objetivos.
1) Economia em desemprego e baixa inflação com deficit no balanço comercial.
2) Economia em desemprego e inflação baixa com superavit no balanço comercial.
3) Economia crescendo rapidamente, sem experiencia inflacionãria anterior e superavit no balanço comercial.
4) Economia crescendo rapidamente, com experiëncia inflacionãria antiga e deficit no balanço comercial.
5) Economia crescendo lentamente, com experiencia inflacionãria antiga e superavit no balanço comercial.
Lembre que as reservas em dólar são parte do ativo do Banco Central assim como os titulos públicos do governo.
O Tesouro Nacional pode subsidiar o preço do petrõleo com aumento de gastos e do deficit público.
O Banco Central tem reservas elevadas de dólar e pode vender dólares para evitar a depreciação da moeda. Pode financiar o deficit público com titulos curtos de alta liquidez ou títulos de trinta anos de prazo com taxas de juros elevadas e fixas.
O objetivo tanto do Tesouro quanto do Banco Central é manter o pleno emprego, evitar a inflação e o desequilíbrio do balanço de pagamentos. Tome as seguintes decisões para atender estes objetivos:
a) subsidiar ou não o preço do petrõleo com aumento do deficit publico.
b) financiar o deficit público com papéis curtos ou longos.
c) vender reservas para evitar a desvalorização do càmbio ou não
d) elevar as taxas de juros ou não.
Suponnha os seguintes casos( cada caso é uma resposta e vale 2,5 pontos). Justifique cada resposta em termos destes objetivos.
1) Economia em desemprego e baixa inflação com deficit no balanço comercial.
2) Economia em desemprego e inflação baixa com superavit no balanço comercial.
3) Economia crescendo rapidamente, sem experiencia inflacionãria anterior e superavit no balanço comercial.
4) Economia crescendo rapidamente, com experiëncia inflacionãria antiga e deficit no balanço comercial.
5) Economia crescendo lentamente, com experiencia inflacionãria antiga e superavit no balanço comercial.
Lembre que as reservas em dólar são parte do ativo do Banco Central assim como os titulos públicos do governo.
sábado, 9 de junho de 2007
110706 Décima Nona Aula—Comentários finais variados.
110706 Décima Nona Aula—Comentários finais variados.
1) Nesta última aula, apresentamos diversos comentários a guisa de conclusão do curso.
2) O debate sobre teoria monetária entre clássicos e seus herdeiros e não clássicos e seus herdeiros permanecem.
3) Para os clássicos, o dinheiro é apenas um instrumento que “viabiliza uma imensa economia de trocas”.
4) A inflação resulta do excesso de dinheiro, causado pelo déficit público.
5) O mundo mudou e não se pode mais falar em controle da quantidade de moeda. Vivemos numa economia de “credito puro”como definida por Wicksell. A taxa de juros é variável que pode ser controlada. Mas variações nas taxas de juros aumentam a despesa do governo que deveria compensá-la por reduções nas outras despesas, não importa o caráter destas despesas.
6) Os não clássicos apontam o processo de formação de preços na economia moderna como principal causa do fenômeno inflacionário.
7) Apesar de se afirmar que o keynesianismo morreu, a linguagem do regime de metas de inflação que menciona “core inflation”, inflação de preços competitivos, inflação de preços administrados e efeito transmissão é uma linguagem mais consistente com as teorias keynesiana e/ou estruturalista do que com o pensamento clássico.
8) No caso do Brasil, a dívida pública é de prazo muito curto e uma grande parte dela, indexada a inflação ou aos juros do dia. Trocar dinheiro por dívida pública é trocar um instrumento liquido, o dinheiro, por outro, igualmente líquido com as vantagens adicionais de render juros elevados e a prova de variações na política monetária.
9) Quando o Banco Central americano aumenta as taxas de juros, a demanda se contrai por vários mecanismos. Primeiro há uma perda de capital na dívida de juros fixos lançada anteriormente. Há uma redução na riqueza do setor privado que deve contrair consumo. E reduz-se o investimento. A despesa pública do Tesouro Americano com juros aumenta apenas no que se refere a dívida nova.
10) Quando o Banco Central brasileiro aumenta as taxas de juros, não há perda de capital significante. Pois a maior parte da dívida é de juros flutuantes. Portanto, não há perda de capital para os carregadores da dívida nem efeito riqueza que induza a redução do consumo privado. Por outro lado, as despesas com juros aumentam sobre o total da dívida emitida. Aumentam os pagamentos de transferência, os pagamentos de juros, semelhantes ao pagamento de aposentadorias e computados como parte da renda pessoal de acordo com a contabilidade nacional.
11) A acusação permanente do déficit público como responsável pela inflação não considera o fato de que uma parte considerável das despesas do governo são despesas com juros. Se os juros reais fossem de 6% a.a. o governo brasileiro teria déficit nominal nulo no ano de2006 e2007.
12) O que aconteceu na realidade no mundo inteiro depois dos anos 80 foi a modificação das prioridades da política econômica. O emprego deixou de ter a prioridade anterior, do período keynesiano, e a inflação passou a ser o único objetivo.
13) Isto foi possível graças à mobilidade internacional do capital financeiro e a liberação das importações. Trabalhadores do mundo inteiro concorrem com os trabalhadores chineses através das exportações chinesas.
14) A curva de Philips continua tendo declividade negativa, no curto prazo, sempre e o longo prazo, continua distante. Mas o emprego deixou de ser variável relevante.
15) A política econômica atual, no Brasil e no mundo, procura a inflação baixa como objetivo principal. A existência de uma reserva de valor garantida contra a inflação é a preocupação principal. Entretanto, num mundo de mercados de produtos diferenciados e formação de preço baseada na política de cost plus este é um objetivo caro de ser obtido, quando se considera o custo em termos de emprego e produção.
16) Nos anos 70, Galbraith previu que o enriquecimento do mundo aumentaria a demanda por bens públicos como o lazer e o meio ambiente. Errou redondamente. O enriquecimento do mundo aumentou a demanda por dinheiro e ativos financeiros que passaram a ser o ativo preferido dos investidores do mundo inteiro. A política macroeconômica tenta atender a esta demanda maior garantindo estabilidade de preços e relegando o emprego a prioridade menor.
1) Nesta última aula, apresentamos diversos comentários a guisa de conclusão do curso.
2) O debate sobre teoria monetária entre clássicos e seus herdeiros e não clássicos e seus herdeiros permanecem.
3) Para os clássicos, o dinheiro é apenas um instrumento que “viabiliza uma imensa economia de trocas”.
4) A inflação resulta do excesso de dinheiro, causado pelo déficit público.
5) O mundo mudou e não se pode mais falar em controle da quantidade de moeda. Vivemos numa economia de “credito puro”como definida por Wicksell. A taxa de juros é variável que pode ser controlada. Mas variações nas taxas de juros aumentam a despesa do governo que deveria compensá-la por reduções nas outras despesas, não importa o caráter destas despesas.
6) Os não clássicos apontam o processo de formação de preços na economia moderna como principal causa do fenômeno inflacionário.
7) Apesar de se afirmar que o keynesianismo morreu, a linguagem do regime de metas de inflação que menciona “core inflation”, inflação de preços competitivos, inflação de preços administrados e efeito transmissão é uma linguagem mais consistente com as teorias keynesiana e/ou estruturalista do que com o pensamento clássico.
8) No caso do Brasil, a dívida pública é de prazo muito curto e uma grande parte dela, indexada a inflação ou aos juros do dia. Trocar dinheiro por dívida pública é trocar um instrumento liquido, o dinheiro, por outro, igualmente líquido com as vantagens adicionais de render juros elevados e a prova de variações na política monetária.
9) Quando o Banco Central americano aumenta as taxas de juros, a demanda se contrai por vários mecanismos. Primeiro há uma perda de capital na dívida de juros fixos lançada anteriormente. Há uma redução na riqueza do setor privado que deve contrair consumo. E reduz-se o investimento. A despesa pública do Tesouro Americano com juros aumenta apenas no que se refere a dívida nova.
10) Quando o Banco Central brasileiro aumenta as taxas de juros, não há perda de capital significante. Pois a maior parte da dívida é de juros flutuantes. Portanto, não há perda de capital para os carregadores da dívida nem efeito riqueza que induza a redução do consumo privado. Por outro lado, as despesas com juros aumentam sobre o total da dívida emitida. Aumentam os pagamentos de transferência, os pagamentos de juros, semelhantes ao pagamento de aposentadorias e computados como parte da renda pessoal de acordo com a contabilidade nacional.
11) A acusação permanente do déficit público como responsável pela inflação não considera o fato de que uma parte considerável das despesas do governo são despesas com juros. Se os juros reais fossem de 6% a.a. o governo brasileiro teria déficit nominal nulo no ano de2006 e2007.
12) O que aconteceu na realidade no mundo inteiro depois dos anos 80 foi a modificação das prioridades da política econômica. O emprego deixou de ter a prioridade anterior, do período keynesiano, e a inflação passou a ser o único objetivo.
13) Isto foi possível graças à mobilidade internacional do capital financeiro e a liberação das importações. Trabalhadores do mundo inteiro concorrem com os trabalhadores chineses através das exportações chinesas.
14) A curva de Philips continua tendo declividade negativa, no curto prazo, sempre e o longo prazo, continua distante. Mas o emprego deixou de ser variável relevante.
15) A política econômica atual, no Brasil e no mundo, procura a inflação baixa como objetivo principal. A existência de uma reserva de valor garantida contra a inflação é a preocupação principal. Entretanto, num mundo de mercados de produtos diferenciados e formação de preço baseada na política de cost plus este é um objetivo caro de ser obtido, quando se considera o custo em termos de emprego e produção.
16) Nos anos 70, Galbraith previu que o enriquecimento do mundo aumentaria a demanda por bens públicos como o lazer e o meio ambiente. Errou redondamente. O enriquecimento do mundo aumentou a demanda por dinheiro e ativos financeiros que passaram a ser o ativo preferido dos investidores do mundo inteiro. A política macroeconômica tenta atender a esta demanda maior garantindo estabilidade de preços e relegando o emprego a prioridade menor.
110607 Décima Oitava Aula—A economia indexada.
110607 Décima Oitava Aula—A economia indexada.
1) O processo inflacionário- a elevação continuada do nível geral de preços—se dá pelo reajuste constante de todos os preços.
2) Este reajuste é espontâneo, no caso dos mercados competitivos, onde os preços aumentam por causa do aumento da demanda nominal;
3) ou decidido no caso de setores onde os preços são fixados pelas empresas com base no aumento de custos e da aplicação de um mark-up sobre estes custos;
4) ou por pressão dos trabalhadores e sindicatos
5) ou corrigidos por decisões governamentais como no caso dos preços públicos ou da taxa cambial quando ela é fixa.
6) São reajustes de preços determinados pelo mercado, por empresas ou pelo governo.
7) A indexação é a formalização destes processos de reajuste através de leis e regulamentos que determinam os índices de preços de que período( ano passado, mês passado ou semana passada) a serem usadas para cada caso; a periodicidade dos reajustes—anuais, semestrais, mensais ou diários.
8) Em 1974 a economia brasileira era uma economia muito indexada. Vários países haviam indexado suas economias, como o Chile e Israel. Mas foram processos de indexação mais curtos e menos abrangentes que o brasileiro.
9) O câmbio era corrigido diariamente assim como vários títulos públicos. A prestação da casa própria, dependendo do tipo de financiamento, mensal ou anualmente. Os aluguéis, anualmente. Os preços industriais, quando o aumento era justificado por aumento de custos e aprovado pelo Conselho Interministerial de Preços, CIP. Os salários eram fixados de acordo com a lei salarial.Os preços mínimos para a agricultura eram fixados de acordo com a demanda e a oferta de cada produto, levando em conta os mercados domésticos e internacionais. Os preços agrícolas em geral eram livremente determinados no mercado.
10) A indexação precisa ser imperfeita, como vimos nas aulas sobre os neoclássicos e a proposta de moeda “tabular”. Se o nível geral de preços P é uma média ponderada de todos os preços e todos os preços se corrigem automáticamente em proporção ao nível geral de preços, este é indeterminado ou tende ao infinito. Em outras palavras, se todos calculam o poder de compra do dinheiro para fixar seus preços, o valor do dinheiro ou o nível geral de preços é indeterminado.
11) Por esta razão afirmamos em aula anterior que o dinheiro é um mito, ou seja, uma história que não pode ser decifrada. Algum preço importante (salário ou câmbio) precisa ser nominalmente rígido numa economia não indexada. Ou imperfeitamente indexado, no caso de uma economia indexada.
12) No caso da economia brasileira, este preço, que faz o papel de âncora era o salário.
13) No caso da economia brasileira, as funções do dinheiro estavam fragmentadas em diversos instrumentos. A unidade de conta era algum índice de preço. Assim como a reserva de valor. Ao cruzeiro, moeda formal e oficial da época, restava apenas a função de meio de pagamento ou seja, de liquidação dos débitos e créditos.
14) Com taxas de inflação medidas pelos preços em cruzeiro, os pagamentos precisavam ser feitos de forma muito rápida. Pois a inflação corroia o valor da transação se a liquidação durasse uma semana ou alguns dias. Não é por acaso que o sistema bancário brasileiro se organizou de forma a realizar transferências de dinheiro em tempo muito rápido, no mesmo dia, desde os anos 70. O cruzeiro era usado simplesmente como uma “passagem” muito rápida, já que o seu valor se reduzia diariamente. Nos Estados Unidos e na Europa as transferências de recursos entre agencias de cidades diferentes leva um tempo muito grande, para padrões brasileiros.
15) Em resumo, a moeda nacional era a taxa de inflação, no caso de unidade de conta e o cruzeiro, para pagamentos. Mas o cruzeiro era irrelevante como moeda.
16) Poderíamos dizer que, se a moeda nacional para unidade de conta era a taxa de inflação, a inflação relevante deveria ser a taxa de inflação da taxa de inflação. Ou seja, a aceleração da taxa de inflação. O que “atrapalhava”a a economia não era a taxa de inflação, digamos de 40% a.a., mas a passagem da taxa de inflação de 40 parra 50% a.a.
17) “Atrapalhava” por que, por mais perfeito que fosse o processo de indexação, havia sempre uma defasagem no cálculo dos índices de preços e, portanto, uma imperfeição na correção aplicada. Se a defasagem fosse de um ano, por exemplo, e se a inflação passasse de 40 para 50%, a correção no ano t seria de 40% enquanto a inflação corrente já era 50%.
18) Se a taxa de inflação fosse totalmente previsível ou se fosse absolutamente constante, não haveria problemas na formação de preços pois todos os preços seriam corrigidos em 40% . Se as datas de reajuste fossem iguais, digamos no dia primeiro de janeiro de cada ano, todos os preços seriam corrigidos em 40% ao mesmo tempo e todos concluiriam que a correção era desnecessária ou redundante. Seria como dividir todos os preços por 1000 numa economia não indexada.
19) A inflação na economia indexada era funcional, ou seja, cumpria um papel e “atrapalhava”o funcionamento da economia por duas razões: por que no mundo real ela é necessariamente imperfeita e porque estava em constante aceleração.
20) Para os clássicos, a moeda é um “véu” ou “neutra” se nenhum agente econômico tiver preços nominais rígidos. Se os clássicos tivessem estudado economias indexadas, diriam que a taxa de inflação é neutra, isto é, não afeta o funcionamento dos mercados se for totalmente previsível e se todos os preços se ajustarem com a mesma perfeição.
21) Com indexação imperfeita, a indexação aumenta a taxa de inflação quando há necessidade de variação de algum preço relativo, isto é, quando há um choque de custos, como vimos no artigo do Brainard. E reduz a taxa de inflação, quando há um aumento de preços causado por aumento generalizado da demanda nominal, isto é, aumento da quantidade de moeda (inflação de demanda).
22) Se o dinheiro for um bem desejado por si mesmo e não como um simples objeto que facilita as trocas, um ticket refeição ou um passe de ônibus, não há por que se preocupar com a inflação. Ela seria “neutra”, isto é, não afetaria o processo de formação de preços. Seria apenas um “estorvo”, um desconforto que permite ao governo arrecadar o imposto inflacionário e custa, para a economia como um todo, o “peso morto” da inflação, como vimos em aula passada.
23) Eu calculei a distribuição de taxas de inflação no artigo “Rural Credit and Rates of Interest”citado na bibliografia. As taxas de inflação calculadas para diversos períodos e em diversos momentos de tempo ( cross section e time series) . As distribuições resultantes são assimétricas—a moda (a classe de maior freqüência) está a esquerda da média. Assim, quando a inflação era de 10% ao mês, a maioria dos preços era corrigida por taxas muito menores do que 10% e apenas alguns preços eram corrigidos muito acima da média.
24) Além disto, verifiquei que a dispersão e a assimetria aumentavam com a taxa de inflação. Quando a inflação média era de 10% a.a. a moda era 7%. Com inflação de 20% a.a., a moda poderia ser 16% a.a. e a dispersão, medida pelo desvio padrão, aumentava.
25) As implicações deste fato são muitas. Primeiro, a inflação não era neutralizada pela indexação. Segundo, a correção monetária representava uma correção exagerada para a maior parte dos preços. Se a inflação era 20% ao mês e a maioria dos preços crescia a 16% , a correção monetária implicaria numa taxa de juros real de 4%.
26) Por isto, a correção monetária acabou sendo paga apenas pelo governo. Os empréstimos para o setor privado ou para o financiamento a casa própria acabaram sendo necessitando de ajustes ou acabaram não sendo pagos.
27) Segundo, poderíamos dizer que a inflação do período não era motivada por um excesso de demanda nominal que afetava todos os preços igualmente. Mas por um aumento de alguns preços, o petróleo inicialmente, que provocavam reajustes nos demais baseados na inflação passada. Depois, pelos reajustes da taxa cambial, as maxidesvalorizações cambiais. E finalmente pelas pressões por correções mais perfeita de salários durante o período de “redemocratização” e na época da campanha pelas “diretas-já”.
28) Como combater a inflação que subia constantemente nesta economia indexada?
29) Contração de demanda gerando desemprego e menor pressão salarial cortaria pouco a inflação. Exatamente por causa da indexação. Se os salários fossem reajustados abaixo da inflação, a inflação no mês t, qualquer, cairia pela redução de salários mas permaneceria elevada ou subiria por causa da correção de aumentos passados de outros preços. Seria um grande sacrifício com pouco resultado.
30) Persio Arida e André Lara Rezende propuseram como solução, indexar totalmente a economia.A indexação seria aperfeiçoada para todos os preços, gradualmente. Isto é, as correções seriam feitas de acordo com a variação cheia da inflação passada, em primeiro lugar e em segundo lugar, a defasagem entre data de correção e taxa de inflação seriam cada vez mais curtas.
31) A inflação subiria rapidamente, podendo até chegar a uma hiperinflação. Antes que isto acontecesse, todos os preços estariam sendo corrigidos diariamente e por um índice comum, tornando a inflação um evento neutro e irrelevante. Nesta data, todos os preços seriam fixados e iguais a média reais que haviam obtido no período passado. No item abaixo explico como isto seria feito.
32) Se a taxa cambial de 100 é corrigido no início do ano e a inflação decorrida entre a data deste reajuste e o próximo for de 100%, a taxa de cambio média real que vigorou no período entre reajustes é de 75, igual a 100+ 50 dividido por dois ( se a inflação for linear no intervalo).
33) Se os períodos de reajuste fossem cada vez menores, no dia da mudança da velha moeda para uma nova moeda, a nova taxa cambial sereia fixada em 75 e a nova moeda seria convertida de forma que 75=1 dólar= uma unidade da nova moeda.
34) A indexação teria terminado. Se mais nada fosse feito, a pressão inflacionária anterior, fosse qual fosse a sua origem, passaria a impactar a nova moeda que passaria ter uma inflação igual a taxa de aceleração da inflação anterior.
35) Seria necessário, portanto, controlar a expansão da nova moeda controlando o déficit público, uma proposta clássica que faria sentido apenas numa economia onde o dinheiro tivesse sua quantidade controlada por alguma coisa, como a quantidade de ouro. Numa economia onde o dinheiro é crédito, seria necessário encontrar uma âncora, uma base para o valor da nova moeda.
36) Outra proposta foi apresentada por Francisco Lopes, batizada de choque heterodoxo. É exatamente igual a proposta anterior, mas no lugar de proceder a indexação cada vez mais freqüente e perfeita, o mesmo seria feito pelo governo e determinado por decreto. O governo calcularia os preços médios mais importantes—salário, câmbio, etc.--- e daria uma tabela ( tablita) a ser aplicada a todos os preços. Uma vez convertidos os preços para a média, calcular-se-iam os novos preços na nova moeda , como no caso anterior. Da mesma forma que no caso anterior, os autores propunham um drástico controle da quantidade de moeda. Numa economia de puro crédito, como são as economias modernas, o valor da moeda deveria ser controlado por uma âncora.
37) O Plano Cruzado – o governo Sarney assumiu o país com uma inflação elevada e crescente. No primeiro ano, a política do ministro Dornelles consistiu em elevar os juros reais e controlar os preços das estatais. Esta política vigorou até agosto de 1985, quando Dornelles deixou o cargo com inflação ainda mais alta, déficit público maior por causa dos juros e dos prejuízos das estatais.
38) Em fevereiro de 1986, soube-se que líder do governo na Câmara, Pimenta da Veiga, não só apoiaria a demanda da Cut, de reajustes salariais trimestrais, como faria uma proposta mais ousada, de correções mensais de salários.
39) Se isto acontecesse a taxa de inflação subiria ainda mais rapidamente e geraria um risco de hiperinflação. O governo lançou então o Plano Cruzado que consistia na proposta do Chico Lopes, isto é correção de todos os preços pela média e criação de uma nova moeda, o cruzado. Esta proposta foi adotada sob o argumento do ministro Pazzianoto que afirmou que seria impossível explicar aos trabalhadores o plano de indexação generalizada.
40) Qual seria a âncora? Os salários, evidentemente, não poderiam ser. Pois eram as pressões salariais que estavam puxando a inflação e os salários já haviam sido âncoras involuntárias durante o governo militar.
41) A taxa cambial também não poderia ser. Pois o país estava ainda sob a crise da dívida externa, com relações financeiras com o resto do mundo interrompidas. Havia escassez de dólares e não haviam empréstimos voluntários para o país.
42) Não podendo ser nenhum dos dois preços, a ultima hora, definiu-se um congelamento geral de preços. Que evidentemente não poderia funcionar por muito tempo numa economia complexa e diversificada como a brasileira.
43) O Plano foi recebido com entusiasmo e adesões voluntárias. A inflação caiu para zero nos meses subseqüentes ao plano.
44) A demanda de moeda subiu rapidamente, a dívida pública foi monetizada a tal ponto que quase sumiu. E a economia começou a crescer rapidamente.
45) Como conseqüência houve um grande aumento da demanda e pressões fortes sobre o congelamento de preços, sendo o congelamento dos preços da carne o que mais chamou a atenção da imprensa e da opinião pública. A falta de carne foi apenas o mais notável caso de desabastecimento que depois atingiu muitos outros produtos e setores.
46) Em julho de 1986, os economistas e autoridades econômicas do governo se reuniram em Carajás para discutir as correções do plano. Havia duas propostas: moratória da dívida externa e controle do déficit público. A moratória não traria dólares ao pais, Pelo contrário, agravaria o problema. O presidente apoiou a idéia de corte do déficit público, ainda que na imprensa tenha sido relatado de que ele não havia apoiado a idéia.
47) Mas o controle do déficit público além de difícil , seria insuficiente. Difícil pela sua própria natureza financeira- criado principalmente. pela crise da dívida externa, Insuficiente, pois o crescimento da demanda do setor privado era muito maior do que qualquer controle possível do déficit.
48) A única solução teria sido o aumento dos juros que entretanto foi rejeitado desde o inicio por causa das pressões de custo que causaria.
49) A inflação continuou a subir e em novembro, logo depois da eleição para a Constituinte, definiu-se nova correção. Os preços de bens considerados supérfluos (gasolina, cerveja, cigarros, passagens de avião e outros) teriam um empréstimo compulsório embutido e este empréstimo não seria considerado no cálculo dos índices. Pois se fossem, aumentariam a inflação medida e a pressão para novos reajustes.
50) O Cruzado II foi recebido com manifestações na Esplanada do Ministério, queima de carros, pedradas etc. O Plano Cruzado havia acabado.
51) Não poderia nunca ter dado certo. Não havia âncora possível enquanto a crise da dívida externa perdurasse. E antes do Plano, a inflação se acelerava, ou seja, não era inercial de forma alguma. Se tivesse dado certo, a inflação resultante seria no míniimo igual a aceleração da taxa de inflação do período anterior.
52) Em março de 1987, assume o ministro Bresser que tenta novamente a indexação generalizada dos preços para posteriormente substituir a moeda cruzado por outra. Sai do governo antes que o plano possa se completar.
53) O Ministro Maílson da Nóbrega assume em seguida. Lança o Plano Verão que consistia em congelamento de preços e o lançamento de uma nova moeda, o Novo Cruzado. O plano fracassa rapidamente e Maílson segue o que chamou de “política do feijão com arroz”—taxas de juros muito altas e tentativa de controle do déficit público.
54) Em 1989, o Banco Central financiava a divida pública a taxas de 80% ao mês. A taxa absurda, em termos nominais, era “comida”pela taxa de inflação e calculadas posteriormente, eram iguais a zero em termos reais.
55) Em 1990 , o Presidente Collor assume o governo e lança o Plano Collor.
56) No tocante a indexação e congelamento de preços era igual aos demais. Mas resolveu substituir completamente a moeda antiga, e criar uma nova moeda. Todos os depósitos em novos cruzado seriam congelados , podendo ser usados apenas para pagar empréstimos e outras obrigações financeiras assumidas anteriormente. Assim, a moeda antiga desapareceria—créditos e débitos se cancelavam mutuamente e sobrava apenas a base monetária. Esta nova base monetária seria distribuída entre empresas de acordo com uma proporção dos depósitos existentes na data do Plano. No caso de pessoas físicas, seria distribuído apenas 50 cruzeiros por conta, O restante seria devolvido 24 meses depois com juros e correção monetária.
57) Como a restrição monetária foi excessiva, logo apareceram pressões para liberar depósitos de setores específicos—hospitais, antes, depois outros. O Professor Pastore, em artigo mencionado na lista de leitura, ponderou corretamente, que a inflação não é causada pela quantidade existente de dinheiro mas sim pela sua taxa de crescimento. Como a quantidade inicial fixada foi excessivamente baixa, a pressão para aumentar a liquidez da economia foi enorme e teve que ser atendida.
58) O Presidente Collor é “impeached” em 1992 por corrupção. Fernando Henrique Cardoso, chanceler, assume em 1993 o ministério da Fazenda e traz a mesma equipe do Cruzado para elaborar novo plano.
59) Em 1993 o país começa a renegociar a dívida externa. Foi o último dos países latino americanos a renegociar. Os bancos credores já haviam se capitalizado, nos 11 anos que se seguiram a crise da dívida, e a dívida poderia ser trocada por bônus de vários tipos, taxas de juros e prazos, que o país poderia pagar.
60) Ao mesmo tempo, o saldo comercial era elevado e as reservas chegavam a 40 bilhões de dólares.
61) O mesmo decreto de indexação geral do Cruzado, que não havia sido usado antes, foi adotado. Mas agora, a entrada de capitais e renegociação da dívida criaram a possibilidade de usar o câmbio como âncora da nova moeda.
62) Em março de 1994, os processos de indexação são aperfeiçoados , tornando-se generalizados e cada vez mais curtos. A correção é feita pela URV, unidade referencial de valor. Em julho de 1994, o governo fixa uma paridade de uma urv igual a um dólar e igual a um real. E lança a nova moeda.
63) O Ministro Simonsen responde a um jornalista que URV são as três letras no meio da palavra CURVA, demonstrando que a afirmação de Pazzianoto que ninguém entenderia o processo de indexação generalizada era verdadeira. Qual é o valor da moeda? Uma urv? Só quando uma urv se torna igual a um dólar, a um valor específico, o valor da moeda é definido e compreendido.
64) O plano é recebido com entusiasmo. Não há congelamento de preços. Há uma grande entrada de dólares, decorrente deste apoio ao plano, e a taxa cambial vai de um real a 85 centavos de dólar.
65) Há um grande crescimento das importações e cresce o déficit comercial do país. Gustavo Franco argumenta que paises em desenvolvimento precisam importar “poupança” e que o déficit representava esta “importação”. Na realidade, estávamos importando dólares, estoques, e não poupança e a desconfiança logo interromperia este fluxo.
66) As taxas de juros são fixadas em 25% ao mês, logo em agosto. Quem estivesse vendido em dólares, isto é, devendo dólares e aplicado em reais, ganhou, naqueles dois meses, 40% por dois meses= 25% de juros mais 15% de valorização do real.
67) Em conseqüência, a dívida pública não foi monetizada e permanece inicialmente igual e depois começa a crescer pela pressão dos juros.
68) Em março de 1995, a economia mexicana entra em crise apesar do baixo déficit público. Havia acumulado uma dívida externa elevada.
69) A crise afeta o Brasil por contágio e em março deste ano a taxa de cambio do real é desvalorizada. Mas há fugas de capital e as taxas de juros se elevam provocando retração do nível de atividade.
70) No primeiro mandato, a política é mantida. Dólar sobre valorizado mantido às custas de taxas de juros domésticas muito elevadas. A dívida pública cresce de 30% do PIB a 60% do PIB. Se considerarmos taxas de juros reais médias de 15% a.a. representam um gasto de 15% vezes 60% do PIB ou seja de 9 % do PIB. O déficit público permanece elevado. A inflação cai constantemente.
71) No segundo mandato, o governo deixa a taxa cambial flutuar. Atinge dois reais, uma desvalorização de quase 100% logo no início. Depois, as crises financeiras do Sudeste da Ásia, da Rússia e em 2001, da Argentina, mantem a taxa cambial sempre sob cuidados, chegando a 3 reais em 2003. O antídoto são as taxas de juros domésticas elevadas para atrair capital externo e manter a sobrevalorização.
72) No segundo mandato, o governo anuncia a adoção do regime de metas de inflação. A taxa de juros é fixada levando em conta as expectativas de inflação, apenas, enquanto a taxa de câmbio flutua livremente.
73) A eleição do presidente Lula causa pânico no mercado financeiro, por causa da sua posição política. O dólar chega a custar mais do que três reais. As taxas de juros são ainda mais elevadas.
74) Na realidade, o governo sempre intervem no mercado cambial, vendendo dólares, títulos indexados ao dólar ou swaps cambiais. O que provoca elevações ainda maiores da dívida pública em momentos de crise.
75) O primeiro mandato do presidente Lula mantem a política praticando juros reais muito elevados, apesar do superávits comerciais e da queda da taxa de inflação.
76) Em 2007, a inflação projetada é de3,5%, a taxa de crescimento do produto parece que finalmente vai crescer, depois de doze anos de baixo crescimento e juros elevados.
77) A inflação está controlada pelo câmbio. E o câmbio, controlado pelas taxas de juros, durante a maior parte do período. E pelos grandes superávits comerciais nos últimos quatro anos.
1) O processo inflacionário- a elevação continuada do nível geral de preços—se dá pelo reajuste constante de todos os preços.
2) Este reajuste é espontâneo, no caso dos mercados competitivos, onde os preços aumentam por causa do aumento da demanda nominal;
3) ou decidido no caso de setores onde os preços são fixados pelas empresas com base no aumento de custos e da aplicação de um mark-up sobre estes custos;
4) ou por pressão dos trabalhadores e sindicatos
5) ou corrigidos por decisões governamentais como no caso dos preços públicos ou da taxa cambial quando ela é fixa.
6) São reajustes de preços determinados pelo mercado, por empresas ou pelo governo.
7) A indexação é a formalização destes processos de reajuste através de leis e regulamentos que determinam os índices de preços de que período( ano passado, mês passado ou semana passada) a serem usadas para cada caso; a periodicidade dos reajustes—anuais, semestrais, mensais ou diários.
8) Em 1974 a economia brasileira era uma economia muito indexada. Vários países haviam indexado suas economias, como o Chile e Israel. Mas foram processos de indexação mais curtos e menos abrangentes que o brasileiro.
9) O câmbio era corrigido diariamente assim como vários títulos públicos. A prestação da casa própria, dependendo do tipo de financiamento, mensal ou anualmente. Os aluguéis, anualmente. Os preços industriais, quando o aumento era justificado por aumento de custos e aprovado pelo Conselho Interministerial de Preços, CIP. Os salários eram fixados de acordo com a lei salarial.Os preços mínimos para a agricultura eram fixados de acordo com a demanda e a oferta de cada produto, levando em conta os mercados domésticos e internacionais. Os preços agrícolas em geral eram livremente determinados no mercado.
10) A indexação precisa ser imperfeita, como vimos nas aulas sobre os neoclássicos e a proposta de moeda “tabular”. Se o nível geral de preços P é uma média ponderada de todos os preços e todos os preços se corrigem automáticamente em proporção ao nível geral de preços, este é indeterminado ou tende ao infinito. Em outras palavras, se todos calculam o poder de compra do dinheiro para fixar seus preços, o valor do dinheiro ou o nível geral de preços é indeterminado.
11) Por esta razão afirmamos em aula anterior que o dinheiro é um mito, ou seja, uma história que não pode ser decifrada. Algum preço importante (salário ou câmbio) precisa ser nominalmente rígido numa economia não indexada. Ou imperfeitamente indexado, no caso de uma economia indexada.
12) No caso da economia brasileira, este preço, que faz o papel de âncora era o salário.
13) No caso da economia brasileira, as funções do dinheiro estavam fragmentadas em diversos instrumentos. A unidade de conta era algum índice de preço. Assim como a reserva de valor. Ao cruzeiro, moeda formal e oficial da época, restava apenas a função de meio de pagamento ou seja, de liquidação dos débitos e créditos.
14) Com taxas de inflação medidas pelos preços em cruzeiro, os pagamentos precisavam ser feitos de forma muito rápida. Pois a inflação corroia o valor da transação se a liquidação durasse uma semana ou alguns dias. Não é por acaso que o sistema bancário brasileiro se organizou de forma a realizar transferências de dinheiro em tempo muito rápido, no mesmo dia, desde os anos 70. O cruzeiro era usado simplesmente como uma “passagem” muito rápida, já que o seu valor se reduzia diariamente. Nos Estados Unidos e na Europa as transferências de recursos entre agencias de cidades diferentes leva um tempo muito grande, para padrões brasileiros.
15) Em resumo, a moeda nacional era a taxa de inflação, no caso de unidade de conta e o cruzeiro, para pagamentos. Mas o cruzeiro era irrelevante como moeda.
16) Poderíamos dizer que, se a moeda nacional para unidade de conta era a taxa de inflação, a inflação relevante deveria ser a taxa de inflação da taxa de inflação. Ou seja, a aceleração da taxa de inflação. O que “atrapalhava”a a economia não era a taxa de inflação, digamos de 40% a.a., mas a passagem da taxa de inflação de 40 parra 50% a.a.
17) “Atrapalhava” por que, por mais perfeito que fosse o processo de indexação, havia sempre uma defasagem no cálculo dos índices de preços e, portanto, uma imperfeição na correção aplicada. Se a defasagem fosse de um ano, por exemplo, e se a inflação passasse de 40 para 50%, a correção no ano t seria de 40% enquanto a inflação corrente já era 50%.
18) Se a taxa de inflação fosse totalmente previsível ou se fosse absolutamente constante, não haveria problemas na formação de preços pois todos os preços seriam corrigidos em 40% . Se as datas de reajuste fossem iguais, digamos no dia primeiro de janeiro de cada ano, todos os preços seriam corrigidos em 40% ao mesmo tempo e todos concluiriam que a correção era desnecessária ou redundante. Seria como dividir todos os preços por 1000 numa economia não indexada.
19) A inflação na economia indexada era funcional, ou seja, cumpria um papel e “atrapalhava”o funcionamento da economia por duas razões: por que no mundo real ela é necessariamente imperfeita e porque estava em constante aceleração.
20) Para os clássicos, a moeda é um “véu” ou “neutra” se nenhum agente econômico tiver preços nominais rígidos. Se os clássicos tivessem estudado economias indexadas, diriam que a taxa de inflação é neutra, isto é, não afeta o funcionamento dos mercados se for totalmente previsível e se todos os preços se ajustarem com a mesma perfeição.
21) Com indexação imperfeita, a indexação aumenta a taxa de inflação quando há necessidade de variação de algum preço relativo, isto é, quando há um choque de custos, como vimos no artigo do Brainard. E reduz a taxa de inflação, quando há um aumento de preços causado por aumento generalizado da demanda nominal, isto é, aumento da quantidade de moeda (inflação de demanda).
22) Se o dinheiro for um bem desejado por si mesmo e não como um simples objeto que facilita as trocas, um ticket refeição ou um passe de ônibus, não há por que se preocupar com a inflação. Ela seria “neutra”, isto é, não afetaria o processo de formação de preços. Seria apenas um “estorvo”, um desconforto que permite ao governo arrecadar o imposto inflacionário e custa, para a economia como um todo, o “peso morto” da inflação, como vimos em aula passada.
23) Eu calculei a distribuição de taxas de inflação no artigo “Rural Credit and Rates of Interest”citado na bibliografia. As taxas de inflação calculadas para diversos períodos e em diversos momentos de tempo ( cross section e time series) . As distribuições resultantes são assimétricas—a moda (a classe de maior freqüência) está a esquerda da média. Assim, quando a inflação era de 10% ao mês, a maioria dos preços era corrigida por taxas muito menores do que 10% e apenas alguns preços eram corrigidos muito acima da média.
24) Além disto, verifiquei que a dispersão e a assimetria aumentavam com a taxa de inflação. Quando a inflação média era de 10% a.a. a moda era 7%. Com inflação de 20% a.a., a moda poderia ser 16% a.a. e a dispersão, medida pelo desvio padrão, aumentava.
25) As implicações deste fato são muitas. Primeiro, a inflação não era neutralizada pela indexação. Segundo, a correção monetária representava uma correção exagerada para a maior parte dos preços. Se a inflação era 20% ao mês e a maioria dos preços crescia a 16% , a correção monetária implicaria numa taxa de juros real de 4%.
26) Por isto, a correção monetária acabou sendo paga apenas pelo governo. Os empréstimos para o setor privado ou para o financiamento a casa própria acabaram sendo necessitando de ajustes ou acabaram não sendo pagos.
27) Segundo, poderíamos dizer que a inflação do período não era motivada por um excesso de demanda nominal que afetava todos os preços igualmente. Mas por um aumento de alguns preços, o petróleo inicialmente, que provocavam reajustes nos demais baseados na inflação passada. Depois, pelos reajustes da taxa cambial, as maxidesvalorizações cambiais. E finalmente pelas pressões por correções mais perfeita de salários durante o período de “redemocratização” e na época da campanha pelas “diretas-já”.
28) Como combater a inflação que subia constantemente nesta economia indexada?
29) Contração de demanda gerando desemprego e menor pressão salarial cortaria pouco a inflação. Exatamente por causa da indexação. Se os salários fossem reajustados abaixo da inflação, a inflação no mês t, qualquer, cairia pela redução de salários mas permaneceria elevada ou subiria por causa da correção de aumentos passados de outros preços. Seria um grande sacrifício com pouco resultado.
30) Persio Arida e André Lara Rezende propuseram como solução, indexar totalmente a economia.A indexação seria aperfeiçoada para todos os preços, gradualmente. Isto é, as correções seriam feitas de acordo com a variação cheia da inflação passada, em primeiro lugar e em segundo lugar, a defasagem entre data de correção e taxa de inflação seriam cada vez mais curtas.
31) A inflação subiria rapidamente, podendo até chegar a uma hiperinflação. Antes que isto acontecesse, todos os preços estariam sendo corrigidos diariamente e por um índice comum, tornando a inflação um evento neutro e irrelevante. Nesta data, todos os preços seriam fixados e iguais a média reais que haviam obtido no período passado. No item abaixo explico como isto seria feito.
32) Se a taxa cambial de 100 é corrigido no início do ano e a inflação decorrida entre a data deste reajuste e o próximo for de 100%, a taxa de cambio média real que vigorou no período entre reajustes é de 75, igual a 100+ 50 dividido por dois ( se a inflação for linear no intervalo).
33) Se os períodos de reajuste fossem cada vez menores, no dia da mudança da velha moeda para uma nova moeda, a nova taxa cambial sereia fixada em 75 e a nova moeda seria convertida de forma que 75=1 dólar= uma unidade da nova moeda.
34) A indexação teria terminado. Se mais nada fosse feito, a pressão inflacionária anterior, fosse qual fosse a sua origem, passaria a impactar a nova moeda que passaria ter uma inflação igual a taxa de aceleração da inflação anterior.
35) Seria necessário, portanto, controlar a expansão da nova moeda controlando o déficit público, uma proposta clássica que faria sentido apenas numa economia onde o dinheiro tivesse sua quantidade controlada por alguma coisa, como a quantidade de ouro. Numa economia onde o dinheiro é crédito, seria necessário encontrar uma âncora, uma base para o valor da nova moeda.
36) Outra proposta foi apresentada por Francisco Lopes, batizada de choque heterodoxo. É exatamente igual a proposta anterior, mas no lugar de proceder a indexação cada vez mais freqüente e perfeita, o mesmo seria feito pelo governo e determinado por decreto. O governo calcularia os preços médios mais importantes—salário, câmbio, etc.--- e daria uma tabela ( tablita) a ser aplicada a todos os preços. Uma vez convertidos os preços para a média, calcular-se-iam os novos preços na nova moeda , como no caso anterior. Da mesma forma que no caso anterior, os autores propunham um drástico controle da quantidade de moeda. Numa economia de puro crédito, como são as economias modernas, o valor da moeda deveria ser controlado por uma âncora.
37) O Plano Cruzado – o governo Sarney assumiu o país com uma inflação elevada e crescente. No primeiro ano, a política do ministro Dornelles consistiu em elevar os juros reais e controlar os preços das estatais. Esta política vigorou até agosto de 1985, quando Dornelles deixou o cargo com inflação ainda mais alta, déficit público maior por causa dos juros e dos prejuízos das estatais.
38) Em fevereiro de 1986, soube-se que líder do governo na Câmara, Pimenta da Veiga, não só apoiaria a demanda da Cut, de reajustes salariais trimestrais, como faria uma proposta mais ousada, de correções mensais de salários.
39) Se isto acontecesse a taxa de inflação subiria ainda mais rapidamente e geraria um risco de hiperinflação. O governo lançou então o Plano Cruzado que consistia na proposta do Chico Lopes, isto é correção de todos os preços pela média e criação de uma nova moeda, o cruzado. Esta proposta foi adotada sob o argumento do ministro Pazzianoto que afirmou que seria impossível explicar aos trabalhadores o plano de indexação generalizada.
40) Qual seria a âncora? Os salários, evidentemente, não poderiam ser. Pois eram as pressões salariais que estavam puxando a inflação e os salários já haviam sido âncoras involuntárias durante o governo militar.
41) A taxa cambial também não poderia ser. Pois o país estava ainda sob a crise da dívida externa, com relações financeiras com o resto do mundo interrompidas. Havia escassez de dólares e não haviam empréstimos voluntários para o país.
42) Não podendo ser nenhum dos dois preços, a ultima hora, definiu-se um congelamento geral de preços. Que evidentemente não poderia funcionar por muito tempo numa economia complexa e diversificada como a brasileira.
43) O Plano foi recebido com entusiasmo e adesões voluntárias. A inflação caiu para zero nos meses subseqüentes ao plano.
44) A demanda de moeda subiu rapidamente, a dívida pública foi monetizada a tal ponto que quase sumiu. E a economia começou a crescer rapidamente.
45) Como conseqüência houve um grande aumento da demanda e pressões fortes sobre o congelamento de preços, sendo o congelamento dos preços da carne o que mais chamou a atenção da imprensa e da opinião pública. A falta de carne foi apenas o mais notável caso de desabastecimento que depois atingiu muitos outros produtos e setores.
46) Em julho de 1986, os economistas e autoridades econômicas do governo se reuniram em Carajás para discutir as correções do plano. Havia duas propostas: moratória da dívida externa e controle do déficit público. A moratória não traria dólares ao pais, Pelo contrário, agravaria o problema. O presidente apoiou a idéia de corte do déficit público, ainda que na imprensa tenha sido relatado de que ele não havia apoiado a idéia.
47) Mas o controle do déficit público além de difícil , seria insuficiente. Difícil pela sua própria natureza financeira- criado principalmente. pela crise da dívida externa, Insuficiente, pois o crescimento da demanda do setor privado era muito maior do que qualquer controle possível do déficit.
48) A única solução teria sido o aumento dos juros que entretanto foi rejeitado desde o inicio por causa das pressões de custo que causaria.
49) A inflação continuou a subir e em novembro, logo depois da eleição para a Constituinte, definiu-se nova correção. Os preços de bens considerados supérfluos (gasolina, cerveja, cigarros, passagens de avião e outros) teriam um empréstimo compulsório embutido e este empréstimo não seria considerado no cálculo dos índices. Pois se fossem, aumentariam a inflação medida e a pressão para novos reajustes.
50) O Cruzado II foi recebido com manifestações na Esplanada do Ministério, queima de carros, pedradas etc. O Plano Cruzado havia acabado.
51) Não poderia nunca ter dado certo. Não havia âncora possível enquanto a crise da dívida externa perdurasse. E antes do Plano, a inflação se acelerava, ou seja, não era inercial de forma alguma. Se tivesse dado certo, a inflação resultante seria no míniimo igual a aceleração da taxa de inflação do período anterior.
52) Em março de 1987, assume o ministro Bresser que tenta novamente a indexação generalizada dos preços para posteriormente substituir a moeda cruzado por outra. Sai do governo antes que o plano possa se completar.
53) O Ministro Maílson da Nóbrega assume em seguida. Lança o Plano Verão que consistia em congelamento de preços e o lançamento de uma nova moeda, o Novo Cruzado. O plano fracassa rapidamente e Maílson segue o que chamou de “política do feijão com arroz”—taxas de juros muito altas e tentativa de controle do déficit público.
54) Em 1989, o Banco Central financiava a divida pública a taxas de 80% ao mês. A taxa absurda, em termos nominais, era “comida”pela taxa de inflação e calculadas posteriormente, eram iguais a zero em termos reais.
55) Em 1990 , o Presidente Collor assume o governo e lança o Plano Collor.
56) No tocante a indexação e congelamento de preços era igual aos demais. Mas resolveu substituir completamente a moeda antiga, e criar uma nova moeda. Todos os depósitos em novos cruzado seriam congelados , podendo ser usados apenas para pagar empréstimos e outras obrigações financeiras assumidas anteriormente. Assim, a moeda antiga desapareceria—créditos e débitos se cancelavam mutuamente e sobrava apenas a base monetária. Esta nova base monetária seria distribuída entre empresas de acordo com uma proporção dos depósitos existentes na data do Plano. No caso de pessoas físicas, seria distribuído apenas 50 cruzeiros por conta, O restante seria devolvido 24 meses depois com juros e correção monetária.
57) Como a restrição monetária foi excessiva, logo apareceram pressões para liberar depósitos de setores específicos—hospitais, antes, depois outros. O Professor Pastore, em artigo mencionado na lista de leitura, ponderou corretamente, que a inflação não é causada pela quantidade existente de dinheiro mas sim pela sua taxa de crescimento. Como a quantidade inicial fixada foi excessivamente baixa, a pressão para aumentar a liquidez da economia foi enorme e teve que ser atendida.
58) O Presidente Collor é “impeached” em 1992 por corrupção. Fernando Henrique Cardoso, chanceler, assume em 1993 o ministério da Fazenda e traz a mesma equipe do Cruzado para elaborar novo plano.
59) Em 1993 o país começa a renegociar a dívida externa. Foi o último dos países latino americanos a renegociar. Os bancos credores já haviam se capitalizado, nos 11 anos que se seguiram a crise da dívida, e a dívida poderia ser trocada por bônus de vários tipos, taxas de juros e prazos, que o país poderia pagar.
60) Ao mesmo tempo, o saldo comercial era elevado e as reservas chegavam a 40 bilhões de dólares.
61) O mesmo decreto de indexação geral do Cruzado, que não havia sido usado antes, foi adotado. Mas agora, a entrada de capitais e renegociação da dívida criaram a possibilidade de usar o câmbio como âncora da nova moeda.
62) Em março de 1994, os processos de indexação são aperfeiçoados , tornando-se generalizados e cada vez mais curtos. A correção é feita pela URV, unidade referencial de valor. Em julho de 1994, o governo fixa uma paridade de uma urv igual a um dólar e igual a um real. E lança a nova moeda.
63) O Ministro Simonsen responde a um jornalista que URV são as três letras no meio da palavra CURVA, demonstrando que a afirmação de Pazzianoto que ninguém entenderia o processo de indexação generalizada era verdadeira. Qual é o valor da moeda? Uma urv? Só quando uma urv se torna igual a um dólar, a um valor específico, o valor da moeda é definido e compreendido.
64) O plano é recebido com entusiasmo. Não há congelamento de preços. Há uma grande entrada de dólares, decorrente deste apoio ao plano, e a taxa cambial vai de um real a 85 centavos de dólar.
65) Há um grande crescimento das importações e cresce o déficit comercial do país. Gustavo Franco argumenta que paises em desenvolvimento precisam importar “poupança” e que o déficit representava esta “importação”. Na realidade, estávamos importando dólares, estoques, e não poupança e a desconfiança logo interromperia este fluxo.
66) As taxas de juros são fixadas em 25% ao mês, logo em agosto. Quem estivesse vendido em dólares, isto é, devendo dólares e aplicado em reais, ganhou, naqueles dois meses, 40% por dois meses= 25% de juros mais 15% de valorização do real.
67) Em conseqüência, a dívida pública não foi monetizada e permanece inicialmente igual e depois começa a crescer pela pressão dos juros.
68) Em março de 1995, a economia mexicana entra em crise apesar do baixo déficit público. Havia acumulado uma dívida externa elevada.
69) A crise afeta o Brasil por contágio e em março deste ano a taxa de cambio do real é desvalorizada. Mas há fugas de capital e as taxas de juros se elevam provocando retração do nível de atividade.
70) No primeiro mandato, a política é mantida. Dólar sobre valorizado mantido às custas de taxas de juros domésticas muito elevadas. A dívida pública cresce de 30% do PIB a 60% do PIB. Se considerarmos taxas de juros reais médias de 15% a.a. representam um gasto de 15% vezes 60% do PIB ou seja de 9 % do PIB. O déficit público permanece elevado. A inflação cai constantemente.
71) No segundo mandato, o governo deixa a taxa cambial flutuar. Atinge dois reais, uma desvalorização de quase 100% logo no início. Depois, as crises financeiras do Sudeste da Ásia, da Rússia e em 2001, da Argentina, mantem a taxa cambial sempre sob cuidados, chegando a 3 reais em 2003. O antídoto são as taxas de juros domésticas elevadas para atrair capital externo e manter a sobrevalorização.
72) No segundo mandato, o governo anuncia a adoção do regime de metas de inflação. A taxa de juros é fixada levando em conta as expectativas de inflação, apenas, enquanto a taxa de câmbio flutua livremente.
73) A eleição do presidente Lula causa pânico no mercado financeiro, por causa da sua posição política. O dólar chega a custar mais do que três reais. As taxas de juros são ainda mais elevadas.
74) Na realidade, o governo sempre intervem no mercado cambial, vendendo dólares, títulos indexados ao dólar ou swaps cambiais. O que provoca elevações ainda maiores da dívida pública em momentos de crise.
75) O primeiro mandato do presidente Lula mantem a política praticando juros reais muito elevados, apesar do superávits comerciais e da queda da taxa de inflação.
76) Em 2007, a inflação projetada é de3,5%, a taxa de crescimento do produto parece que finalmente vai crescer, depois de doze anos de baixo crescimento e juros elevados.
77) A inflação está controlada pelo câmbio. E o câmbio, controlado pelas taxas de juros, durante a maior parte do período. E pelos grandes superávits comerciais nos últimos quatro anos.
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110607 Décima Oitava Aula—A economia indexada.
sexta-feira, 8 de junho de 2007
Notas da Primieira e Segunda Provas
1ªProva 2ªProva
Alberto Cesar Maia Júnior 3 6,6
Alexandre Gallotti 5,3 8
Alexandre Luis Schreurs Pires 2 6,5
Ana Carolina Cerqueira Piacentini 4,6 5,6
Anderson Ricardo Ubinha de Sá 5,4 5,8
André Mateus Yoshimura 6 5,6
André Uhrig Melo 4,6 5,8
Antonio Roberto Martinelli Bueno n/c 7,6
Armando Salum Abdalla Junior 5,4 7,9
Arthur Abib Mattos Nasser 3,6 9,3
Beatriz Soares dal Poz 7 8,1
Bruna Faria Zanini 2,4
Bruno Outa Gasperini 8,5 7,8
Bruno Hofig 6,9
Bruno Rondelli Djanikian 5,5 4
Celso Henrique Martins Silva 3,8 7,5
César Rodrigues Lobo 7,3 6,6
Daniel Duarte Utsch 3
Daniel Fleury Van Der Molen 5,7 5,1
Daniel Yutaka dos Santos Hayashi 7,4 5,6
Daniela de Abreu Carbinato 8,4 9
Diego Gottsfritz Oliveira Paluri 5
Eder Vieito Silva 5,6 4,7
Eduardo Albuquerque de Oliveira 4,7 7,3
Elaine Aparecida Salvador 4,1 9
Elaine Teixeira dos Santos 5,7 8,2
Felipe Borim Villen 5,7 7,6
Felipe Lopes Rezende 3,5 6
Felipe Tsuyoshi Matsumoto 6,9 6,6
Felipe Ventura dos Santos 2,3
Fernando Pai 7 6,1
Fernando Pedro Silva Santos 6,5 8,8
Fernando Vizotto Galvão 7,7 9,7
Flávio A. de Stefani Machado 5,5 7,1
Flora de Assumpção Meirelles 8,5 8,2
Gabriel Ferraz Aidar 8,6 8,8
Gady Saiovici 2,8
Guilherme dos Santos Moda 7,3 6,1
Guilherme Oliveira Mica 6,2 7
Gustavo Arruda Rafael da Silva 4 5,7
Gustavo Bueno Garcia 6,2 9,3
Gustavo Parra de Andrade 5,3 6,3
Hélio Magalhães de Souza 3,1 6,4
Iderley Colombini Neto 7,8 7,3
João Paulo de Barros Improta 7,6 7,6
João Thayro Vilela Barbosa 4 7,2
Julio de Oliveira Silva 4,6 7,6
Jurandir Gonçalves Ferreria 7,5 6,9
Karen Kemely Mussi Mhereb 4,9 4,4
Leonardo André Paes Muller 7,5 8,7
Lucas Lima Freire 8,1 7,4
Luiz Gustavo Vieira de Barros 6 8,7
Luiza Sidonio Rodrigues 5,5 7,4
Manuel Mário da Costa 6,5 7,1
Manuela de Moraes Czinar 7,1 7,8
Marcelo Augusto de Souza Neves 3 6,2
Marcelo Juliano Cardoso Pinheiro 6,2 9,1
Marco Antonio B. Carvalho de Brito 7,4 5,3
Maurício Dall'Agnese 5,5 8,2
Nathalia Nogueira Marques 6 8,9
Nathalie Christine Gimenes 6,3 7
Nicolas Israel Lezcano Benitez 5 8,1
Pedro Miguel Olea de Souza e Silva 8,7 8,4
Rafael Alvarez Basso 9,5 5,8
Rafael Campos Bistafa 4,6
Rafael de Godoy Oliveira de Andrade 7,2 4,9
Rafael Murgi 5,7 10
Ricardo Gonçalves n/c 7,8
Ricardo Henrique Sasseron 5,2 8,2
Ricardo Pires Souza Santos 5,8 6,5
Roberta Alves de Paiva Fortes n/c 4,7
Rogério Martins de Araujo 6,2 4,4
Suzi Mie Nishimura 6,6 6,5
Tarik Laiter Migliorini 3,9 8,1
Thiago Callegari Leme Duarte 6 6,8
Thiago Capucci Macruz 7,8 6
Vanessa Cristina Pereira Gomes 7,8 3,4
Victor Hugo Mahmoud Cimatti 5 7,2
Vinicius Amaro e A.de Morais Souza e Silva 3,3 7,3
Vinícius Prado Baptista 7,8 7,4
Vivian Alvarengo Augusto 4,6 6,4
Média 5,771794872 7,054054054
Desvio Padrão 1,730392751 1,424654651
Alberto Cesar Maia Júnior 3 6,6
Alexandre Gallotti 5,3 8
Alexandre Luis Schreurs Pires 2 6,5
Ana Carolina Cerqueira Piacentini 4,6 5,6
Anderson Ricardo Ubinha de Sá 5,4 5,8
André Mateus Yoshimura 6 5,6
André Uhrig Melo 4,6 5,8
Antonio Roberto Martinelli Bueno n/c 7,6
Armando Salum Abdalla Junior 5,4 7,9
Arthur Abib Mattos Nasser 3,6 9,3
Beatriz Soares dal Poz 7 8,1
Bruna Faria Zanini 2,4
Bruno Outa Gasperini 8,5 7,8
Bruno Hofig 6,9
Bruno Rondelli Djanikian 5,5 4
Celso Henrique Martins Silva 3,8 7,5
César Rodrigues Lobo 7,3 6,6
Daniel Duarte Utsch 3
Daniel Fleury Van Der Molen 5,7 5,1
Daniel Yutaka dos Santos Hayashi 7,4 5,6
Daniela de Abreu Carbinato 8,4 9
Diego Gottsfritz Oliveira Paluri 5
Eder Vieito Silva 5,6 4,7
Eduardo Albuquerque de Oliveira 4,7 7,3
Elaine Aparecida Salvador 4,1 9
Elaine Teixeira dos Santos 5,7 8,2
Felipe Borim Villen 5,7 7,6
Felipe Lopes Rezende 3,5 6
Felipe Tsuyoshi Matsumoto 6,9 6,6
Felipe Ventura dos Santos 2,3
Fernando Pai 7 6,1
Fernando Pedro Silva Santos 6,5 8,8
Fernando Vizotto Galvão 7,7 9,7
Flávio A. de Stefani Machado 5,5 7,1
Flora de Assumpção Meirelles 8,5 8,2
Gabriel Ferraz Aidar 8,6 8,8
Gady Saiovici 2,8
Guilherme dos Santos Moda 7,3 6,1
Guilherme Oliveira Mica 6,2 7
Gustavo Arruda Rafael da Silva 4 5,7
Gustavo Bueno Garcia 6,2 9,3
Gustavo Parra de Andrade 5,3 6,3
Hélio Magalhães de Souza 3,1 6,4
Iderley Colombini Neto 7,8 7,3
João Paulo de Barros Improta 7,6 7,6
João Thayro Vilela Barbosa 4 7,2
Julio de Oliveira Silva 4,6 7,6
Jurandir Gonçalves Ferreria 7,5 6,9
Karen Kemely Mussi Mhereb 4,9 4,4
Leonardo André Paes Muller 7,5 8,7
Lucas Lima Freire 8,1 7,4
Luiz Gustavo Vieira de Barros 6 8,7
Luiza Sidonio Rodrigues 5,5 7,4
Manuel Mário da Costa 6,5 7,1
Manuela de Moraes Czinar 7,1 7,8
Marcelo Augusto de Souza Neves 3 6,2
Marcelo Juliano Cardoso Pinheiro 6,2 9,1
Marco Antonio B. Carvalho de Brito 7,4 5,3
Maurício Dall'Agnese 5,5 8,2
Nathalia Nogueira Marques 6 8,9
Nathalie Christine Gimenes 6,3 7
Nicolas Israel Lezcano Benitez 5 8,1
Pedro Miguel Olea de Souza e Silva 8,7 8,4
Rafael Alvarez Basso 9,5 5,8
Rafael Campos Bistafa 4,6
Rafael de Godoy Oliveira de Andrade 7,2 4,9
Rafael Murgi 5,7 10
Ricardo Gonçalves n/c 7,8
Ricardo Henrique Sasseron 5,2 8,2
Ricardo Pires Souza Santos 5,8 6,5
Roberta Alves de Paiva Fortes n/c 4,7
Rogério Martins de Araujo 6,2 4,4
Suzi Mie Nishimura 6,6 6,5
Tarik Laiter Migliorini 3,9 8,1
Thiago Callegari Leme Duarte 6 6,8
Thiago Capucci Macruz 7,8 6
Vanessa Cristina Pereira Gomes 7,8 3,4
Victor Hugo Mahmoud Cimatti 5 7,2
Vinicius Amaro e A.de Morais Souza e Silva 3,3 7,3
Vinícius Prado Baptista 7,8 7,4
Vivian Alvarengo Augusto 4,6 6,4
Média 5,771794872 7,054054054
Desvio Padrão 1,730392751 1,424654651
110706 Décima Sétima Aula--Inflação Brasileira—Continuação.
110706 Décima Sétima Aula--Inflação Brasileira—Continuação.
1) O primeiro choque de petróleo dobrou a taxa de inflação brasileira, que foi de 20 para 40% a.a. O impacto de uma variação de preço relativo numa economia indexada é muito maior do que o resultado dos aumentos de preço diretos e indiretos causados pelo preço do petróleo, como vimos no texto do Brainard.
2) A reação do governo Geisel (1974-1979) foi implementar um plano de investimentos em energia, substituição de importações e diversificação de exportações. Cresceram os investimentos da Petrobrás, Petroquisa, Eletrobrás, Nuclebrás, Siderbrás, Telebrás e investimentos na indústria de bens de capital. A taxa de crescimento da economia se reduziu da média 7-16% do período do “milagre brasileiro”, para uma taxa da ordem de 5%. Estes investimentos e a estratégia foram definidas no Segundo Plano Nacional de Desenvolvimento, II PND.
3) A estratégia foi criticada. Enquanto os demais países do mundo adotavam uma política de contração da demanda agregada, o país adotava uma política de “fuga para frente”, mantendo a demanda agregada elevada e investindo em atividades que resolveriam o problema da importação de energia e acréscimo de exportações. Vários investimentos foram mal sucedidos como é o caso dos investimientos em energia nuclear e a Ferrovia do Aço sempre mencionados pelos críticos da política adotada.
4) Os preços maiores do petróleo geraram um déficit no balanço comercial muito grande e que precisava ser financiado, sob o risco de o país literalmente parar por falta de petróleo. Ao mesmo tempo, o consumo de gasolina foi racionado, fechando postos de gasolina aos sábados e nas manhãs de domingo.
5) A inflação sobe constantemente de 37% em 1974 a 80% em 1979.
6) O financiamento do déficit do balanço comercial se baseou na tomada de empréstimos em dólares para os investimentos das estatais. A dívida externa sobe rapidamente mas as reservas também. Havia um excesso de dólares, os petrodólares, nas mãos dos países da OPEP que precisava ser aplicado, “reciclado”. Portanto, havia disponibilidade de empréstimos para financiar o balanço comercial e os investimentos das estatais eram o motivo, “o lastro”, para a tomada destes recursos.
7) Consequentemente, aumentava o déficit público. O governo tomava dólares emprestados tanto diretamente através do Tesouro Nacional como indiretamente através das empresas estatais que financiavam os seus investimentos em moeda estrangeira.
8) Os diagnósticos sobre a inflação, portanto podiam ser feitos tanto pelo lado dos preços( o aumento do petróleo) como pelo lado do déficit público( pelo crescimento da dívida pública em dólares e o conseqüente aumento do endividamento e da emissão em reais).
9) Ao mesmo tempo, cresciam as pressões para alteração das leis salariais. A lei de 1964, do PAEG, já havia sido modificada em 1967. No período Geisel, que anunciou uma distensão política “lenta, segura e gradual”, as pressões salariais aumentam e mudam a lei salarial que se “aperfeiçoa”, com correções baseadas em inflação mais recente e aumentos reais baseados no aumento da produtividade. O que só aumenta as pressões inflacionárias.
10) Além disto, a taxa cambial é corrigida acima da taxa de inflação diversas vezes, em episódios chamados de “maxi desvalorização”, isto é, corrigidas acima do que a taxa de inflação corrente justificava. Portanto, a pressão inflacionária aumentava tanto do lado dos salários quanto do lado do câmbio.
11) O presidente Geisel é substituído pelo presidente Figueiredo em 1980.A lei salarial é modificada, prevendo correções mais “perfeitas”para salários mais baixos e “menos perfeitas”para salários maiores. Esta modificação leva o Ministro Mário Henrique Simonsen a pedir demissão, sendo substituído pelo Ministro Antonio Delfim Netto.
12) Em 1980, o Ministro Delfim, faz uma “maxidesvalorização” cambial e para controlar os efeitos inflacionários desta medida, prefixa a correção monetária e os índices de preço que deveriam ser utilizados para corrigir salários, aluguéis e preços controlados pelo Cip. A política dura menos do que um ano. É um primeiro passo de controle da inflação focado na indexação que depois seria adotado nas diversas reformas monetárias do período 1986-1994.
13) No ano anterior, em 1979, Reagan assumira o governo americano, reduzira impostos aumentando o déficit público americano e liberava importações. O Federal Reserve liderado pelo presidente Paul Volker eleva drásticamente as taxas de juros para controlar a continua elevação da taxa de inflação americana que chegava a dois dígitos. O resultado é uma apreciação da taxa cambial e aumento do desemprego que acabam por controlar e reduzir a inflação americana.
14) Na contabilidade bancária, empréstimos correntes são aqueles empréstimos que pagam pontualmente os juros. Com a elevação abrupta das taxas de juros americanas, os países da América Latina, endividados por causa das importações de petróleo, não conseguem pagar os juros nominais mais altos. Tomam novos empréstimos para “refinanciar” os juros devidos. O risco dos bancos com a região (a “exposure”, a participação destes empréstimos nos ativos totais) é muito elevada. Na reunião do FMI no México em 1982, os bancos suspendem os empréstimos voluntários para a região. A dívida passa a ser administrada por Comitês de Renegociação da dívida, onde participavam representantes dos bancos credores, autoridades econômicas dos países devedores. Além disto, a maior parte dos países latino americanos, o Brasil inclusive, toma empréstimos do FMI para refinanciar a dívida e o balanço comercial ainda deficitário. Estes empréstimos são concedidos mediante condições sobre a condução da política econômica nacional, que garantiriam a solvência do país. Entre estas condições, constava sempre e em primeiro lugar, uma política de controle do déficit público com metas de redução.
15) Contabilmente, o déficit público mais o excesso de investimentos sobre a poupança privada doméstica é igual ao déficit do balanço de pagamentos que precisa ser refinanciado. A imposição de controle sobre o déficit público visava controlar exatamente este déficit do balanço de pagamentos e, portanto as condições de repagamento dos empréstimos tomados. Entretanto, desconhece a natureza do déficit do balanço de pagamentos ( preços maiores do petróleo) e a impossibilidade de compensar este déficit no balanço de pagamentos pela redução de déficit público. A impossibilidade decorre, primeiro, de que o déficit público era gerado pela necessidade de novos empréstimos em dólares necessários para financiar o balanço de pagamentos. E em segundo lugar, da diferença quantitativa entre as receitas correntes e imposto correntes que geravam o déficit público e os imensos empréstimos em moeda estrangeira que eram necessários para financiar a conta maior do petróleo.
16) Em 1981, fracassada a experiência de prefixação das taxas de correção monetária, o Banco Central eleva drasticamente as taxas de juros, provocando grande redução do nível de atividades no período 81-83. A inflação, entretanto, sobe de 90 para 160% a.a.
17) Em 1983, ocorrem as primeiras eleições diretas, para governador, que não ocorriam desde 1964. Desde 64 os governadores eram eleitos pelas Assembléias Legislativas sob indicados pelo governo federal.
18) Em 1984, inicia-se uma campanha pelas eleições diretas para o presidente que substituiria o presidente Figueiredo. A campanha ganha o apoio das ruas e da imprensa. Paulo Maluf é candidato na eleição indireta. A proposta de eleição direta é derrotada no Congresso, mas Tancredo Neves é eleito indiretamente como o novo Presidente da República.
19) A inflação continua crescendo. Por causa do déficit público, diriam os “clássicos”. Tancredo lança o lema-“É proibido gastar”, como se o corte das mordomias, dos salários dos presidentes das estatais, dos salários dos funcionários públicos fosse suficiente para compensar o déficit público que continuava alto por causa da divida externa e seu financiamento.
20) O Presidente eleito adoece no dia da posse. Toma posse o Presidente Sarney com a inflação passando para a casa dos 200%, crise na dívida externa e pressões para mudar a política salarial. A correção salarial já era semestral e havia demandas para que passasse a trimestral ou mesmo mensal. A inflação era incontrolável e estava aberto o período das reformas monetárias.
21) O primeiro Ministro da Fazenda foi Francisco Dornelles. Elevou as taxas de juros e controlou o preço das estatais—energia elétrica, telefones, petróleo. A combinação das duas políticas aumentou radicalmente o déficit público. Primeiro porque as estatais passaram a produzir lucros menores ou imensos prejuízos. Segundo por que as despesas de juros aumentaram radicalmente.
22) Aparecem as primeiras propostas de indexação generalizada ou de “choques heterodoxos”. A próxima aula trata destas reformas.
1) O primeiro choque de petróleo dobrou a taxa de inflação brasileira, que foi de 20 para 40% a.a. O impacto de uma variação de preço relativo numa economia indexada é muito maior do que o resultado dos aumentos de preço diretos e indiretos causados pelo preço do petróleo, como vimos no texto do Brainard.
2) A reação do governo Geisel (1974-1979) foi implementar um plano de investimentos em energia, substituição de importações e diversificação de exportações. Cresceram os investimentos da Petrobrás, Petroquisa, Eletrobrás, Nuclebrás, Siderbrás, Telebrás e investimentos na indústria de bens de capital. A taxa de crescimento da economia se reduziu da média 7-16% do período do “milagre brasileiro”, para uma taxa da ordem de 5%. Estes investimentos e a estratégia foram definidas no Segundo Plano Nacional de Desenvolvimento, II PND.
3) A estratégia foi criticada. Enquanto os demais países do mundo adotavam uma política de contração da demanda agregada, o país adotava uma política de “fuga para frente”, mantendo a demanda agregada elevada e investindo em atividades que resolveriam o problema da importação de energia e acréscimo de exportações. Vários investimentos foram mal sucedidos como é o caso dos investimientos em energia nuclear e a Ferrovia do Aço sempre mencionados pelos críticos da política adotada.
4) Os preços maiores do petróleo geraram um déficit no balanço comercial muito grande e que precisava ser financiado, sob o risco de o país literalmente parar por falta de petróleo. Ao mesmo tempo, o consumo de gasolina foi racionado, fechando postos de gasolina aos sábados e nas manhãs de domingo.
5) A inflação sobe constantemente de 37% em 1974 a 80% em 1979.
6) O financiamento do déficit do balanço comercial se baseou na tomada de empréstimos em dólares para os investimentos das estatais. A dívida externa sobe rapidamente mas as reservas também. Havia um excesso de dólares, os petrodólares, nas mãos dos países da OPEP que precisava ser aplicado, “reciclado”. Portanto, havia disponibilidade de empréstimos para financiar o balanço comercial e os investimentos das estatais eram o motivo, “o lastro”, para a tomada destes recursos.
7) Consequentemente, aumentava o déficit público. O governo tomava dólares emprestados tanto diretamente através do Tesouro Nacional como indiretamente através das empresas estatais que financiavam os seus investimentos em moeda estrangeira.
8) Os diagnósticos sobre a inflação, portanto podiam ser feitos tanto pelo lado dos preços( o aumento do petróleo) como pelo lado do déficit público( pelo crescimento da dívida pública em dólares e o conseqüente aumento do endividamento e da emissão em reais).
9) Ao mesmo tempo, cresciam as pressões para alteração das leis salariais. A lei de 1964, do PAEG, já havia sido modificada em 1967. No período Geisel, que anunciou uma distensão política “lenta, segura e gradual”, as pressões salariais aumentam e mudam a lei salarial que se “aperfeiçoa”, com correções baseadas em inflação mais recente e aumentos reais baseados no aumento da produtividade. O que só aumenta as pressões inflacionárias.
10) Além disto, a taxa cambial é corrigida acima da taxa de inflação diversas vezes, em episódios chamados de “maxi desvalorização”, isto é, corrigidas acima do que a taxa de inflação corrente justificava. Portanto, a pressão inflacionária aumentava tanto do lado dos salários quanto do lado do câmbio.
11) O presidente Geisel é substituído pelo presidente Figueiredo em 1980.A lei salarial é modificada, prevendo correções mais “perfeitas”para salários mais baixos e “menos perfeitas”para salários maiores. Esta modificação leva o Ministro Mário Henrique Simonsen a pedir demissão, sendo substituído pelo Ministro Antonio Delfim Netto.
12) Em 1980, o Ministro Delfim, faz uma “maxidesvalorização” cambial e para controlar os efeitos inflacionários desta medida, prefixa a correção monetária e os índices de preço que deveriam ser utilizados para corrigir salários, aluguéis e preços controlados pelo Cip. A política dura menos do que um ano. É um primeiro passo de controle da inflação focado na indexação que depois seria adotado nas diversas reformas monetárias do período 1986-1994.
13) No ano anterior, em 1979, Reagan assumira o governo americano, reduzira impostos aumentando o déficit público americano e liberava importações. O Federal Reserve liderado pelo presidente Paul Volker eleva drásticamente as taxas de juros para controlar a continua elevação da taxa de inflação americana que chegava a dois dígitos. O resultado é uma apreciação da taxa cambial e aumento do desemprego que acabam por controlar e reduzir a inflação americana.
14) Na contabilidade bancária, empréstimos correntes são aqueles empréstimos que pagam pontualmente os juros. Com a elevação abrupta das taxas de juros americanas, os países da América Latina, endividados por causa das importações de petróleo, não conseguem pagar os juros nominais mais altos. Tomam novos empréstimos para “refinanciar” os juros devidos. O risco dos bancos com a região (a “exposure”, a participação destes empréstimos nos ativos totais) é muito elevada. Na reunião do FMI no México em 1982, os bancos suspendem os empréstimos voluntários para a região. A dívida passa a ser administrada por Comitês de Renegociação da dívida, onde participavam representantes dos bancos credores, autoridades econômicas dos países devedores. Além disto, a maior parte dos países latino americanos, o Brasil inclusive, toma empréstimos do FMI para refinanciar a dívida e o balanço comercial ainda deficitário. Estes empréstimos são concedidos mediante condições sobre a condução da política econômica nacional, que garantiriam a solvência do país. Entre estas condições, constava sempre e em primeiro lugar, uma política de controle do déficit público com metas de redução.
15) Contabilmente, o déficit público mais o excesso de investimentos sobre a poupança privada doméstica é igual ao déficit do balanço de pagamentos que precisa ser refinanciado. A imposição de controle sobre o déficit público visava controlar exatamente este déficit do balanço de pagamentos e, portanto as condições de repagamento dos empréstimos tomados. Entretanto, desconhece a natureza do déficit do balanço de pagamentos ( preços maiores do petróleo) e a impossibilidade de compensar este déficit no balanço de pagamentos pela redução de déficit público. A impossibilidade decorre, primeiro, de que o déficit público era gerado pela necessidade de novos empréstimos em dólares necessários para financiar o balanço de pagamentos. E em segundo lugar, da diferença quantitativa entre as receitas correntes e imposto correntes que geravam o déficit público e os imensos empréstimos em moeda estrangeira que eram necessários para financiar a conta maior do petróleo.
16) Em 1981, fracassada a experiência de prefixação das taxas de correção monetária, o Banco Central eleva drasticamente as taxas de juros, provocando grande redução do nível de atividades no período 81-83. A inflação, entretanto, sobe de 90 para 160% a.a.
17) Em 1983, ocorrem as primeiras eleições diretas, para governador, que não ocorriam desde 1964. Desde 64 os governadores eram eleitos pelas Assembléias Legislativas sob indicados pelo governo federal.
18) Em 1984, inicia-se uma campanha pelas eleições diretas para o presidente que substituiria o presidente Figueiredo. A campanha ganha o apoio das ruas e da imprensa. Paulo Maluf é candidato na eleição indireta. A proposta de eleição direta é derrotada no Congresso, mas Tancredo Neves é eleito indiretamente como o novo Presidente da República.
19) A inflação continua crescendo. Por causa do déficit público, diriam os “clássicos”. Tancredo lança o lema-“É proibido gastar”, como se o corte das mordomias, dos salários dos presidentes das estatais, dos salários dos funcionários públicos fosse suficiente para compensar o déficit público que continuava alto por causa da divida externa e seu financiamento.
20) O Presidente eleito adoece no dia da posse. Toma posse o Presidente Sarney com a inflação passando para a casa dos 200%, crise na dívida externa e pressões para mudar a política salarial. A correção salarial já era semestral e havia demandas para que passasse a trimestral ou mesmo mensal. A inflação era incontrolável e estava aberto o período das reformas monetárias.
21) O primeiro Ministro da Fazenda foi Francisco Dornelles. Elevou as taxas de juros e controlou o preço das estatais—energia elétrica, telefones, petróleo. A combinação das duas políticas aumentou radicalmente o déficit público. Primeiro porque as estatais passaram a produzir lucros menores ou imensos prejuízos. Segundo por que as despesas de juros aumentaram radicalmente.
22) Aparecem as primeiras propostas de indexação generalizada ou de “choques heterodoxos”. A próxima aula trata destas reformas.
quinta-feira, 7 de junho de 2007
040607 Décima Sexta Aula—A inflação brasileira.
040607 Décima Sexta Aula—A inflação brasileira.
1) Desde 1940, quando temos cálculos sistemáticos de índices de preços até 1994 a inflação no Brasil foi muito alta.
2) Maior do que dois dígitos em termos anuais desde 1941.Maior do que dois dígitos em termos mensais desde 1987. Maior do que 100% ao ano entre 1989 e 1994. atingiu o pico anual de 2 500% em 1994.
3) O gráfico abaixo mostra as taxas de inflação no período 1940-2006 calculada pelo IPCA da Fipe.
4) No período da Segunda Grande Guerra a inflação se elevou de 9 a 37% a.a. em 1944 devido ao encarecimento das importações e das matérias primas em geral. No fim da guerra, o país havia acumulado reservas e o Presidente Dutra, primeiro presidente depois da ditadura Vargas, libera importações. É criticado pois se afirma que importamos produtos de consumo desnecessários. Adota também uma política de austeridade e a infação cai para 15,85 e 18,97 em 45 e 46.
5) Entre 1950 e 1954, a inflação se eleva de 3% para 22,57%. É o período do segundo governo Vargas, agora eleito. Como fato marcante temos a criação da Petrobrás e o estabelecimento de uma política de salários mínimos.
6) O período JK, 1955-1960 é caracterizado por crescimento muito rápido de 6 a 7% a.a. A inflação se acelera vindo de 26% a.a. a 32%% a.a. A indústria cresce rapidamente puxada por investimentos nacionais e de multinacionais destacando-se a instalação de várias montadoras estrangeiras e a instalação de um setor de eletro doméstico.
7) Jânio sucede JK com uma plataforma de combate a corrupção e austeridade fiscal. A SUMOC, criada em 1945, edita a Instrução 204 unificando o câmbio que extingue subsídios ao papel da imprensa e a importação de trigo. A inflação chega a 43,51% a.a.
8) Jânio renuncia a Presidência em agosto de 1961. Os militares impõem como condição para que Jango, o vice-presidente assuma o cargo, que o regime se torne parlamentarista. A inflação continua subindo de 43% até 83,50 em 1964 quando se dá o golpe militar que retira Jango Goulart da presidência e nomeia o Marechal Castelo Branco como presidente. A inflação “descontrolada” é um dos argumentos retóricos do golpe militar, além da quebra da hierarquia militar (revolta dos sargentos e dos marinheiros). Jango anuncia o novo salário mínimo no famoso comício de 13 de março na frente da Central do Brasil.
9) Esta revisão rápida do período permite observar algumas características da inflação e da política antiinflacionária salientadas nas aulas anteriores.
10) Primeiro, a importância de dois fatores inflacionários: preços importantes, como o salário mínimo e a taxa cambial de um lado; e a política de controle do déficit e das suas formas de financiamento.
11) A liberação de importações do período Dutra e o aumento do salário mínimo no governo Jango Goulart são exemplos.
12) A austeridade fiscal do governo Dutra é outro exemplo, assim como o Plano Trienal elaborado por Celso Furtado no governo Jango é outro exemplo de política de controle de gastos e sua forma de financiamento.
13) Do lado da política de gastos e financiamento, vale lembrar a criação da SUMOC em 1945, cujo primeiro superintendente foi o Professor Otávio Gouveia de Bulhões que estabeleceu depósitos compulsórios para o sistema bancário e exigiu que o Banco do Brasil fizesse estes depósitos à conta da Sumoc na tentativa de extrair o poder de emissão ou o descontrole do Banco do Brasil que exercia as funções de banco comercial e banco financiador do Tesouro Nacional. A Sumoc foi criada como organização que no futuro se transformaria em Banco Central, o que só acontece com o primeiro governo militar em 1964.
14) O combate a subsídios do curto período Jânio, por outro lado, mostram o efeito da correção de preços relativos sobre a taxa de inflação que se eleva neste período.
15) Em segundo lugar, pode-se observar a ocorrência conjunta de períodos de instabilidade inflacionária e política, como exemplos de como a inflação refletem a situação política e inversamente, como a situação política se reflete na estabilidade de preços. E como a idéia de atribuir os problemas causados pela inflação ao “imposto inflacionário” ou ao “peso morto” da inflação deixa de considerar a importância da inflação como crise institucional.
16) O primeiro governo militar organiza sua política econômica no Plano de Ação Econômica do Governo Revolucionário (PAEG). No período 1964-1967, várias reformas estruturais, que compunham a plataforma do governo Jango são implementadas:
17) Criação de um Banco Central independente ( o mandato do presidente do BC era independente do mandato do presidente da República)
18) Renegociação da dívida externa.
19) Criação dos títulos reajustáveis (corrigidos pelo índice geral de preços) do Tesouro Nacional. A inflação era atribuída ao processo de financiamento do déficit público, por emissões, e não ao tamanho deste déficit. As ORTNS permitiram financiar o déficit em longo prazo já que eram títulos a prova de inflação.
20) O pagamento de impostos também passa a ser corrigido pela taxa de inflação.
21) Reforma tributária: criação de um imposto sobre valor adicionado sobre o comércio (ICM,pertencente aos estados), de outro imposto sobre valor adicionado sobre a atividade industrial (IPI), IRPF, IRPJ, ISS( dos municípios), impostos únicos sobre combustíveis e lubrificantes, sobre energia elétrica, cujos recursos seriam destinados a investimentos na área de petróleo e de energia elétrica.
22) Reforma Agrária, com a criação do INCRA e do Imposto sobre a Propriedade Agrícola.
23) Criação do BNH, banco de segunda linha( que redesconta) o sistema financeiro de habitação que agora poderia financiar construções residenciais com empréstimos corrigidos pela taxa de inflação.
24) Estabelecimento de uma lei salarial. Os salários seriam corrigidos pela inflação projetada no PAEG, que acabou sendo muito menor do que a inflação observada.
25) A taxa de inflação caiu rapidamente dos 85 % a.a. para 45% a.a. em 1966 e 25% em 1967,
26) A inflação era um fenômeno antigo e conhecido dos brasileiros. Portanto, corrigir preços em função da inflação era uma prática comum e indispensável. O governo militar entretanto estabelece a indexação formal, definida em lei, tanto para o mercado financeiro( ORTNs e taxa cambial) quanto para os salários ( lei salarial que depois será modificada muitas vezes) .
27) Vimos nas aulas passadas, do ponto de vista lógico, o dinheiro só existe se existir um preço importante que seja nominalmente rígido, os salários, por exemplo, ou a taxa de câmbio.
28) Vimos também que a indexação, ou a moeda tabular imaginada pelos neoclássicos do início do século XX, acabaria com a moeda, pois a inflação seria infinita.
29) Em outras palavras, se o valor do dinheiro depender de uma comprovação racional do seu valor—ouro ou poder de compra—o dinheiro deixa de existir, ou a inflação vai ao infinito.
30) A indexação bastante difundida pelas leis do governo militar transformaram os índices de preço como a verdadeira moeda nacional—a UPC, a unidade padrão de capital, do sistema financeiro da habitação ou a ORTN no mercado financeiro. O cálculo dos índices preços e a sua divulgação passam a ser eventos importantes no mercado financeiro, na economia e nos rendimentos de toda a economia.
31) Apesar disto, não existe uma “verdadeira taxa de inflação”. Existe uma variedade ampla de “índices de preço”, do ponto de vista teórico: Laspeyres, Paasche, Índice de Custo de Vida, Deflator Implícito do Produto. Além disto, existe outra grande variedade de formas de coleta de índice de preços—por telefone, no mercado, por cadernetas de despesas etc. Finalmente, os índices de preços resultam do processamento de vários milhares de preços coletados semanalmente. O processo de cálculo exige critérios de eliminação de preços que fogem muito da média, o que amplia ainda mais a margem de variação de preços. Não podemos dizer, de forma absoluta, que algum índice teórico ou prático é superior ou mais perfeito do que outro.
32) Deveríamos dizer que a inflação no mês passado foi menor do que 1%. Entretanto a indexação exige que os índices sejam calculados com duas casas decimais—a inflação foi de 0, 53% pois é usado na contabilidade, na correção da dívida pública e em outros preços.
33) Se a indexação fosse perfeita, a inflação iria ao infinito e nem o índice geral de preços poderia servir como medida de valor.
34) Assim, a indexação tinha diferentes graus de “perfeição”, ou seja, os preços eram corrigidos de forma diferente. O que for menos perfeitamente corrigido faz o papel do salário nominal rígido, servindo de âncora dos demais preços indexados.
35) A taxa de câmbio a partir de 1967 passou a ser corrigida semanalmente ou diariamente, mais tarde, por um valor anual definido pela taxa de inflação. Os dias ou as semanas em que seriam corrigidas assim como o valor da correção eram determinados por uma tabela de números aleatórios. Assim, o câmbio era o preço mais “perfeitamente corrigido”.
36) Depois, com defasagem bastante curta e correção plena, eram as ORTNS.
37) Em seguida, aluguéis, preços industriais (controlados pela CIP, criada em 64)
38) Os salários eram corrigidos anualmente e pela inflação projetada, no período 64-67. Depois, passaram a ser corrigidos pela inflação do ano passado. Assim, eram os preços de indexaçãomais imperfeita e faziam o papel de âncora que acabou por reduzir a taxa de inflação de 85% em 64 para 20% a.a. em 1973.
39) Por outro lado, numa economia indexada, a taxa de inflação demora a cair, pois o processo de indexação traz correções muito altas do passado para o momento atual.
40) E aumenta muito a taxa de inflação, quando algum preço relativo se corrige, como vimos no artigo do Brainard.
41) No primeiro choque do petróleo, em 1974 os preços do petróleo subiram quase 400%. A taxa de inflação brasileira pula de 20% a.a. e passa a 40% a.a. Daí para frente, a inflação subiu constantemente até 1994 com o Plano Real. A aceleração da inflação foi reduzida abruptamente pelos diversos planos de reforma monetária—o Cruzado, o Bresser, o Plano Collor que estudaremos a seguir, mas por períodos curtos de tempo. Apenas em 1994, com o Plano Real, a inflação se reduz e passa a ter uma trajetória descendente atingindo 3,5% em 2006 medida pelo IPC da Fipe.
1) Desde 1940, quando temos cálculos sistemáticos de índices de preços até 1994 a inflação no Brasil foi muito alta.
2) Maior do que dois dígitos em termos anuais desde 1941.Maior do que dois dígitos em termos mensais desde 1987. Maior do que 100% ao ano entre 1989 e 1994. atingiu o pico anual de 2 500% em 1994.
3) O gráfico abaixo mostra as taxas de inflação no período 1940-2006 calculada pelo IPCA da Fipe.
4) No período da Segunda Grande Guerra a inflação se elevou de 9 a 37% a.a. em 1944 devido ao encarecimento das importações e das matérias primas em geral. No fim da guerra, o país havia acumulado reservas e o Presidente Dutra, primeiro presidente depois da ditadura Vargas, libera importações. É criticado pois se afirma que importamos produtos de consumo desnecessários. Adota também uma política de austeridade e a infação cai para 15,85 e 18,97 em 45 e 46.
5) Entre 1950 e 1954, a inflação se eleva de 3% para 22,57%. É o período do segundo governo Vargas, agora eleito. Como fato marcante temos a criação da Petrobrás e o estabelecimento de uma política de salários mínimos.
6) O período JK, 1955-1960 é caracterizado por crescimento muito rápido de 6 a 7% a.a. A inflação se acelera vindo de 26% a.a. a 32%% a.a. A indústria cresce rapidamente puxada por investimentos nacionais e de multinacionais destacando-se a instalação de várias montadoras estrangeiras e a instalação de um setor de eletro doméstico.
7) Jânio sucede JK com uma plataforma de combate a corrupção e austeridade fiscal. A SUMOC, criada em 1945, edita a Instrução 204 unificando o câmbio que extingue subsídios ao papel da imprensa e a importação de trigo. A inflação chega a 43,51% a.a.
8) Jânio renuncia a Presidência em agosto de 1961. Os militares impõem como condição para que Jango, o vice-presidente assuma o cargo, que o regime se torne parlamentarista. A inflação continua subindo de 43% até 83,50 em 1964 quando se dá o golpe militar que retira Jango Goulart da presidência e nomeia o Marechal Castelo Branco como presidente. A inflação “descontrolada” é um dos argumentos retóricos do golpe militar, além da quebra da hierarquia militar (revolta dos sargentos e dos marinheiros). Jango anuncia o novo salário mínimo no famoso comício de 13 de março na frente da Central do Brasil.
9) Esta revisão rápida do período permite observar algumas características da inflação e da política antiinflacionária salientadas nas aulas anteriores.
10) Primeiro, a importância de dois fatores inflacionários: preços importantes, como o salário mínimo e a taxa cambial de um lado; e a política de controle do déficit e das suas formas de financiamento.
11) A liberação de importações do período Dutra e o aumento do salário mínimo no governo Jango Goulart são exemplos.
12) A austeridade fiscal do governo Dutra é outro exemplo, assim como o Plano Trienal elaborado por Celso Furtado no governo Jango é outro exemplo de política de controle de gastos e sua forma de financiamento.
13) Do lado da política de gastos e financiamento, vale lembrar a criação da SUMOC em 1945, cujo primeiro superintendente foi o Professor Otávio Gouveia de Bulhões que estabeleceu depósitos compulsórios para o sistema bancário e exigiu que o Banco do Brasil fizesse estes depósitos à conta da Sumoc na tentativa de extrair o poder de emissão ou o descontrole do Banco do Brasil que exercia as funções de banco comercial e banco financiador do Tesouro Nacional. A Sumoc foi criada como organização que no futuro se transformaria em Banco Central, o que só acontece com o primeiro governo militar em 1964.
14) O combate a subsídios do curto período Jânio, por outro lado, mostram o efeito da correção de preços relativos sobre a taxa de inflação que se eleva neste período.
15) Em segundo lugar, pode-se observar a ocorrência conjunta de períodos de instabilidade inflacionária e política, como exemplos de como a inflação refletem a situação política e inversamente, como a situação política se reflete na estabilidade de preços. E como a idéia de atribuir os problemas causados pela inflação ao “imposto inflacionário” ou ao “peso morto” da inflação deixa de considerar a importância da inflação como crise institucional.
16) O primeiro governo militar organiza sua política econômica no Plano de Ação Econômica do Governo Revolucionário (PAEG). No período 1964-1967, várias reformas estruturais, que compunham a plataforma do governo Jango são implementadas:
17) Criação de um Banco Central independente ( o mandato do presidente do BC era independente do mandato do presidente da República)
18) Renegociação da dívida externa.
19) Criação dos títulos reajustáveis (corrigidos pelo índice geral de preços) do Tesouro Nacional. A inflação era atribuída ao processo de financiamento do déficit público, por emissões, e não ao tamanho deste déficit. As ORTNS permitiram financiar o déficit em longo prazo já que eram títulos a prova de inflação.
20) O pagamento de impostos também passa a ser corrigido pela taxa de inflação.
21) Reforma tributária: criação de um imposto sobre valor adicionado sobre o comércio (ICM,pertencente aos estados), de outro imposto sobre valor adicionado sobre a atividade industrial (IPI), IRPF, IRPJ, ISS( dos municípios), impostos únicos sobre combustíveis e lubrificantes, sobre energia elétrica, cujos recursos seriam destinados a investimentos na área de petróleo e de energia elétrica.
22) Reforma Agrária, com a criação do INCRA e do Imposto sobre a Propriedade Agrícola.
23) Criação do BNH, banco de segunda linha( que redesconta) o sistema financeiro de habitação que agora poderia financiar construções residenciais com empréstimos corrigidos pela taxa de inflação.
24) Estabelecimento de uma lei salarial. Os salários seriam corrigidos pela inflação projetada no PAEG, que acabou sendo muito menor do que a inflação observada.
25) A taxa de inflação caiu rapidamente dos 85 % a.a. para 45% a.a. em 1966 e 25% em 1967,
26) A inflação era um fenômeno antigo e conhecido dos brasileiros. Portanto, corrigir preços em função da inflação era uma prática comum e indispensável. O governo militar entretanto estabelece a indexação formal, definida em lei, tanto para o mercado financeiro( ORTNs e taxa cambial) quanto para os salários ( lei salarial que depois será modificada muitas vezes) .
27) Vimos nas aulas passadas, do ponto de vista lógico, o dinheiro só existe se existir um preço importante que seja nominalmente rígido, os salários, por exemplo, ou a taxa de câmbio.
28) Vimos também que a indexação, ou a moeda tabular imaginada pelos neoclássicos do início do século XX, acabaria com a moeda, pois a inflação seria infinita.
29) Em outras palavras, se o valor do dinheiro depender de uma comprovação racional do seu valor—ouro ou poder de compra—o dinheiro deixa de existir, ou a inflação vai ao infinito.
30) A indexação bastante difundida pelas leis do governo militar transformaram os índices de preço como a verdadeira moeda nacional—a UPC, a unidade padrão de capital, do sistema financeiro da habitação ou a ORTN no mercado financeiro. O cálculo dos índices preços e a sua divulgação passam a ser eventos importantes no mercado financeiro, na economia e nos rendimentos de toda a economia.
31) Apesar disto, não existe uma “verdadeira taxa de inflação”. Existe uma variedade ampla de “índices de preço”, do ponto de vista teórico: Laspeyres, Paasche, Índice de Custo de Vida, Deflator Implícito do Produto. Além disto, existe outra grande variedade de formas de coleta de índice de preços—por telefone, no mercado, por cadernetas de despesas etc. Finalmente, os índices de preços resultam do processamento de vários milhares de preços coletados semanalmente. O processo de cálculo exige critérios de eliminação de preços que fogem muito da média, o que amplia ainda mais a margem de variação de preços. Não podemos dizer, de forma absoluta, que algum índice teórico ou prático é superior ou mais perfeito do que outro.
32) Deveríamos dizer que a inflação no mês passado foi menor do que 1%. Entretanto a indexação exige que os índices sejam calculados com duas casas decimais—a inflação foi de 0, 53% pois é usado na contabilidade, na correção da dívida pública e em outros preços.
33) Se a indexação fosse perfeita, a inflação iria ao infinito e nem o índice geral de preços poderia servir como medida de valor.
34) Assim, a indexação tinha diferentes graus de “perfeição”, ou seja, os preços eram corrigidos de forma diferente. O que for menos perfeitamente corrigido faz o papel do salário nominal rígido, servindo de âncora dos demais preços indexados.
35) A taxa de câmbio a partir de 1967 passou a ser corrigida semanalmente ou diariamente, mais tarde, por um valor anual definido pela taxa de inflação. Os dias ou as semanas em que seriam corrigidas assim como o valor da correção eram determinados por uma tabela de números aleatórios. Assim, o câmbio era o preço mais “perfeitamente corrigido”.
36) Depois, com defasagem bastante curta e correção plena, eram as ORTNS.
37) Em seguida, aluguéis, preços industriais (controlados pela CIP, criada em 64)
38) Os salários eram corrigidos anualmente e pela inflação projetada, no período 64-67. Depois, passaram a ser corrigidos pela inflação do ano passado. Assim, eram os preços de indexaçãomais imperfeita e faziam o papel de âncora que acabou por reduzir a taxa de inflação de 85% em 64 para 20% a.a. em 1973.
39) Por outro lado, numa economia indexada, a taxa de inflação demora a cair, pois o processo de indexação traz correções muito altas do passado para o momento atual.
40) E aumenta muito a taxa de inflação, quando algum preço relativo se corrige, como vimos no artigo do Brainard.
41) No primeiro choque do petróleo, em 1974 os preços do petróleo subiram quase 400%. A taxa de inflação brasileira pula de 20% a.a. e passa a 40% a.a. Daí para frente, a inflação subiu constantemente até 1994 com o Plano Real. A aceleração da inflação foi reduzida abruptamente pelos diversos planos de reforma monetária—o Cruzado, o Bresser, o Plano Collor que estudaremos a seguir, mas por períodos curtos de tempo. Apenas em 1994, com o Plano Real, a inflação se reduz e passa a ter uma trajetória descendente atingindo 3,5% em 2006 medida pelo IPC da Fipe.
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040607 Décima Sexta Aula—A inflação brasileira.
sábado, 2 de junho de 2007
280507 Décima Quinta Aula--Area Monetária Ótima
280507Décima Quinta Aula-- Área Monetária Ótima: Taxas cambiais fixas e variáveis.
1) S. Paulo deve ter um dinheiro diferente do Rio? Brasil e Argentina devem usar o mesmo dinheiro? Em 2002, a comunidade econômica européia passou a usar uma moeda comum, o euro.
2) Esta é a questão que Mac Kinnon analisa no artigo da lista de leitura. Quais os critérios para estabelecer uma área monetária comum. Ao apresentar esta análise, levanta problemas importantes para o curso: o que determina o valor do dinheiro e a estabilidade deste valor.
3) Se a taxa cambial entre o euro e o dólar fosse fixa e todos confiassem que este valor fixado pudesse ser mantido constante e a conversibilidade de um dinheiro no outro fosse garantida, Estados Unidos e Europa teriam do ponto de vista prático a mesma moeda, ainda que com nomes diferentes e sujeitas a um fator de conversão, a taxa cambial.
4) Portanto, a discussão sobre áreas monetárias ótimas pode ser feita em termos de taxas cambiais fixas e taxas variáveis. Não chamamos de taxas cambiais flutuantes, pois estas seriam determinadas pelo mercado. O artigo discute se as taxas cambiais devem se manter constantes ou variar, seja a variação determinada pelo mercado ou pelas autoridades econômicas.
5) A política macroeconômica tem que atingir dois objetivos: o equilíbrio interno (demanda agregada igual a oferta agregada) e o equilíbrio externo ( entrada de moeda estrangeira igual a saída de moeda estrangeira, isto é, equilíbrio no balanço de pagamentos). Para isto, utiliza dois instrumentos—a política monetária e fiscal, que controla a demanda agregada, e a política cambial.
6) A política monetária e fiscal aumenta ou diminui o grau de absorção da economia, isto é, controla C+I+ G. A política cambial controla a demanda e a oferta agregada de produtos comerciáveis em relação aos produtos não comerciáveis. A política monetária controla o nível da demanda agregada e a política cambial modifica a composição da demanda agregada entre bens comerciáveis e não comerciáveis.
7) Uma redução dos gastos públicos diminui a demanda agregada tanto para bens comerciáveis quanto para bens não comerciáveis. Um aumento da taxa cambial modifica a composição da demanda e da oferta agregada: aumenta a demanda por bens comerciáveis e diminui a demanda e a oferta de bens não comerciáveis. A primeira política é chamada de “demand reducing” e a segunda, de “demand shifting”
8) Mac Kinnon introduz um terceiro objetivo a política macro: a estabilidade do nível geral de preços.
9) O índice geral de preços é dado por P= a.tc.pc+ b.pnc onde os índices c e nc representam os bens comerciáveis e não comerciáveis, a e b, a participação dos comerciáveis e não comerciáveis no PNB.
10) Considera dois casos: no caso de uma economia pequena e aberta e especializada na produção de um bem comerciável, a é grande e b pequeno. Neste caso, a estabilidade da moeda requer que a taxa cambial varie pouco. Pois o valor da moeda depende basicamente da estabilidade de preços dos bens comerciáveis. Para isto é preciso que tc seja estável. Países pequenos, portanto, devem ter taxas cambiais fixas para que tenham uma moeda de valor estável. A política de demand shifting não é eficaz pois a possibilidade de substituição entre bens comerciáveis e não comerciáveis é reduzida. Um desequilíbrio no balanço de pagamentos requer uma redução da demanda agregada tanto para bens comerciáveis como para bens não comerciáveis.
11) No caso de uma economia grande, b é grande e o desequilíbrio do balanço de pagamentos pode ser obtido tanto por demand reducing quanto por demand shifting. A estabilidade do valor da moeda não depende tanto da estabilidade dos preços dos bens comerciáveis.
12) Países pequenos e especializados na produção de alguns produtos precisam ter taxas cambiais fixas, isto é, tem que fazer parte de uma área monetária maior. Paises grandes com grande participação de produtos não comerciáveis podem ter moeda própria.
13) Se o mundo tiver estabilidade de preços e um país específico, não, é bom que a taxa cambial seja fixa para que se “importe“ estabilidade de preços. Se o mundo tiver inflação e o país não, é melhor ter taxas cambiais variáveis para proteger o país da inflação do resto do mundo.
14) Do ponto de vista deste curso e do problema inflacionário, o artigo chama a atenção do papel da taxa de câmbio no controle da inflação e sobre a possibilidade de um país ter moeda própria ou fazer parte de uma área monetária maior, através da manutenção de taxas de câmbio fixas.
15) No caso de países grandes, a taxa de câmbio funciona como um substituto para a flexibilidade de preços nominais. Se os salários não caem em termos nominais, a variação da taxa cambial muda o valor do salário real em termos de bens comerciáveis e portanto provoca um ajuste que a política de controle da demanda agregada não consegue fazer sem grande impacto sobre a produção e o emprego domésticos.
16) Um economista clássico consideraria a discussão irrelevante, pois supõe que os preços são nominalmente flexíveis e portanto não faz diferença procurar o equilíbrio via taxa cambial ou via demanda agregada em geral.
1) S. Paulo deve ter um dinheiro diferente do Rio? Brasil e Argentina devem usar o mesmo dinheiro? Em 2002, a comunidade econômica européia passou a usar uma moeda comum, o euro.
2) Esta é a questão que Mac Kinnon analisa no artigo da lista de leitura. Quais os critérios para estabelecer uma área monetária comum. Ao apresentar esta análise, levanta problemas importantes para o curso: o que determina o valor do dinheiro e a estabilidade deste valor.
3) Se a taxa cambial entre o euro e o dólar fosse fixa e todos confiassem que este valor fixado pudesse ser mantido constante e a conversibilidade de um dinheiro no outro fosse garantida, Estados Unidos e Europa teriam do ponto de vista prático a mesma moeda, ainda que com nomes diferentes e sujeitas a um fator de conversão, a taxa cambial.
4) Portanto, a discussão sobre áreas monetárias ótimas pode ser feita em termos de taxas cambiais fixas e taxas variáveis. Não chamamos de taxas cambiais flutuantes, pois estas seriam determinadas pelo mercado. O artigo discute se as taxas cambiais devem se manter constantes ou variar, seja a variação determinada pelo mercado ou pelas autoridades econômicas.
5) A política macroeconômica tem que atingir dois objetivos: o equilíbrio interno (demanda agregada igual a oferta agregada) e o equilíbrio externo ( entrada de moeda estrangeira igual a saída de moeda estrangeira, isto é, equilíbrio no balanço de pagamentos). Para isto, utiliza dois instrumentos—a política monetária e fiscal, que controla a demanda agregada, e a política cambial.
6) A política monetária e fiscal aumenta ou diminui o grau de absorção da economia, isto é, controla C+I+ G. A política cambial controla a demanda e a oferta agregada de produtos comerciáveis em relação aos produtos não comerciáveis. A política monetária controla o nível da demanda agregada e a política cambial modifica a composição da demanda agregada entre bens comerciáveis e não comerciáveis.
7) Uma redução dos gastos públicos diminui a demanda agregada tanto para bens comerciáveis quanto para bens não comerciáveis. Um aumento da taxa cambial modifica a composição da demanda e da oferta agregada: aumenta a demanda por bens comerciáveis e diminui a demanda e a oferta de bens não comerciáveis. A primeira política é chamada de “demand reducing” e a segunda, de “demand shifting”
8) Mac Kinnon introduz um terceiro objetivo a política macro: a estabilidade do nível geral de preços.
9) O índice geral de preços é dado por P= a.tc.pc+ b.pnc onde os índices c e nc representam os bens comerciáveis e não comerciáveis, a e b, a participação dos comerciáveis e não comerciáveis no PNB.
10) Considera dois casos: no caso de uma economia pequena e aberta e especializada na produção de um bem comerciável, a é grande e b pequeno. Neste caso, a estabilidade da moeda requer que a taxa cambial varie pouco. Pois o valor da moeda depende basicamente da estabilidade de preços dos bens comerciáveis. Para isto é preciso que tc seja estável. Países pequenos, portanto, devem ter taxas cambiais fixas para que tenham uma moeda de valor estável. A política de demand shifting não é eficaz pois a possibilidade de substituição entre bens comerciáveis e não comerciáveis é reduzida. Um desequilíbrio no balanço de pagamentos requer uma redução da demanda agregada tanto para bens comerciáveis como para bens não comerciáveis.
11) No caso de uma economia grande, b é grande e o desequilíbrio do balanço de pagamentos pode ser obtido tanto por demand reducing quanto por demand shifting. A estabilidade do valor da moeda não depende tanto da estabilidade dos preços dos bens comerciáveis.
12) Países pequenos e especializados na produção de alguns produtos precisam ter taxas cambiais fixas, isto é, tem que fazer parte de uma área monetária maior. Paises grandes com grande participação de produtos não comerciáveis podem ter moeda própria.
13) Se o mundo tiver estabilidade de preços e um país específico, não, é bom que a taxa cambial seja fixa para que se “importe“ estabilidade de preços. Se o mundo tiver inflação e o país não, é melhor ter taxas cambiais variáveis para proteger o país da inflação do resto do mundo.
14) Do ponto de vista deste curso e do problema inflacionário, o artigo chama a atenção do papel da taxa de câmbio no controle da inflação e sobre a possibilidade de um país ter moeda própria ou fazer parte de uma área monetária maior, através da manutenção de taxas de câmbio fixas.
15) No caso de países grandes, a taxa de câmbio funciona como um substituto para a flexibilidade de preços nominais. Se os salários não caem em termos nominais, a variação da taxa cambial muda o valor do salário real em termos de bens comerciáveis e portanto provoca um ajuste que a política de controle da demanda agregada não consegue fazer sem grande impacto sobre a produção e o emprego domésticos.
16) Um economista clássico consideraria a discussão irrelevante, pois supõe que os preços são nominalmente flexíveis e portanto não faz diferença procurar o equilíbrio via taxa cambial ou via demanda agregada em geral.
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280507 Décima Quinta Aula-- Área Monetária Ótima
280507 Décima Quarta Aula-- A inflação é um fenômeno monetário
280507 Décima Quarta Aula—“A inflação é um fenômeno monetário” que pode ser causado por fenômenos reais.
1) Milton Friedman afirmava que a inflação era um fenômeno monetário. Estava certo—o crescimento do nível geral de preços, isto é, do preço médio de todas as coisas ou do poder de compra do dinheiro—é um fenômeno que afeta o dinheiro. Do ponto de vista retórico, esta afirmação pretendia ser interpretada como a causa da inflação é monetária, isto é, um crescimento excessivo da oferta de meios de pagamento.
2) Na discussão da hiperinflação alemã, vimos como ela pode ser controlada pela fixação de um preço, a taxa de câmbio, que então possibilitou o controle do déficit público. Ou seja, a estabilização de um preço importante do ponto de vista macroeconômico, estabilizou a taxa de inflação.
3) O conceito de inflação de custos, por outro lado, coloca os preços determinados em mercados específicos como o fator mais importante do fenômeno inflacionário. Embora os monetaristas argumentassem que a “indisciplina” no processo de fixação de preços resultasse da passividade da oferta monetária. Isto é, decorria da atitude do governo que financiava a pressão por aumento de preços com expansão da liquidez.
4) Taxa de câmbio e outros preços importantes são portanto trazidos a discussão sobre a inflação, colocando a oferta de meios de pagamentos numa posição secundária.
5) Na aula de hoje, discutimos o artigo de Julio Olivera citado na bibliografia que apresenta uma “tradução” da teoria estruturalista da inflação para a “língua neoclássica”.
6) Olivera pretende explicar porque no período 1945-1980 os países latino americanos sofriam uma inflação latina—alta, permanente e crescente. Enquanto os Estados Unidos e Europa viviam a “creeping inflation” e nos países pobres do Sul da Ásia ( pobres naquele período) e da África não havia inflação.
7) Existem dois processos típicos de formação de preços. Nos setores competitivos—que produzem produtos homogêneos, de tecnologia conhecida, sem barreiras a entrada e onde existe um grande número de produtores—os preços não podem ser controlados por nenhuma empresa individualmente. Neste caso os preços são flexíveis e variáveis, respondendo com rapidez ao aumento ou redução da oferta de meios de pagamentos, ou a variações da renda nominal (YP). Nestes setores, funcionaria a teoria quantitativa da moeda.
8) Em outros setores, onde os produtos são diferenciados por marca, qualidade ou publicidade, ou onde existem barreiras a entrada por causa da tecnologia de produção ou por causa de economias de escala, o processo de formação de preços é controlado pelas empresas. Que fixam preços levando em conta os custos variáveis de produção sobre os quais fixam uma margem desejada de lucros, um “mark - up”. Nestes setores, variações de demanda nominal afetam mais a quantidade produzida do que os preços que são nominalmente rígidos. Entre estes setores funcionaria uma “economia keynesiana” onde variações de demanda afetam o emprego e os preços são nominalmente rígidos.
9) Agricultura, industrias tradicionais( como a agricultura, a indústria têxtil, vestuário, alimentação e outras) são setores competitivos com preços nominalmente flexíveis que amortecem a variação da produção e do emprego face a variações de demanda nominal.
10) O setor manufatureiro em geral, as indústrias com economias de escala ( siderurgia, automóveis, petróleo, química, etc) são setores com preços nominalmente rígidos, onde as variações de demanda agregada nominal afetam mais a produção e o emprego do que os preços.
11) As economias podem ser classificadas também em função de outras características dadas pela oferta. Estados Unidos e Europa teriam mercado onde existe maior mobilidade de fatores e elasticidades de oferta maiores. África e Sul da Ásia eram economias mais primitivas, com pouca mobilidade de fatores e onde a elasticidade de oferta é sempre menor. Ou, em outras palavras, seriam países onde a curva de possibilidade de produção tem convexidade mais pronunciada, ou custos mais crescentes quando se altera a composição do produto.
12) Podemos agora combinar estas duas características para criar uma taxonomia de inflações.
13) Estados Unidos e Europa têm uma grande participação do setor manufatureiro e de indústrias de ponta, isto é, a participação dos setores de preços nominais rígidos na economia é elevada. Sob este critério, uma variação de preços relativos (causada pelo aumento dos preços do petróleo, ou aumento de salários) criaria uma pressão inflacionária. Por outro lado, são paises com estruturas produtivas diversificadas, capazes de responder a aumentos de preço relativo pela substituição na produção ou no consumo. A inflação resulta do produto de variações de preços nominais decorrentes de um choque de custo (que é grande) vezes a variação de preços relativos ( que é pequeno) por que a variação necessária é menor, dada a alta elasticidade preço da oferta. Ou seja, inflação, mas inflação baixa.
14) África e Sul da Ásia teriam inflação resultante de grandes variações de preços relativos ( por que a elasticidade preço da oferta é baixa) multiplicada por pequena variação de preços nominais (porque nestes paises predominam os setores de preços competitivos (a agricultura) . Resultado—não há inflação.
15) A América Latina estaria numa situação intermediária. As variações de preços relativos são grandes por que a elasticidade de oferta é pequena (pouca mobilidade de fatores entre regiões, infra-estrutura inadequada) e participação elevada dos setores industriais. A combinação da presença de baixa elasticidade de oferta e alta participação de setores com preços nominais rígidos geraria a inflação latina. A América Latina seria um continente adolescente—suficientemente crescido quando se considera a participação da indústria com preços nominais rígidos na economia, mas ainda “infantil”quando se considera a flexibilidade do parque produtivo para substituir produtos caros por produtos baratos.
16) A inflação latina, entretanto, precisaria ser financiada por uma política monetária passiva , ou seja, ausência de instituições capazes de controlar a oferta de meios de pagamentos ( um Banco Central, por exemplo).
17) Por outro lado, como vimos na aula passada, a inflação de custos só é relevante se houver “propagação” ou indexação de preços ao nível geral de preços. Em outras palavras, se o valor do dinheiro for dependente da sua verificação, isto é, da comparação do seu valor com o nível gera de preços.
18) Na próxima aula, analisamos a taxa cambial como um preço especial já que assume papel importante na análise da inflação brasileira e da estabilidade da moeda nacional.
1) Milton Friedman afirmava que a inflação era um fenômeno monetário. Estava certo—o crescimento do nível geral de preços, isto é, do preço médio de todas as coisas ou do poder de compra do dinheiro—é um fenômeno que afeta o dinheiro. Do ponto de vista retórico, esta afirmação pretendia ser interpretada como a causa da inflação é monetária, isto é, um crescimento excessivo da oferta de meios de pagamento.
2) Na discussão da hiperinflação alemã, vimos como ela pode ser controlada pela fixação de um preço, a taxa de câmbio, que então possibilitou o controle do déficit público. Ou seja, a estabilização de um preço importante do ponto de vista macroeconômico, estabilizou a taxa de inflação.
3) O conceito de inflação de custos, por outro lado, coloca os preços determinados em mercados específicos como o fator mais importante do fenômeno inflacionário. Embora os monetaristas argumentassem que a “indisciplina” no processo de fixação de preços resultasse da passividade da oferta monetária. Isto é, decorria da atitude do governo que financiava a pressão por aumento de preços com expansão da liquidez.
4) Taxa de câmbio e outros preços importantes são portanto trazidos a discussão sobre a inflação, colocando a oferta de meios de pagamentos numa posição secundária.
5) Na aula de hoje, discutimos o artigo de Julio Olivera citado na bibliografia que apresenta uma “tradução” da teoria estruturalista da inflação para a “língua neoclássica”.
6) Olivera pretende explicar porque no período 1945-1980 os países latino americanos sofriam uma inflação latina—alta, permanente e crescente. Enquanto os Estados Unidos e Europa viviam a “creeping inflation” e nos países pobres do Sul da Ásia ( pobres naquele período) e da África não havia inflação.
7) Existem dois processos típicos de formação de preços. Nos setores competitivos—que produzem produtos homogêneos, de tecnologia conhecida, sem barreiras a entrada e onde existe um grande número de produtores—os preços não podem ser controlados por nenhuma empresa individualmente. Neste caso os preços são flexíveis e variáveis, respondendo com rapidez ao aumento ou redução da oferta de meios de pagamentos, ou a variações da renda nominal (YP). Nestes setores, funcionaria a teoria quantitativa da moeda.
8) Em outros setores, onde os produtos são diferenciados por marca, qualidade ou publicidade, ou onde existem barreiras a entrada por causa da tecnologia de produção ou por causa de economias de escala, o processo de formação de preços é controlado pelas empresas. Que fixam preços levando em conta os custos variáveis de produção sobre os quais fixam uma margem desejada de lucros, um “mark - up”. Nestes setores, variações de demanda nominal afetam mais a quantidade produzida do que os preços que são nominalmente rígidos. Entre estes setores funcionaria uma “economia keynesiana” onde variações de demanda afetam o emprego e os preços são nominalmente rígidos.
9) Agricultura, industrias tradicionais( como a agricultura, a indústria têxtil, vestuário, alimentação e outras) são setores competitivos com preços nominalmente flexíveis que amortecem a variação da produção e do emprego face a variações de demanda nominal.
10) O setor manufatureiro em geral, as indústrias com economias de escala ( siderurgia, automóveis, petróleo, química, etc) são setores com preços nominalmente rígidos, onde as variações de demanda agregada nominal afetam mais a produção e o emprego do que os preços.
11) As economias podem ser classificadas também em função de outras características dadas pela oferta. Estados Unidos e Europa teriam mercado onde existe maior mobilidade de fatores e elasticidades de oferta maiores. África e Sul da Ásia eram economias mais primitivas, com pouca mobilidade de fatores e onde a elasticidade de oferta é sempre menor. Ou, em outras palavras, seriam países onde a curva de possibilidade de produção tem convexidade mais pronunciada, ou custos mais crescentes quando se altera a composição do produto.
12) Podemos agora combinar estas duas características para criar uma taxonomia de inflações.
13) Estados Unidos e Europa têm uma grande participação do setor manufatureiro e de indústrias de ponta, isto é, a participação dos setores de preços nominais rígidos na economia é elevada. Sob este critério, uma variação de preços relativos (causada pelo aumento dos preços do petróleo, ou aumento de salários) criaria uma pressão inflacionária. Por outro lado, são paises com estruturas produtivas diversificadas, capazes de responder a aumentos de preço relativo pela substituição na produção ou no consumo. A inflação resulta do produto de variações de preços nominais decorrentes de um choque de custo (que é grande) vezes a variação de preços relativos ( que é pequeno) por que a variação necessária é menor, dada a alta elasticidade preço da oferta. Ou seja, inflação, mas inflação baixa.
14) África e Sul da Ásia teriam inflação resultante de grandes variações de preços relativos ( por que a elasticidade preço da oferta é baixa) multiplicada por pequena variação de preços nominais (porque nestes paises predominam os setores de preços competitivos (a agricultura) . Resultado—não há inflação.
15) A América Latina estaria numa situação intermediária. As variações de preços relativos são grandes por que a elasticidade de oferta é pequena (pouca mobilidade de fatores entre regiões, infra-estrutura inadequada) e participação elevada dos setores industriais. A combinação da presença de baixa elasticidade de oferta e alta participação de setores com preços nominais rígidos geraria a inflação latina. A América Latina seria um continente adolescente—suficientemente crescido quando se considera a participação da indústria com preços nominais rígidos na economia, mas ainda “infantil”quando se considera a flexibilidade do parque produtivo para substituir produtos caros por produtos baratos.
16) A inflação latina, entretanto, precisaria ser financiada por uma política monetária passiva , ou seja, ausência de instituições capazes de controlar a oferta de meios de pagamentos ( um Banco Central, por exemplo).
17) Por outro lado, como vimos na aula passada, a inflação de custos só é relevante se houver “propagação” ou indexação de preços ao nível geral de preços. Em outras palavras, se o valor do dinheiro for dependente da sua verificação, isto é, da comparação do seu valor com o nível gera de preços.
18) Na próxima aula, analisamos a taxa cambial como um preço especial já que assume papel importante na análise da inflação brasileira e da estabilidade da moeda nacional.
sábado, 26 de maio de 2007
210507 Décima Terceira Aula- Não existe inflação de custos
210507 Décima Terceira Aula—Não existe inflação de custo.
1) A idéia de inflação de custos é criticada de duas formas. Primeiro, os monetaristas afirmam que ainda que existam variações de preços relativos, não haveria inflação se a política monetária não “ratificasse”a rigidez dos preços nominais emitindo mais dinheiro. Depois, como estudaremos nesta aula, analisando quantitativamente quanta inflação pode ser gerada por aumentos de preços importantes como salários, preço do petróleo ou variação da taxa cambial.
2) A aula está baseada no artigo de Brainard e Lowell mencionado na lista de leitura.
3) A questão é saber qual o impacto do aumento de preço de um produto isolado em todos os demais preços da economia. O preço do petróleo, por exemplo, afeta o preço dos transportes, da energia e, portanto de todos os outros preços da economia. Deveria ser importante para explicar os preços de todos os outros produtos e, portanto da inflação.
4) Para esta análise vamos usar o modelo de Leontieff que analisa a interrelação entre a produção de todos os bens da economia. Cada bem produzido pode ser utilizado como input de outros bens e como produto final. Assim, o aço é insumo da produção de automóveis, geladeiras, construção civil, etc. e ao mesmo tempo é utilizado como produto final quando é estoque para ser usado nos anos seguintes ou quando é exportado.
5) Leontieff supõe que todos os produtos sejam insumos de outros produtos e produtos finais para consumo, investimento ou exportações. E cada produto usa uma determinada quantidade de trabalho.
6) A produção é a coeficientes fixos. Aij é a quantidade fixa do produto i utilizado na produção de uma unidade do produto j.
7) A demonstração matemática será dada em aula e apresentada de forma imperfeita em nota a baixo.
8) Os resultados importantes são
9) O aumento de um por cento no preço do produto x causa um aumento de um por cento vezes a participação da produção bruta ( produção final mais intermediária) no produto nacional bruto.
10) Exemplo: se a produção total de petróleo representa 10% do produto nacional, um aumento do preço de 10% no preço do petróleo causa um aumento de dez por cento de dez por cento, um por cento , no nível geral de preços quando se consideram os efeitos diretos e indiretos do aumento de preço inicial.
11) É um resultado muito baixo, não explica a importância do petróleo.
12) O aumento final será ainda menor se alguns setores forem competitivos e não conseguirem repassar o aumento do preço do petróleo.
13) Portanto, levando em conta o impacto direto e indireto de um aumento de preços sobre os custos, o resultado final de um aumento de preço não explica a inflação. Não vale a pena controlar preços.
14) Entretanto, se algum preço, os salários por exemplo, exigirem correção em função do poder de compra, isto é, do nível geral de preços, um aumento de custo qualquer será multiplicado por um número igual a 1 sobre 1- a participação deste produto na produção final.
15) Em outras palavras, se algum setor for indexado, o aumento de qualquer preço gera um aumento de preço geral muito maior.
16) No limite, se todos os preços forem indexados, um aumento em qualquer preço pode gerar inflação infinita.
17) Para que a inflação não vá ao infinito é preciso que alguns preços pelo menos sejam rígidos nominalmente.
18) A inflação de custos, isto é, causada pela variação de algum preço isolado, só é importante se houver indexação ou, propagação como este efeito era chamado pelos estruturalistas.
NOTA
Foram omitidas as notações de matriz.
1) O modelo de Leontieff para quantidades
Dois produtos, x1 e x2.
x1=x11+x12 + y1
x1 é a produção bruta, isto é, a produção destinada a produção de x1 mesmo e de x2, ou seja, x1 tem dupla contagem. A produção final de x1 que pode ser destinada ao consumo, investimento ou exportação é dada por y1
parcelas da produção de x1 que são usadas na produção de x1 mesmo e de x2, respectivamente.
A mesma coisa para X2
x2=x21+x22
Hipótese sobre a produção de x1 e x2 – coeficientes fixos, isto é
a11=x11/x1 ou x1=a11.x11 e em geral
aij=xij/xj
x1 usa L1 de mão de obra e x2, usa L2
Escrevendo em termos de matriz
x1 a11 a12 x1 y1
= +
x2 a21 a22 x2 y2
e
x1
vezes L1 L2 =L
x2
ou
x=Ax+y (1)
e xL=L
onde x é um vetor coluna, A é a matriz de coeficientes técnicos e y é o vetor coluna de produtos finais.
e L é o vetor linha de coeficientes de trabalho utilizado para cada produto e L o total de trabalho disponível de trabalho para a economia.
Podemos reescrever (1) assim
(I-A)x=y ou seja, a produção final é dada pela matriz identidade I , menos a matriz de coeficientes técnicos.
e para saber quanto devemos produzir em termos brutos de cada produto, basta resolver para x, isto é,
-1
x=(I-A) .y isto é, a matriz I-A invertida vezes o vetor y.
2) O modelo de Leontieff para preços.
Supomos que cada produto gera uma margem de lucro dada por m1 para o produto x1 e m2 para x2.
o preço de x1 é dado por
p1=a11p1+a12p2+wL1+m1
p2=a12 p1+ a22p2 +wL2+m2
ou seja, o preço de p1 é igual aos custos de produção dados pelos coeficientes tecnicos de utilização de x1 e x2 vezes os respectivos preços unitários, mais o salário w vezes o coeficiente de mão de obra mais um margem m1.
Em termos matriciais, podemos escrever o vetor de preços como
(I-A)p=w.L+m
onde p é um vetor coluna de preços e m um vetor coluna de margens.
Resolvendo para p temos
-1
p=(wl+m) (I-A) ou seja o vetor de preços é dado por (wl+m) vezes o inverso de (I-A)
3) O deflator implícito do produto pode ser definido como
p= py/p0.y isto é o valor do produto nacional py medido a preços correntes sobre o valor do produto nacional a preços do periodo iniciaal, p0.
-1
podemos escrever py=p=(I-A)x=(wl+m)(I-A). (I-A)x= (wL+m) X
4) A derivada de py/p0.y com relação a qualquer margem , levando em conta os efeitos diretos e indiretos é dada por xi/po.y isto é pela participação da
produção bruta do produto cujo preço foi aumentado no produto nacional.
1) A idéia de inflação de custos é criticada de duas formas. Primeiro, os monetaristas afirmam que ainda que existam variações de preços relativos, não haveria inflação se a política monetária não “ratificasse”a rigidez dos preços nominais emitindo mais dinheiro. Depois, como estudaremos nesta aula, analisando quantitativamente quanta inflação pode ser gerada por aumentos de preços importantes como salários, preço do petróleo ou variação da taxa cambial.
2) A aula está baseada no artigo de Brainard e Lowell mencionado na lista de leitura.
3) A questão é saber qual o impacto do aumento de preço de um produto isolado em todos os demais preços da economia. O preço do petróleo, por exemplo, afeta o preço dos transportes, da energia e, portanto de todos os outros preços da economia. Deveria ser importante para explicar os preços de todos os outros produtos e, portanto da inflação.
4) Para esta análise vamos usar o modelo de Leontieff que analisa a interrelação entre a produção de todos os bens da economia. Cada bem produzido pode ser utilizado como input de outros bens e como produto final. Assim, o aço é insumo da produção de automóveis, geladeiras, construção civil, etc. e ao mesmo tempo é utilizado como produto final quando é estoque para ser usado nos anos seguintes ou quando é exportado.
5) Leontieff supõe que todos os produtos sejam insumos de outros produtos e produtos finais para consumo, investimento ou exportações. E cada produto usa uma determinada quantidade de trabalho.
6) A produção é a coeficientes fixos. Aij é a quantidade fixa do produto i utilizado na produção de uma unidade do produto j.
7) A demonstração matemática será dada em aula e apresentada de forma imperfeita em nota a baixo.
8) Os resultados importantes são
9) O aumento de um por cento no preço do produto x causa um aumento de um por cento vezes a participação da produção bruta ( produção final mais intermediária) no produto nacional bruto.
10) Exemplo: se a produção total de petróleo representa 10% do produto nacional, um aumento do preço de 10% no preço do petróleo causa um aumento de dez por cento de dez por cento, um por cento , no nível geral de preços quando se consideram os efeitos diretos e indiretos do aumento de preço inicial.
11) É um resultado muito baixo, não explica a importância do petróleo.
12) O aumento final será ainda menor se alguns setores forem competitivos e não conseguirem repassar o aumento do preço do petróleo.
13) Portanto, levando em conta o impacto direto e indireto de um aumento de preços sobre os custos, o resultado final de um aumento de preço não explica a inflação. Não vale a pena controlar preços.
14) Entretanto, se algum preço, os salários por exemplo, exigirem correção em função do poder de compra, isto é, do nível geral de preços, um aumento de custo qualquer será multiplicado por um número igual a 1 sobre 1- a participação deste produto na produção final.
15) Em outras palavras, se algum setor for indexado, o aumento de qualquer preço gera um aumento de preço geral muito maior.
16) No limite, se todos os preços forem indexados, um aumento em qualquer preço pode gerar inflação infinita.
17) Para que a inflação não vá ao infinito é preciso que alguns preços pelo menos sejam rígidos nominalmente.
18) A inflação de custos, isto é, causada pela variação de algum preço isolado, só é importante se houver indexação ou, propagação como este efeito era chamado pelos estruturalistas.
NOTA
Foram omitidas as notações de matriz.
1) O modelo de Leontieff para quantidades
Dois produtos, x1 e x2.
x1=x11+x12 + y1
x1 é a produção bruta, isto é, a produção destinada a produção de x1 mesmo e de x2, ou seja, x1 tem dupla contagem. A produção final de x1 que pode ser destinada ao consumo, investimento ou exportação é dada por y1
parcelas da produção de x1 que são usadas na produção de x1 mesmo e de x2, respectivamente.
A mesma coisa para X2
x2=x21+x22
Hipótese sobre a produção de x1 e x2 – coeficientes fixos, isto é
a11=x11/x1 ou x1=a11.x11 e em geral
aij=xij/xj
x1 usa L1 de mão de obra e x2, usa L2
Escrevendo em termos de matriz
x1 a11 a12 x1 y1
= +
x2 a21 a22 x2 y2
e
x1
vezes L1 L2 =L
x2
ou
x=Ax+y (1)
e xL=L
onde x é um vetor coluna, A é a matriz de coeficientes técnicos e y é o vetor coluna de produtos finais.
e L é o vetor linha de coeficientes de trabalho utilizado para cada produto e L o total de trabalho disponível de trabalho para a economia.
Podemos reescrever (1) assim
(I-A)x=y ou seja, a produção final é dada pela matriz identidade I , menos a matriz de coeficientes técnicos.
e para saber quanto devemos produzir em termos brutos de cada produto, basta resolver para x, isto é,
-1
x=(I-A) .y isto é, a matriz I-A invertida vezes o vetor y.
2) O modelo de Leontieff para preços.
Supomos que cada produto gera uma margem de lucro dada por m1 para o produto x1 e m2 para x2.
o preço de x1 é dado por
p1=a11p1+a12p2+wL1+m1
p2=a12 p1+ a22p2 +wL2+m2
ou seja, o preço de p1 é igual aos custos de produção dados pelos coeficientes tecnicos de utilização de x1 e x2 vezes os respectivos preços unitários, mais o salário w vezes o coeficiente de mão de obra mais um margem m1.
Em termos matriciais, podemos escrever o vetor de preços como
(I-A)p=w.L+m
onde p é um vetor coluna de preços e m um vetor coluna de margens.
Resolvendo para p temos
-1
p=(wl+m) (I-A) ou seja o vetor de preços é dado por (wl+m) vezes o inverso de (I-A)
3) O deflator implícito do produto pode ser definido como
p= py/p0.y isto é o valor do produto nacional py medido a preços correntes sobre o valor do produto nacional a preços do periodo iniciaal, p0.
-1
podemos escrever py=p=(I-A)x=(wl+m)(I-A). (I-A)x= (wL+m) X
4) A derivada de py/p0.y com relação a qualquer margem , levando em conta os efeitos diretos e indiretos é dada por xi/po.y isto é pela participação da
produção bruta do produto cujo preço foi aumentado no produto nacional.
140507 Décima Segunda Aula- Inflação na América Latina
140507 Décima Segunda Aula—A inflação na América Latina.
1) No período posterior a Segunda Grande Guerra, entre 1945 e 1975 a economia mundial cresceu rapidamente assim como o emprego. A Europa recuperou-se da guerra e se tornou uma das três maiores economias do mundo, assim como o Japão. É o chamado “período dourado do capitalismo” onde a política econômica era chamada de keynesiana.
2) O Brasil cresceu a taxa média de 6% a.a. atingindo entre 1968 e 1973 taxas ainda maiores que chegaram a 11% a.a. no período batizado de “milagre brasileiro”.
3) As taxas de inflação médias observadas na economia mundial eram mais elevadas do que as taxas observadas no período atual de “globalização financeira”.
4) A inflação observada neste período podia ser classificada em vários tipos: a “creeping inflation” dos Estados Unidos e vários países da Europa. A “inflação latina” sempre alta e maior do que a média de outros países do mundo. África e Sudeste da Ásia não tinham problemas inflacionários.
5) Atualmente, as taxas de inflação médias no mundo, são muito baixas. E as taxas inflacionárias da América Latina também. Vale a pena comparar as taxas latinoamericanas atuais com a taxa média mundial para ver se a diferença observada no período 45-75 ainda permanecem.
6) Neste período, o debate sobre a inflação se dividia entre dois grupos: os monetaristas que atribuíam a inflação latina ao déficit público ou a forma como este déficit publico era financiado, isto é, por emissões. E os estruturalistas, escola originada entre os economistas da CEPAL —Comissão Econômica Para a América Latina—organização da ONU localizada em Santiago do Chile.
7) Para os estruturalistas, a inflação observada na América Latina decorria do próprio desenvolviimento econômico que alterava as características da economia e provocava mudanças importantes de preços relativos. Dado que os preços são nominalmente rígdos, a variação de preços relativos causava inflação.
8) As mudanças de preços relativos eram decorrentes do próprio desenvolvimento.
9) A urbanização aumentava a demanda e os preços de produtos alimentares. A agricultura era tradicional e não reagia aos estímulos de mercado, mais preocupada em controlar “currais eleitorais”do que em maximizar o lucro.
10) A industrialização provocava o aumento da demanda por importações . Como estes países exportavam produtos agrícolas de baixa elasticidade preço, o aumento das quantidades exportadas não aumentava a receita total. A elevação da taxa cambial causava inflação.
11) A infraestrutura era inadequada. Industrialização e urbanização provocavam aumentos de custo e consequentemente inflação.
12) A tentativa de combater a inflação por políticas de controle da demanda causaria apenas estagnação sem que a inflação fosse controlada.
13) A solução seram as reformas estruturais: a reforma agrária, a reforma cambial, a reforma bancária e assim por diante.
14) Os monetaristas contra argumentavam que tanta inflação não seria possível se não houvesse crescimento da oferta de meios de pagamento. Com M constante, os aumentos de preços relativos não causariam inflação.
15) Estruturalistas respondiam que a oferta de meios de pagamento era passiva, isto é, reagia ao crescimento dos preços.
16) Em resumo, os estruturalistas apresentavam um diagnóstico de inflação de custos como causa mais importante da inflação latina.
1) No período posterior a Segunda Grande Guerra, entre 1945 e 1975 a economia mundial cresceu rapidamente assim como o emprego. A Europa recuperou-se da guerra e se tornou uma das três maiores economias do mundo, assim como o Japão. É o chamado “período dourado do capitalismo” onde a política econômica era chamada de keynesiana.
2) O Brasil cresceu a taxa média de 6% a.a. atingindo entre 1968 e 1973 taxas ainda maiores que chegaram a 11% a.a. no período batizado de “milagre brasileiro”.
3) As taxas de inflação médias observadas na economia mundial eram mais elevadas do que as taxas observadas no período atual de “globalização financeira”.
4) A inflação observada neste período podia ser classificada em vários tipos: a “creeping inflation” dos Estados Unidos e vários países da Europa. A “inflação latina” sempre alta e maior do que a média de outros países do mundo. África e Sudeste da Ásia não tinham problemas inflacionários.
5) Atualmente, as taxas de inflação médias no mundo, são muito baixas. E as taxas inflacionárias da América Latina também. Vale a pena comparar as taxas latinoamericanas atuais com a taxa média mundial para ver se a diferença observada no período 45-75 ainda permanecem.
6) Neste período, o debate sobre a inflação se dividia entre dois grupos: os monetaristas que atribuíam a inflação latina ao déficit público ou a forma como este déficit publico era financiado, isto é, por emissões. E os estruturalistas, escola originada entre os economistas da CEPAL —Comissão Econômica Para a América Latina—organização da ONU localizada em Santiago do Chile.
7) Para os estruturalistas, a inflação observada na América Latina decorria do próprio desenvolviimento econômico que alterava as características da economia e provocava mudanças importantes de preços relativos. Dado que os preços são nominalmente rígdos, a variação de preços relativos causava inflação.
8) As mudanças de preços relativos eram decorrentes do próprio desenvolvimento.
9) A urbanização aumentava a demanda e os preços de produtos alimentares. A agricultura era tradicional e não reagia aos estímulos de mercado, mais preocupada em controlar “currais eleitorais”do que em maximizar o lucro.
10) A industrialização provocava o aumento da demanda por importações . Como estes países exportavam produtos agrícolas de baixa elasticidade preço, o aumento das quantidades exportadas não aumentava a receita total. A elevação da taxa cambial causava inflação.
11) A infraestrutura era inadequada. Industrialização e urbanização provocavam aumentos de custo e consequentemente inflação.
12) A tentativa de combater a inflação por políticas de controle da demanda causaria apenas estagnação sem que a inflação fosse controlada.
13) A solução seram as reformas estruturais: a reforma agrária, a reforma cambial, a reforma bancária e assim por diante.
14) Os monetaristas contra argumentavam que tanta inflação não seria possível se não houvesse crescimento da oferta de meios de pagamento. Com M constante, os aumentos de preços relativos não causariam inflação.
15) Estruturalistas respondiam que a oferta de meios de pagamento era passiva, isto é, reagia ao crescimento dos preços.
16) Em resumo, os estruturalistas apresentavam um diagnóstico de inflação de custos como causa mais importante da inflação latina.
070507 Décima Primeira Aula-Hiperinflação na Alemanha
070507 Décima Primeira Aula – Hiperinflação na Alemanha.
1) Primeira Guerra, estipulou pesados pagamentos de reparação para a Alemanha de forma a compensar os paises aliados pelas despesas e destruição provocadas pela guerra. A decisão sobre estes pagamentos foi analisada por Keynes no “As conseqüências econômicas da Paz”.
2) A Alemanha passa a ter uma dívida externa desproporcional a sua capacidade de pagamento.
3) No período posterior ao fim da Guerra a Alemanha passa a ter imenso déficit público, decorrente dos gastos militares da guerra aumentado pela dívida externa. A inflação é alta.
4) No ano de 1923, a taxa de inflação muito alta, cresce rapidamente e atinge um máximo em outubro deste ano, quando após um acordo de refinanciamento da dívida externa, a taxa de cambio é estabilizada e a inflação termina abruptamente.
5) É um período dramático. A economia alemã chega à paralisia total, com problemas de abastecimento e até de sobrevivência dos alemães. Erich Maria Remarque tem um romance que descreve o período.
6) A hiperinflação atingiu vários países da região que se chamava de Europa Oriental—Tchecoslováquia, Hungria, Áustria e Polônia. Países que tem características comuns: alguns são estados novos decorrentes do desmantelamento do Império Austro Húngaro, como a Tchecoslováquia e a Hungria. Todos estavam sob a influência do marco alemão.
7) O episódio é importante para entender a inflação, um dos temas deste curso.
8) A ocorrência simultânea de hiperinflação e pesada dívida externa lembra imediatamente o período de superinflação de vários países da América Latina após a crise da dívida externa em 1982. Brasil, Argentina, Chile e outros países apresentaram taxas de inflação muito altas e crescentes. Apenas a Argentina chegou ao que se pode chamar de hiperinflação—uma taxa de inflação tão alta e tão crescente que paralisa completamente as compras e vendas de qualquer coisa.
9) O trabalho clássico sobre a hiper alemã é de Bresciani Turoni. No curso analilsaremos o trabalho de Cagan, da Universidade de Chicago , citado na bibliografia e a tese de doutorado do Gustavo Franco que critica a tese de Cagan.
10) Bresciani Turoni e Cagan atribuem o controle súbito e bem sucedido da hiperinflação a reforma fiscal que acaba com o déficit público alemão. Franco explica o fim da hiperinflação a estabilização da taxa cambial do marco alemão.
11) A tese de Cagan. Cagan estuda a demanda de moeda e este é o foco principal da sua tese. A hiper alemã oferece um laboratório adequado para estimar a demanda de moeda: a renda alemã é estável e a taxa nominal de juros (igual à taxa de inflação mais a taxa de juros real) é extremamente variável.
12) Estima a taxa de juros nominal ou a taxa de inflação esperada usando expectativas defasadas. A inflação esperada é dada por uma média móvel ponderada com pesos exponencialmente decrescentes das inflações passadas. A partir destas expectativas conclui que existe uma demanda de moeda negativamente inclinada com relação à inflação esperada. A tese foi premiada à época.
13) A partir desta demanda de moeda estima a curva de receita total do imposto inflacionário. Como estimou demandas lineares ou log lineares, a curva de receita total decorrente é uma parábola com um ponto de máximo.
14) Usando suas próprias estimativas mostra que os países que tiveram hiperinflação estavam além do ponto de máximo na curva de receita do imposto inflacionário. Como a curva de receita total é uma parábola, a mesma receita total de imposto inflacionário pode ser obtida com duas taxas de inflação: uma taxa mais baixa e outra mais alta. Os paises com hiper inflação recolhiam o imposto inflacionário com esta taxa mais alta e maior do que a que gerava o ponto de máximo. Conclui que “haviam ultrapassado” o ponto de máximo e que a procura por mais imposto inflacionário aumentava a taxa de inflação, mas reduzia a receita, levando a hiper. A reforma fiscal e o fim do déficit público permitiram o fim da hiperinflação.
15) Franco contra argumenta usando as mesmas estimativas de Cagan.
16) A curva de receita total do imposto inflacionário representa diversas receitas de imposto inflacionário (II) que podem ser coletadas em pontos de equilíbrio sobre a curva de demanda de moeda, isto é, pontos onde a inflação esperada é igual à inflação observada. O fato de a economia estar além do ponto de máximo desta curva não é um desequilíbrio nem exige que o governo emita cada vez mais chegando a hiper. Pode estar numa situação desconfortável, com um imposto inflacionário igual ao que poderia ser obtido com outra taxa de inflação menor. Mas não é desequilíbrio nem leva a hiper.
17) Franco argumenta que o déficit fiscal poderia gerar hiperinflação se fosse maior do que qualquer ponto da curva de receita total de II. Ou seja, se o déficit público estivesse acima da curva de receita total. Neste caso, o governo emitiria cada vez mais e recolheria cada vez menos II.
18) O mesmo argumento poderia ser apresentado de outra forma.
19) II= (M/P)vezes a inflação esperada.
20) GS=(delta M)/ P onde GS é o ganho de senhoriagem.
21) Quando a inflação esperada é igual à observada, delta M/M é igual à inflação observada e substituindo em 19, II= (M/P).(delta M/M ). Simplificando, II=GS quando a inflação esperada é igual a observada.
22) Se a inflação esperada for maior do que a observada, o imposto inflacionário é menor do que o ganho de senhoriagem. Se a inflação esperada for menor do que a observada, II será menor do que GS.
23) Ainda em outras palavras: se a emissão de moeda provocar uma expectativa de inflação maior do que a inflação observada, o imposto inflacionário será menor do que o ganho de senhoriagem. O governo emite 100 e o imposto inflacionário é 80, por exemplo. Emite mais ainda, 200 e o imposto inflacionário é 90. Ou seja, ao emitir mais arrecada menos imposto inflacionário. Neste caso, temos hiperinflação, neste caso estamos acima da curva de receita total de II.
24) Usando os dados de Cagan, Franco mostra que apenas em alguns casos de hiper chegamos a esta situação. Na maioria dos casos analisados, II era maior do que GS e portanto a hiper não podia ser atribuída a excesso de emissão ou ao déficit público.
25) Franco conclui que o fim da hiperinflação resultou da estabilização da taxa de câmbio o que foi possível apenas depois de uma renegociação dos pagamentos de reparação da Alemanha com os Estados Unidos, o país que tinha reservas em ouro e emitia a a moeda que já passava a ser a a moeda mais importante da economia mundial.
26) A analogia com a situação dos países da América Latina depois de 1982 é evidente. O controle da superinflação destes países só foi possível após a renegociação da divida externa e a fixação da taxa cambial.
27) A discussão na América Latina e no Brasil se deu nos mesmo termos. Alguns economistas diziam que a inflação só seria controlada depois de uma reforma fiscal. Outros diziam que o controle do déficit público só seria possível depois que a inflação fosse controlada. Pois a inflação reduz o valor real dos impostos arrecadados.
1) Primeira Guerra, estipulou pesados pagamentos de reparação para a Alemanha de forma a compensar os paises aliados pelas despesas e destruição provocadas pela guerra. A decisão sobre estes pagamentos foi analisada por Keynes no “As conseqüências econômicas da Paz”.
2) A Alemanha passa a ter uma dívida externa desproporcional a sua capacidade de pagamento.
3) No período posterior ao fim da Guerra a Alemanha passa a ter imenso déficit público, decorrente dos gastos militares da guerra aumentado pela dívida externa. A inflação é alta.
4) No ano de 1923, a taxa de inflação muito alta, cresce rapidamente e atinge um máximo em outubro deste ano, quando após um acordo de refinanciamento da dívida externa, a taxa de cambio é estabilizada e a inflação termina abruptamente.
5) É um período dramático. A economia alemã chega à paralisia total, com problemas de abastecimento e até de sobrevivência dos alemães. Erich Maria Remarque tem um romance que descreve o período.
6) A hiperinflação atingiu vários países da região que se chamava de Europa Oriental—Tchecoslováquia, Hungria, Áustria e Polônia. Países que tem características comuns: alguns são estados novos decorrentes do desmantelamento do Império Austro Húngaro, como a Tchecoslováquia e a Hungria. Todos estavam sob a influência do marco alemão.
7) O episódio é importante para entender a inflação, um dos temas deste curso.
8) A ocorrência simultânea de hiperinflação e pesada dívida externa lembra imediatamente o período de superinflação de vários países da América Latina após a crise da dívida externa em 1982. Brasil, Argentina, Chile e outros países apresentaram taxas de inflação muito altas e crescentes. Apenas a Argentina chegou ao que se pode chamar de hiperinflação—uma taxa de inflação tão alta e tão crescente que paralisa completamente as compras e vendas de qualquer coisa.
9) O trabalho clássico sobre a hiper alemã é de Bresciani Turoni. No curso analilsaremos o trabalho de Cagan, da Universidade de Chicago , citado na bibliografia e a tese de doutorado do Gustavo Franco que critica a tese de Cagan.
10) Bresciani Turoni e Cagan atribuem o controle súbito e bem sucedido da hiperinflação a reforma fiscal que acaba com o déficit público alemão. Franco explica o fim da hiperinflação a estabilização da taxa cambial do marco alemão.
11) A tese de Cagan. Cagan estuda a demanda de moeda e este é o foco principal da sua tese. A hiper alemã oferece um laboratório adequado para estimar a demanda de moeda: a renda alemã é estável e a taxa nominal de juros (igual à taxa de inflação mais a taxa de juros real) é extremamente variável.
12) Estima a taxa de juros nominal ou a taxa de inflação esperada usando expectativas defasadas. A inflação esperada é dada por uma média móvel ponderada com pesos exponencialmente decrescentes das inflações passadas. A partir destas expectativas conclui que existe uma demanda de moeda negativamente inclinada com relação à inflação esperada. A tese foi premiada à época.
13) A partir desta demanda de moeda estima a curva de receita total do imposto inflacionário. Como estimou demandas lineares ou log lineares, a curva de receita total decorrente é uma parábola com um ponto de máximo.
14) Usando suas próprias estimativas mostra que os países que tiveram hiperinflação estavam além do ponto de máximo na curva de receita do imposto inflacionário. Como a curva de receita total é uma parábola, a mesma receita total de imposto inflacionário pode ser obtida com duas taxas de inflação: uma taxa mais baixa e outra mais alta. Os paises com hiper inflação recolhiam o imposto inflacionário com esta taxa mais alta e maior do que a que gerava o ponto de máximo. Conclui que “haviam ultrapassado” o ponto de máximo e que a procura por mais imposto inflacionário aumentava a taxa de inflação, mas reduzia a receita, levando a hiper. A reforma fiscal e o fim do déficit público permitiram o fim da hiperinflação.
15) Franco contra argumenta usando as mesmas estimativas de Cagan.
16) A curva de receita total do imposto inflacionário representa diversas receitas de imposto inflacionário (II) que podem ser coletadas em pontos de equilíbrio sobre a curva de demanda de moeda, isto é, pontos onde a inflação esperada é igual à inflação observada. O fato de a economia estar além do ponto de máximo desta curva não é um desequilíbrio nem exige que o governo emita cada vez mais chegando a hiper. Pode estar numa situação desconfortável, com um imposto inflacionário igual ao que poderia ser obtido com outra taxa de inflação menor. Mas não é desequilíbrio nem leva a hiper.
17) Franco argumenta que o déficit fiscal poderia gerar hiperinflação se fosse maior do que qualquer ponto da curva de receita total de II. Ou seja, se o déficit público estivesse acima da curva de receita total. Neste caso, o governo emitiria cada vez mais e recolheria cada vez menos II.
18) O mesmo argumento poderia ser apresentado de outra forma.
19) II= (M/P)vezes a inflação esperada.
20) GS=(delta M)/ P onde GS é o ganho de senhoriagem.
21) Quando a inflação esperada é igual à observada, delta M/M é igual à inflação observada e substituindo em 19, II= (M/P).(delta M/M ). Simplificando, II=GS quando a inflação esperada é igual a observada.
22) Se a inflação esperada for maior do que a observada, o imposto inflacionário é menor do que o ganho de senhoriagem. Se a inflação esperada for menor do que a observada, II será menor do que GS.
23) Ainda em outras palavras: se a emissão de moeda provocar uma expectativa de inflação maior do que a inflação observada, o imposto inflacionário será menor do que o ganho de senhoriagem. O governo emite 100 e o imposto inflacionário é 80, por exemplo. Emite mais ainda, 200 e o imposto inflacionário é 90. Ou seja, ao emitir mais arrecada menos imposto inflacionário. Neste caso, temos hiperinflação, neste caso estamos acima da curva de receita total de II.
24) Usando os dados de Cagan, Franco mostra que apenas em alguns casos de hiper chegamos a esta situação. Na maioria dos casos analisados, II era maior do que GS e portanto a hiper não podia ser atribuída a excesso de emissão ou ao déficit público.
25) Franco conclui que o fim da hiperinflação resultou da estabilização da taxa de câmbio o que foi possível apenas depois de uma renegociação dos pagamentos de reparação da Alemanha com os Estados Unidos, o país que tinha reservas em ouro e emitia a a moeda que já passava a ser a a moeda mais importante da economia mundial.
26) A analogia com a situação dos países da América Latina depois de 1982 é evidente. O controle da superinflação destes países só foi possível após a renegociação da divida externa e a fixação da taxa cambial.
27) A discussão na América Latina e no Brasil se deu nos mesmo termos. Alguns economistas diziam que a inflação só seria controlada depois de uma reforma fiscal. Outros diziam que o controle do déficit público só seria possível depois que a inflação fosse controlada. Pois a inflação reduz o valor real dos impostos arrecadados.
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Décima Primeira Aula- Hiperinflação na Alemanha
domingo, 13 de maio de 2007
210507 Segunda Prova
210507 Segunda Prova de EAE-313
1) O governo do Timor Leste adotou uma política monetária expansionista. Vai recomprar títulos da dívida pública, que tem prazo de um ano e rendem juros reais altos, emitidos logo depois da independência e ampliar a base monetária. Qual o resultado mais provável? Inflação ou elevação dos preços de outros ativos, como terras e outros imóveis urbanos? Por quê? (Suponha que o Timor seja uma economia fechada sem mobilidade de capital)
2) Em 2000, a administração do Presidente Clinton, anterior a do Presidente Bush, começou a recomprar títulos de longo prazo (30 anos) com a ampliação da base monetária. Qual o resultado mais provável - inflação ou retração da atividade econômica? A Teoria Quantitativa da Moeda é adequada para prever os resultados? Por quê? Suponha inicialmente que os Estados Unidos sejam uma economia fechada e sem mobilidade de capital. Depois considere que de fato, nos Estados Unidos há grande mobilidade de capital e a taxa de câmbio é flutuante.
3) Explique o conceito de “peso morto” da inflação e imposto inflacionário. Critique o conceito. Use um gráfico.
1) O governo do Timor Leste adotou uma política monetária expansionista. Vai recomprar títulos da dívida pública, que tem prazo de um ano e rendem juros reais altos, emitidos logo depois da independência e ampliar a base monetária. Qual o resultado mais provável? Inflação ou elevação dos preços de outros ativos, como terras e outros imóveis urbanos? Por quê? (Suponha que o Timor seja uma economia fechada sem mobilidade de capital)
2) Em 2000, a administração do Presidente Clinton, anterior a do Presidente Bush, começou a recomprar títulos de longo prazo (30 anos) com a ampliação da base monetária. Qual o resultado mais provável - inflação ou retração da atividade econômica? A Teoria Quantitativa da Moeda é adequada para prever os resultados? Por quê? Suponha inicialmente que os Estados Unidos sejam uma economia fechada e sem mobilidade de capital. Depois considere que de fato, nos Estados Unidos há grande mobilidade de capital e a taxa de câmbio é flutuante.
3) Explique o conceito de “peso morto” da inflação e imposto inflacionário. Critique o conceito. Use um gráfico.
terça-feira, 1 de maio de 2007
010507 Décima Aula- O periodo dourado da Teoria Quantitativa da Moeda
300407 Décima Aula- O período de ouro da Teoria Quantiativa da Moeda.
I-Introdução.
A primeira estrofe dos Lusíadas- “As armas e os barões assinalados”- repete o primeira estrofe da Eneida de Virgilio- “arma virumque” ou as “armas e os homens”- escrita mil e quinhentos anos antes. A Eneida conta a história da fundação de Roma, a partir da derrota de Tróia, cantada em verso por Homero mil e quinhentos anos antes.O conflito, a conversa e as controvérsias giram sempre sobre os mesmos temas. Somos prisioneiros de um “tecido de citações”.
A teoria monetária está submetida a mesma sorte. A discussão parece circular, passando sempre pelos mesmos lugares. É espiral - olha os mesmos lugares sob ângulos diferentes que, entretanto, se repetem.
Tomamos como ponto de partida a teoria e política monetária no final do século XIX durante a segunda revolução industrial, na Inglaterra no início do período Vitoriano, quando se consolida o Império Britânico. Poderíamos começar no século XIII e XIV no período da chamada Revolução Comercial quando as cidades do norte da Itália, do norte da Europa e as cidades espanholas se desenvolvem com o comércio de mercadorias trazidas do Oriente distante ou produzidas pelos artesãos destas cidades. Começamos mais tarde porque dinheiro, Estados nacionais e o capitalismo já estão consolidados.
O dinheiro só pode se transformar em mito na sociedade próspera, onde a produção de bens necessários a sobrevivência – saúde, alimentação, habitação e segurança – deixaram de ser a preocupação fundamental. Em economias primitivas ou em economias não capitalistas, o dinheiro não pode ser mito. Os Yanomani não usam dinheiro. Os mitos de sociedades primitivas apaziguam as forças da natureza, confortam o medo do inexplicável e sobrenatural. Não arriscam a própria sobrevivência, trabalhando com imagens que não sejam expressão direta do que precisam para sobreviver. Têm vida material singela e não acumulam dinheiro como representante de consumo ou riqueza futura. Dinheiro é produto de luxo. :
“Estatisticamente, os mitos estão à direita. As palavras dos ricos, [poderosos ou opressores] são multiformes, sutis, dispondo de todos os graus de dignidade. A direita tem a exclusividade da metalinguagem e do mito. O opressor quer conservar a existência sem aparecer. O oprimido não usa senão uma palavra, a da sua emancipação. O oprimido faz o mundo: quem trabalha para sobreviver não pode se dar ao luxo de produzir mitos. As imagens têm que corresponder às coisas diretamente. A linguagem do opressor visa a eternizar o mundo. A do oprimido, a transformá-lo.” .
A origem sagrada e irracional do dinheiro das sociedades primitivas não contradiz esta proposição: o dinheiro daquelas sociedades não organizava a produção, servia apenas para cancelar obrigações sociais, religiosas ou militares. Do ponto de vista material, era usada para medir estoques de bens de primeira necessidade mantidos nos templos. O dinheiro mito, que organiza a vida material da sociedade, só existe após determinado grau de riqueza material e desenvolvimento das instituições financeiras.
O debate em espiral começa com os clássicos, cujas obras mais importantes datam do final do século XVII e século XVIII. Evolui para os neoclássicos que completam e resolvem problemas da teoria dos antecessores. Do final da Grande Guerra em 1918 até 1945, o mundo vive longo período de violência, transformações políticas, crises monetárias e desemprego que se resolve apenas com o inicio da Segunda Guerra. O dinheiro - teoria e política monetárias - é o centro do redemoinho de violência, guerra e crises financeiras que resultam na publicação da Teoria Geral dos Juros do Emprego e da Renda, enquanto a realidade se impõe na prática “keynesiana” aos governos de Franklin Roosevelt, nos Estados Unidos, na política econômica do nazismo e na política de Getulio Vargas no Brasil.
Depois da Segunda Guerra, o movimento espiral continua, com nomes que repetem os do período anterior. A revolução keynesiana é reinterpretada pelos neoclássicos (diferentes dos neoclássicos de antes), por neokeynesianos e por monetaristas (que recuperam o pensamento dos neoclássicos do seculo XIX). Nos últimos vinte anos são substituídos pelos novos clássicos, novos monetaristas e novos keynesianos.
2- A teoria monetária clássica: período dourado da Teoria Quantitativa da Moeda, de 1870 a 1914.
Os clássicos - Mill, Jevons e Bagehot - tratam de todos os temas permanentes da teoria monetária. É possível que os filósofos digam a mesma coisa sobre Sócrates, Platão, Aristóteles e os sofistas. Nas artes e na literatura, a escola clássica procura o equilíbrio, a harmonia e o natural. Clássicos (autores dados em classe) são reescritos pelos leitores de todas as gerações. Podemos nos surpreender com a vida presente em textos tão antigos ou nos desesperar com a monotonia do horizonte.
O personagem da teoria econômica clássica é como as figuras dos quadros e esculturas clássicas um homem tranqüilo, harmônico e dominado pela razão. Trabalha para viver, realiza trocas para obter os bens e serviços necessários a sua sobrevivência. Não se ilude com o dinheiro.
É diferente dos personagens reais da sociedade capitalista. Não se parece nem com os cruéis personagens de Charles Dickens, avaros que exploram crianças, não é um “tycoon” nem um “trader” sentado a frente de várias telas de computador e gritando ordens de compra e venda ao telefone como costumamos imaginar. É mais próximo de um Robinson Crusoe do século XVIII ou de um “hippie” dos anos 70.
A teoria monetária clássica “desenha” um dinheiro que é signo e não mito, ou seja, um dinheiro onde o significante, o valor, não distorce o significado.
O dinheiro é uma medida de valor. Poderia ter qualquer valor, mas tem que ter um valor só. O dinheiro é uma mercadoria – o ouro. A quantidade de ouro é limitada, o ouro é durável e pode ser dividido em unidades de qualquer tamanho. É homogêneo, impessoal e anônimo. E principalmente, natural.
O preço do ouro é igual ao custo marginal de extração. O preço do dinheiro, isto é, o preço médio de todas as coisas expressas em dinheiro é igual ao preço do ouro. Não pode ser manipulado pelo governo de quem os clássicos e liberais desconfiam. Não pode ser politizado. O dinheiro é ouro e o seu valor, natural.
A quantidade de moeda em circulação é determinada pelas entradas e saídas de ouro no país. O país que exporta mais do que importa, recebe ouro pela diferença, aumenta a quantidade de meios de pagamento. O aumento de oferta de meios de pagamentos aumenta o nível geral de preços. Com taxas de câmbio fixas, o preço dos produtos exportáveis e importáveis fica relativamente menor, o país exporta menos e importa mais, e o equilíbrio do balanço comercial se restabelece.
Dinheiro serve apenas como meio de pagamento que facilita as trocas, “viabiliza o funcionamento de uma gigantesca economia de trocas” . Dinheiro não é unidade de conta -- os preços são preços relativos, um cafezinho custa um pão com manteiga. O significado não é o valor, mas o valor relativo. O dinheiro não muda preços relativos nem a teoria do valor - os preços são determinados no mercado pelo custo marginal de longo prazo de cada mercadoria. O valor do ouro não modifica os preços relativos - um cafezinho pode custar uma libra ou cem libras de ouro, mas custará sempre a mesma coisa que um pão com manteiga. O dinheiro é um signo - o significado não altera o significante. Não é mito.
O sistema financeiro multiplica as expressões do dinheiro - depósitos, notas bancárias lastreadas em ouro e notas bancários representando apenas crédito fiduciário, sem lastro em ouro. Bancos recebem ouro em depósito e emitem notas bancárias. Nota bancária é dinheiro? Os bancos fazem empréstimos e recebem depósitos. Depósito é dinheiro? Bancos emitem notas bancárias sem o correspondente depósito em ouro. As notas bancárias são dinheiro? O que é o dinheiro - apenas a moeda metálica ou a moeda metálica e outros significantes?
O desenvolvimento do sistema bancário modifica a teoria: no longo prazo, o nível de preços é igual ao custo marginal de produção de ouro. No curto prazo, o nível de preços é dado pela teoria quantitativa da moeda, ou seja, pela proporção entre a quantidade de dinheiro, (igual a quantidade de notas bancárias com lastro em ouro e depósitos a vista) e a quantidade de mercadorias produzidas. No curto prazo, a quantidade de dinheiro em circulação pode ser maior ou menor do que a quantidade de ouro. O nível geral de preços é determinado pela oferta de bens relativamente a demanda. A quantidade de dinheiro em circulação é um estoque (quantidade existente em determinado período de tempo). A quantidade de mercadorias produzidas é um variável fluxo, produção por ano. Se existem 100 moedas de ouro que valem um libra cada, ou seja, 100 libras, em circulação e se a produção nacional é de 1000 libras por ano, o dinheiro circulou, mudou de mãos 10 vezes por ano entre pagamentos e recebimentos.
A velocidade renda de circulação da moeda não é necessàriamente constante. Depende de hábitos de pagamento (mensal, semanal, anual), grau de integração das empresas e outras variáveis que por sua vez são constantes no curto prazo. Pode circular mais ou menos ràpidamente e causar variações de preços. “Coeteris paribus”, isto é, mantidas constantes as variáveis que determinam a velocidade renda de circulação da moeda, o nível de preços é determinado no curto prazo, pela quantidade de dinheiro em circulação. No longo prazo, pelo custo marginal de extração do ouro.
Como controlar a quantidade de dinheiro em circulação ainda que o dinheiro fosse mercadoria como outra qualquer?
O dinheiro projetado pela teoria clássica é sistema de significantes neutros que não modificam a realidade em que são aplicados. Como a língua sonhada pelos positivistas que dá um nome para cada coisa que existe e abomina a metafísica que fala de coisas que não existem. Cada coisa tem um preço que se expressa por dinheiro, mas o preço de cada coisa não é modificado pela forma em que são expressos em dinheiro. Exerce somente a função de meio de pagamento, não é nem unidade de conta nem reserva de valor.
O personagem da teoria clássica não trabalha para ganhar dinheiro. Trabalha para obter mercadorias que atendem as necessidades reais. A produção de mercadorias é idêntica a demanda de mercadorias, ou, nos termos da Lei de Say, a oferta cria sua própria demanda. Quem produziu, produziu para vender e comprar bens e serviços. A soma dos lucros, salários, juros e aluguéis é exatamente igual a soma das despesas de consumo e de investimento. Quem não consumiu, emprestou dinheiro para quem consumiu mais do que ganhou ou investiu. A demanda por bens de serviços é igual a oferta de bens e serviços. O homus oeconomicus clássico não guarda dinheiro como reserva de valor.
A taxa de juros resulta do retorno dos capitais investidos e da poupança, da disposição em não consumir. Se investimentos produzem altas taxas de retorno, a taxa de juros é alta. Se existe pressa em consumir e pouca poupança, a taxa de juros é alta. A taxa de juros é fenômeno real. O dinheiro não altera as taxas de juros.
Ciclos são períodos de variação positiva ou negativa do nível geral de preços causada por descobertas importantes de ouro (Lago Vitória na África e São Francisco nos Estados Unidos).
Dinheiros de diferentes países deviam ser trocados a taxa fixa, dada pela quantidade de ouro existente em cada moeda. Consequentemente, a quantidade de dinheiro em circulação depende do balanço de pagamentos. Superávits comerciais, exportações maiores do que importações aumentam a quantidade de ouro e de dinheiro em circulação. Os ciclos de variação de preços não são acompanhados sincronicamente pela variação dos salários, criando lucros excepcionais quando os preços subiam mais rapidamente que os salários e prejuízos quando caiam. Como conciliar o caráter neutro do dinheiro, que é apenas meio de pagamento e não unidade de contas com a realidade dos salários lentos para se ajustar? A variação do nível geral de preços não deveria afetar a economia se o dinheiro é signo e usado apenas como meio de pagamentos.
Novamente, o tempo resolve a inconsistência: no curto prazo, os preços nominais podem se afastar dos preços relativos. No longo prazo tendem a voltar. O longo prazo é um destino fixo como o nível médio do mar. A tempestade levanta e afunda a proa do navio em ondas gigantescas, mas quando acalma, retorna ao nível médio do mar.
O longo prazo parece ser o dia em que se “encerram” todas as atividades de troca e todo o dinheiro é redimido, trocado por ouro ou mercadorias. Este dia determina o funcionamento da economia no curto prazo, quando pode haver desvios - a quantidade de dinheiro pode ser maior do que a quantidade de ouro e os salários podem ser modificados pela oscilação no preço da moeda.
Os neoclássicos (Marshall, Fisher e Wicksell) de antes da I Grande Guerra completam e resolvem as inconsistências da teoria clássica.
O preço do ouro é determinado pela demanda de dinheiro. O estoque de ouro existente é grande relativamente à quantidade de ouro novo extraído das minas todos os anos. O preço do ouro só é alterado marginalmente pela descoberta de novas jazidas. Depende mais da demanda de dinheiro do que dos custos de extração. A utilização do ouro como dinheiro aumenta a demanda e o preço do ouro. É a demanda de dinheiro que determina o preço do ouro e não o preço do ouro que determina o preço do dinheiro. O preço da forma (do ouro) é determinado pelo seu sentido (o valor) que procurava um preço natural para si mesmo O nível geral de preços é determinado pela quantidade de dinheiro em circulação tanto no curto quanto no longo prazo
A quantidade de dinheiro não é “natural”. Precisa ser controlada pelo Banco Central. O sistema bancário precisa ser regulado. Para os economistas da Banking School dinheiro deveria ser o crédito criado pelos bancos e não precisava ser conversível em ouro. A quantidade de dinheiro reagia passivamente à demanda. A Currency School defendia a conversibilidade e o controle da emissão de dinheiro. A Currency School é vencedora - o Banco da Inglaterra foi dividido em banco emissor onde as reservas de ouro estariam concentradas e banco comercial, operando como banco comercial comum. Os Country Banks, bancos localizados fora do centro financeiro da City perdem o direito de emissão.
O dinheiro defendido pela Banking School é um dinheiro lastreado em empréstimos utilizados para produzir ou comercializar mercadorias. A quantidade de dinheiro, neste caso, é determinada pelo estado geral dos negócios e pelo nível de produção. O dinheiro proposto pela Currency School é estritamente ligado a quantidade de ouro existente nas reservas bancárias. A quantidade é limitada pela situação do balanço de pagamentos. Paradoxalmente, o dinheiro da Currency School é mito, papel conversível em ouro que tem “valor” enquanto o da Banking School, signo, papel que só tem valor se os créditos concedidos forem bons e pagos.
A necessidade de um “freio” ou de uma “ancora” que fixe o valor do dinheiro, exatamente o que não parece contemplado pela Banking School foi discutida por Wiksell. O equilíbrio do nível geral de preços é indeterminado quando o valor da moeda é dado pelo valor dos bens que a economia produz, pois quando se considera a economia como um agregado, o aumento dos custos das empresas, isto é, aumento de salários representa também um aumento de receitas. Para a economia como um todo o que é custo das empresas, é renda das famílias. Se aumentarem os salários, aumenta a renda das famílias, aumenta a demanda por mercadorias e os preços podem aumentar novamente. O equilíbrio do nível geral de preços, isto é, do preço do dinheiro, é indeterminado como é indeterminado o ponto de equilíbrio de um cilindro que tenha um movimento retilíneo e uniforme sobre uma superfície sem atrito. Para que o “cilindro” chegue a um estado de imobilidade é preciso que haja alguma força, a âncora, que desacelere o movimento até que a velocidade seja nula.
Wicksell apresenta dois modelos de fixação do nível geral de preços. Numa economia que trabalha apenas com moeda (pure cash economy),como proposto pela Currency School, o nível geral de preços é determinado pela quantidade de dinheiro em circulação. Se os empresários decidirem comprar matérias primas e contratar mão de obra e matérias primas em quantidade maior do que a disponível excesso a capacidade da economia, os preços sobem, falta dinheiro e o nível de atividade tem que se reduzir. O nível geral de preços é determinado pela quantidade de dinheiro em circulação.
Na economia que trabalha apenas com crédito, com proposto pela Banking School, a oferta e a demanda total de crédito dependem da taxa de juros. Existe uma taxa de juros “natural” que faz com que a quantidade de crédito seja proporcional à quantidade de produção anual e o nível geral de preços entra em equilíbrio. Juros abaixo da taxa natural criam excesso de crédito e pressão para que o nível geral de preços suba. Juros acima da taxa natural, ao contrário, diminuem o montante de crédito em circulação e o nível geral de preços cai. A teoria neoclássica começa a modificar a taxa de juros. A taxa de juros “natural” é determinada pela poupança e pelo investimento. A taxa de juros de mercado pode no curto prazo, ser diferente da taxa de juros natural.
Dinheiro serve apenas como meio de pagamento ou meio de troca. Preços relativos não são afetados pela quantidade maior ou menor de moeda ou de crédito. Fisher propõe a distinção entre taxa de juros nominal, que inclui a expectativa de inflação e taxas de juros reais, que descontam a variação esperada do nível geral de preços. O mundo real de preços relativos não é afetado pelo mundo aparente de preços nominais.
Os neoclássicos propõem um método tabular para calcular o valor do dinheiro que serve como unidade de conta. O método tabular consiste na indexação dos preços contratados ao nível geral de preços.
No curto prazo, os ciclos de preços afetam a economia, pois os salários são pouco “plásticos” usando a linguagem da época, ou nominalmente rígidos, como falamos atualmente. O desemprego não existe como conceito social e político. Mas preços caindo e subindo geram lucros e prejuízos excepcionais que, entretanto, só duram no curto prazo. Por que os salários são rígidos?
Curto e longo prazo continuam representando o mesmo problema que representavam para os clássicos. O longo prazo é o destino inexorável de diferentes curtos prazos ou o destino desenhado pela sucessão de curtos prazos?
Clássicos e neoclássicos “projetam” um dinheiro que é apenas meio de pagamentos e não unidade de contas ou reserva de valor. Desenham um dinheiro que é signo e não mito. Ao postular que o dinheiro é apenas véu- meio de pagamento- estão reagindo a transformação do signo em mito que resulta do desenvolvimento da indústria, das relações comerciais da Inglaterra com todo o mundo e com o desenvolvimento do mercado financeiro e bancário.
O dinheiro que movimenta a economia inglesa e européia é realmente um mito, a revelia do desejo dos clássicos e neoclássicos - os ciclos de preços afetam a atividade econômica por que os salários são rígidos. Se o dinheiro é apenas meio de pagamento, porque os salários não são plásticos? Ignorância dos trabalhadores, ilusão monetária? Apenas os trabalhadores são vítimas do dinheiro como mito? O dinheiro é um mito da cultura de massas?
O sistema bancário precisa ser regulado para evitar expansão exagerada da oferta de dinheiro e o Banco da Inglaterra precisa redescontar e dar liquidez aos bancos para evitar crises monetárias. Bagehot expressa a regra de ouro do banco central –“é preciso descontar, sempre descontar” para garantir a conversibilidade do dinheiro e evitar crises monetárias. O dinheiro-signo dos clássicos é irreal, o dinheiro real é mito.
Ou o dinheiro é apenas meio de pagamento e as variações do nível geral de preços não causam problema. Ou o dinheiro afeta o valor de produção e o nível de preços é indeterminado. A inconsistência é resolvida pela existência de um longo prazo invariável onde o dinheiro não tem importância, é apenas signo conveniente para operar uma imensa e complexa economia de trocas. A desmistificação do dinheiro pelos clássicos exigiu a mitificação do longo prazo como destino fixo das variações de curto prazo.
3- O funcionamento do padrão ouro no período anterior a Primeira Grande Guerra.
O padrão ouro funcionou bem no período 1870-1914. O comércio internacional cresceu, as crises monetárias e de balanço de pagamentos foram pouco freqüentes. Na maior parte do período as economias inglesa, francesa, alemã e americana passaram por deflações decorrentes da escassez de dinheiro-mercadoria, afetando o emprego e a produção.
Depois de 1918, entretanto, a tentativa de restabelecer o padrão ouro do período anterior a Guerra resultou em instabilidade financeira, crises de inflação na França, hiperinflação na Alemanha, Polônia, Hungria e Tchecoslováquia. A defesa das taxas de câmbio fixa geraram protecionismo através de tarifas e quotas que restringiram o comércio internacional. O período entre guerras é marcado por crises monetárias e restrições ao comércio internacional.
Kindleberger atribui o bom funcionamento do padrão ouro ao bom gerenciamento monetário e a liderança do Banco da Inglaterra como potência hegemônica. A Grã Bretanha e o Banco da Inglaterra estavam sempre dispostos a aumentar os empréstimos externos para evitar o desequilíbrio do balanço de pagamentos, evitando a saída de ouro e a redução da oferta de meios de pagamentos. Teria funcionado como emprestador de última instância. Kindleberger batizou esta teoria sobre o funcionamento do padrão ouro como teoria da estabilidade hegemônica.
No período entre guerras, as crises que afetaram a estabilidade monetária de tantos paises e geraram ciclos dolorosos de desemprego que culminaram na Grande Recessão de 1930 é atribuída a desobediência as regras do padrão ouro e às desvalorizações cambiais competitivas acompanhadas por protecionismo.
Eichengreeen desafia o argumento. O funcionamento suave do sistema do padrão ouro se baseia em dois pilares: credibilidade e cooperação.
O sistema de padrão ouro funcionou bem por que havia credibilidade no compromisso dos bancos centrais em manter taxa cambial fixa e conversibilidade das moedas nacionais em ouro. Credibilidade é acreditar em alguma coisa sem comprovação ou até que se exija a comprovação.
De acordo com os princípios do padrão ouro, paises com déficit deveriam remeter ouro para o exterior e diminuir a quantidade de dinheiro em circulação. O que provocaria deflação e consequentemente desemprego dado o caráter não plástico dos salários. Paises com superávit no balanço de pagamentos deveriam receber ouro do exterior, ampliar a oferta de meios de pagamentos e passar por inflação.
Enquanto paises com déficits no balanço de pagamentos são obrigados a reduzir a oferta de meios de pagamentos, paises com superávit podem evitar a expansão monetária e a inflação acumulando reservas e evitando a expansão monetária. O ajuste tende a ser assimétrico, exigindo deflação maior do país deficitário porque não é acompanhada de inflação pelos países superavitários.
A política monetária dos bancos centrais inglês, alemão e francês reduzia a amplitude deste tipo de ajuste através da administração das taxas de juros. No caso de déficits menores e temporários, o pai deficitário aumentava as taxas de juros e os paises superavitários reduziam as taxas de juros, através de uma cooperação tácita entre os bancos centrais. No caso de déficits mais severos ou permanentes, havia cooperação explicita entre os bancos centrais que manipulavam as taxas de juros de forma a ampliar a oferta de empréstimos externos para o paií deficitário.
A confiança na manutenção desta política que garantia a conversibilidade e as taxas de câmbio fixa reduzia a necessidade de empréstimos. Pois os capitais privados se dirigiam ràpidamente para os paises deficitários na certeza de que poderiam auferir taxas de juros maiores sem risco de desvalorização cambial ou ameaça de inconversibilidade. A credibilidade no compromisso de manutenção de taxas cambiais fixas promovia um movimento especulativo estabilizador, isto é, que dirigia os fluxos de capitais para o país com déficit de balanço de pagamentos.
Nenhum banco central isolado conseguiria administrar as taxas de juros de forma a reequilibrar o balanço de pagamentos sem a cooperação tácita ou explicita de outros bancos centrais. O Banco da Inglaterra tinha liderança natural sobre os demais bancos centrais, mas não prescindia da cooperação dos outros bancos centrais para alterar taxas de juros e atrair capitais necessários ao reequilibrio do balanço de pagamentos.
A cooperação era possível entre bancos centrais era possível porque as autoridades monetárias dos paises envolvidos compartilhavam do mesmo esquema conceitual e da mesma experiência favorável com o funcionamento do padrão ouro.
A fixação das taxas de juros em função da situação do balanço de pagamentos alterava o nível de emprego e salários diretamente. Entretanto, o trabalho era pouco sindicalizado e não havia consciência política da ligação entre balanço de pagamentos e nível de emprego nacional. O desempregado era chamado de “sem trabalho” nos Estados Unidos, vagabundo, andarilho (“cheminot”) ou destituído nos paises da Europa. O desemprego era problema individual decorrente de falta de energia disciplina ou depressão.
A situação não pode ser exagerada. Havia movimentos sindicais e crise social,mas sempre que o banco central precisasse escolher entre o equilíbrio externo e o emprego doméstico, não precisava hesitar e priorizava o equilibrio externo.
As contas fiscais eram equilibradas e não existiam déficits fiscais. As receitas tributárias eram baseadas principalmente em tarifas aduaneiras e impostos de importação, não havendo impostos sobre a renda ou a propriedade. Não havia conflito sobre a distribuição da carga tributária. A cooperação entre bancos centrais era possível.
Credibilidade e cooperação, portanto, garantiram o funcionamento suave do padrão ouro no período 1870 –1914.
Mas o funcionamento do padrão ouro era diferente do funcionamento previsto pela teoria do padrão ouro. A confiança nos dinheiros nacionais que se baseava na conversibilidade destes dinheiros em ouro era mantida pela política monetária que evitava desequilíbrios e o teste de comprovação, isto é, a conversibilidade do dinheiro em ouro.
O padrão ouro real funcionava suavemente por que todos acreditavam que o padrão ouro teórico era a melhor forma de organizar o sistema monetário. A “crença” fornecia “crédito” para o pais deficitário por parte do país superavitário e cooperação entre os bancos centrais que compartilhavam da mesma fé.
O padrão ouro, isto é, a conversibilidade do dinheiro nacional em ouro, funcionava porque os agentes econômicos acreditavam que a moeda podia ser convertida em ouro e os bancos centrais manipulavam as taxas de juros de forma a evitar que o teste de conversibilidade fosse aplicado.
A administração desta política era possível graças a uma constelação política que garantia equilíbrio fiscal, por um lado e a ignorância social das relações entre este a política monetária e o nível de emprego e salário dos trabalhadores. O padrão ouro é um mito, “uma história que não requer comprovação”, uma crença compartilhada na essência de um dinheiro que não existe.
O regime do padrão ouro não é uma farsa. A essência do regime é administrar a política monetária em função do balanço de pagamentos e é assim que o padrão ouro funcionava. Mas a política monetária era administrada e não automática como propunham os seus defensores. Da mesma forma, o dinheiro era conversível em ouro, mas a conversibilidade era potencial e não real. A política monetária administrava taxas de juros para evitar que o teste de conversibilidade fosse levado ao limite. O nível geral de preços das diversas economias oscilava em função do balanço de pagamentos. Mas a política monetária evitava a amplitude destas variações e seus efeitos sobre a produção e o emprego. Nos mitos, a essência tem precedência sobre a existência.
A Primeira Grande Guerra e destrói os dois eixos que garantiram o sucesso anterior: credibilidade e cooperação.
Os diversos participantes da Primeira Guerra passam a ter desequilíbrios fiscais decorrentes das despesas de guerra e a definição da carga tributária baseada em novos impostos reabre o debate político sobre o financiamento das despesas públicas.
O sindicalismo que se amplia durante a Primeira Guerra por iniciativa dos diferentes governos para controlar a agitação trabalhista durante o conflito, transforma o desemprego em questão política e constrange a ação dos bancos centrais.
A estrutura de endividamento se modifica: os Aliados passam a ser devedores dos Estados Unidos que havia fornecido empréstimos durante a guerra e credores da Alemanha a quem foram impostos os pagamentos de reparação.
Os diferentes bancos centrais europeus e o americano deixam de compartilhar das mesmas estruturas conceituais e estão relacionados por créditos e dívidas que impedem a cooperação. A encenação do padrão ouro não é mais possível.
A credibilidade na manutenção das taxas cambiais fixas e na conversibilidade do dinheiro em ouro fica ameaçada pela questão política interna do desemprego. O mito não é adequado a nova realidade e se transforma em estorvo.
4- A economia mundial após a Primeira Grande Guerra: a impossibilidade de manter a farsa.
A primeira Grande Guerra resulta tanto do expansionismo da Alemanha no Oriente Próximo quanto dos conflitos eslavo-germânicos nos Bálcãs. De um lado estão a Alemanha, o Império Austro-Húngaro, a Turquia, a Bulgária e de outro a França, a Sérvia, o Japão,a Itália, a România e Portugal a quem se juntam mais tarde os Estados Unidos, a Grécia, a China e muitos estados da América do Sul.
Tem início com o assassinato do arquiduque herdeiro do Império Austro Húngaro em Saravejo e termina com a assinatura do Tratado de Versalhes que impõe pesados pagamentos de reparação a Alemanha.. O Tratado de Versalhes é assinado em um vagão de trem estacionado em Versalhes vingando o tratado de paz anterior, assinado entre a Prússia vitoriosa e a França derrotada em 1871. Os pagamentos de reparação fixados pelos Aliados vitoriosos são exorbitantes e dão origem a instabilidade financeira permanente na Alemanha derrotada que passa por dramática crise de hiperinflação em 1923.
O mapa da Europa modifica-se dramaticamente- o Império austro-húngaro desmembra-se em diversos países- Áustria, Hungria, Tchecoslováquia, Sérvia e Montenegro. Os paises derrotados, que pertencem á área de influência do marco alemão, vivem crises de hiperinflação nos anos 20. A França acumula dívidas de guerra com os Estados Unidos e têm créditos vultosos contra a Alemanha gerados pelo Acordo de Versalhes.
O mundo pacificado se reúne sob a Liga das Nações, a nível político e funda o Banco da Basiléia com o objetivo de regular as relações financeiras internacionais. A doutrina econômica proposta é simples: cada país deveria restabelecer as paridades cambiais de antes da Grande Guerra, corrigindo as taxas cambiais pela inflação ocorrida no período. O restabelecimento de taxas cambiais permitiria a reinstituição do padrão ouro, modificado agora pela possibilidade de utilizar em maior escala, moedas conversíveis em ouro como se fossem reservas de ouro. Assim, por exemplo,as reservas em dinheiro austríaco seriam consideradas reservas em ouro se este dinheiro mantivesse política adequada de reservas. O mundo deve recuperar a prosperidade anterior a Grande Guerra reconstruindo o regime monetário anterior.
A correção das taxas cambiais pela inflação supõe que a inflação ou a deflação são fenômenos neutros, isto é, que alteram o valor da moeda mas não alteram os preços relativos. O dinheiro é apenas um véu, meio de pagamento ou de troca, que não muda preços relativos, isto é, que não exerce o papel de unidade de conta. Como o dinheiro não é visto como reserva de valor, isto é, ativo financeiro, o seu preço depende apenas dos preços das mercadorias que pode comprar.
A tentativa de reconstrução do padrão ouro no período entre guerras criou instabilidade monetária em diversos países, protecionismo e redução dos fluxos comerciais, desvalorizações cambiais que culminaram com a crise da Bolsa de Nova York e um longo período de depressão que dura de 1930 até o início da Segunda Guerra em 1939.
Por que o padrão ouro não funcionou suavemente depois da Guerra de 14 e como as crises monetárias do período entre guerras culminaram com a grande depressão de 1930 que se estende até o início da Segunda Guerra Mundial?
A Primeira Guerra Mundial fortaleceu o balanço comercial e o balanço de capitais dos Estados Unidos e enfraqueceu o das outras nações. Os Estados Unidos se tornaram grande exportador de produtos agrícolas e industriais e credor dos países da Europa por conta de despesas da guerra. A América Latina precisava de empréstimos para compensar a queda de preços dos produtos que exportava e apenas os Estados Unidos poderia reciclar os superávits comerciais e os créditos que recebia para financiar estes paises. Se os empréstimos americanos fossem interrompidos, o balanço de pagamentos dos países europeu mantido graças ao fluxo de empréstimos americanos ficaria desequilibrado. Conforme perdessem ouro e reservas em moeda estrangeira a conversibilidade das moedas européias seria ameaçada.
No início, o financiamento do comércio internacional funcionou suavemente com generosos empréstimos americanos. A Alemanha e as novas nações da Europa Oriental receberam empréstimos que permitiram o restabelecimento das taxas cambiais do período anterior a guerra e permitiram combater a hiperinflação. A Inglaterra restabelece a paridade cambial do pré-guerra sem grandes dificuldades.
A política de crédito acomodatícia dos Estados Unidos é mal vista no país, sendo responsabilizada pelo crescimento excessivo dos preços das ações na Bolsa de Nova York. Em 1928 o Federal Reserve adota política monetária restritiva infelizmente coincide com o mesmo movimento restritivo por parte do Banco da França. França e Estados Unidos drenam ouro dos outros países.
Juros americanos crescentes cortam os empréstimos externos e no verão de 28 , os paises da Europa adotam igualmente políticas restritiva para defender a paridade do ouro e os pagamentos das dividas. O serviço da dívida era mantido na expectativa de acesso futuro ao mercado financeiro internacional.
O aumento das taxas de juros acaba por gerar o Crash da Bolsa de Nova York que é seguido por grande depressão nos Estados Unidos e no resto do mundo. O comércio internacional se reduz pela falta de liquidez, pelas medidas contracionistas adotadas para defender as taxas cambiais fixas e a conversibilidade e por medidas protecionistas. O protecionismo agrava o problema dos países da América Latina onde em 1931 muitos paises entram em default. Em 1932, é a vez da Europa Central e em 1933, a Alemanha. A suspensão dos pagamentos de dívida externa acaba por agravar a situação do balanço de pagamentos da Inglaterra que dependia muito destes pagamentos para manter o equilíbrio das contas externas, criando a crise da libra esterlina em 1931.
A grande recessão que se inicia nos Estados Unidos a partir dos anos 30 é um grande mistério. Não há consenso sobre as causas. O aperto da política monetária em 28 e 29 é apenas o deflagrador da crise através da derrubada no preço das ações. A recessão pode ser explicada por desequilíbrios na indústria de automóvel? Ou pelo efeito perda de riqueza que acompanha a desvalorização das ações na Bolsa?
O debate não tem solução. Mas a recessão que se inicia nos Estados Unidos já afetava anteriormente a Europa. As exportações americanas já mostravam sinais de declínio antes da queda da produção industrial que se inicia mais tarde. Por isto, a virada da economia foi tão severa - não havia como desviar a produção do mercado doméstico para o internacional.
Portanto, a depressão não se explica apenas pela política monetária restritiva americana, mas principalmente pelo sistema do padrão ouro que transmitia os efeitos desta política restritiva a todos os países do mundo, gerando medidas contracionistas que ampliavam os efeitos iniciais. Por outro lado, o Federal Reserve não reagiam a melhoria do balanço de pagamentos afrouxando a política monetária enquanto o boom da bolsa continuava. O Fed aumentava as taxas de juros, em vez de diminuí-las.
Nada disto, entretanto é suficiente para explicar por que os demais paises não afrouxavam a política monetária e fiscal. A explicação está na manutenção do regime do padrão ouro: enquanto as taxas cambiais e a conversibilidade eram mantidas, a política fiscal e a monetária tinham que ser restritivas. A Inglaterra tentou adotar políticas expansionistas em 1930, os Estados Unidos em 1931-33, a Bélgica em 34 e a França em 34-35. Todas tiveram que voltar atrás, face à perda de reservas e a ameaça sobre a conversibilidade de suas moedas. Portanto, mesmo os Estados Unidos e a França, paises lideres em termos de reservas de ouro não conseguiam adotar políticas expansionistas enquanto o regime do padrão ouro estivesse em vigor a menos que adotasse políticas expansionistas ao mesmo tempo, o que exigiria cooperação internacional.
Aconteceram encontros internacionais como a Conferencia Econômica de Londres em 1933. Mas questão das dividas de guerra, ainda sem solução, complicavam as negociações. E as autoridades monetárias tinham visões diferentes sobre o problema e a solução. Os franceses temiam a inflação porque haviam passado por inflação de dois dígitos em 1926 e atribuíam a inflação a políticas expansionistas em desobediência as regras do padrão ouro. Os ingleses percebiam a recessão como resultada das altas taxas de juros. Os americanos pensavam como os franceses enquanto Hoover era o presidente, e como os ingleses, quando Franklin Delano Roosevelt assumiu a presidência.
A grande recessão de 1930 iniciou-se, portanto, com a mudança da política monetária americana nos anos 28-30. Mas o que a propagou pelo resto do mundo foi o regime do padrão ouro, isto é, a manutenção de taxas cambiais fixas e conversibilidade das moedas nacionais em ouro.
As falências bancárias levavam a liquidação de depósitos bancários sem que os bancos centrais pudessem fazer empréstimos aos bancos domésticos, pois as defesas da taxa cambial e das reservas impediam políticas expansionistas. Quando os depósitos bancários estrangeiros eram importantes o problema se tornava mais grave. Bancos alemães mantinham depósitos em Viena e bancos austríacos, na Alemanha. Quando os bancos austríacos entram em falência, o efeito se propaga para a Alemanha, mas o Reichsbank não pode oferecer empréstimos de liquidez por que está impedido de fazê-lo pelos acordos da dívida externa e pela obrigação de manter 40% da oferta de meios de pagamento garantida pelo ouro. A crise bancária austríaca se propaga para a Alemanha, Hungria e outros países da Europa Central.
O mesmo tipo de crise ocorre nos Estados Unidos em 33 e na Bélgica em 1934. Dinamarca e Suécia fora do padrão ouro desde 1931 tinham liberdade para agir. O padrão ouro não era garantia mais de estabilidade, mas ao contrário, o maior empecilho para a manutenção da estabilidade.
No período entre guerras, os bancos centrais poderiam manter como reserva equivalente ao ouro, moedas de outros países que fizessem parte do sistema do padrão ouro. Assim, qualquer mudança nas taxas cambiais ou nas regras de conversibilidade de uma moeda afetava imediatamente a posição de reservas de todos os bancos centrais e exigia medidas monetárias restritivas.
A partir do momento em que a política monetária dos Estados Unidos deixa de ter como objetivo o equilíbrio do balanço de pagamentos das economias mais importantes do mundo, o regime do padrão ouro entra em crise.
O padrão ouro pode funcionar suavemente apenas quando a política monetária de todos os paises funcionava harmonicamente tendo como objetivo garantir o equilíbrio do balanço de pagamentos. A elevação dos preços da Bolsa de Nova York é o deflagrador do movimento desarmônico da política monetária americana, o pais mais importante em termos de superávits comerciais e de fluxos de capital. Este é o movimento deflagrador da crise.
A difusão da crise e a sua duração decorrem da tentativa de manutenção do regime quando ele não era mais viável, porque não contava mais com a credibilidade e a cooperação dos paises mais importantes da Europa e dos Estados Unidos.
Os bancos centrais não podiam mais colaborar entre si na administração de taxas de juros. Em parte, por que as tentativas de cooperação explícita eram impossíveis devido a nova estrutura de endividamento entre estes paises e particularmente pela imensa dívida de pagamentos de reparação da Alemanha. Em parte, por que alguns bancos centrais, como o Banco da França estavam impossibilitados, de realizar acordos de cooperação depois que um novo estatuto desenhado para protegê-lo de pressões políticas proibia esta cooperação.
Finalmente, por que compartilhavam de visões conceituais diferentes sobre o problema monetário. Enquanto a França e Alemanha tinham tido experiência dolorosa com a inflação que atribuíam ao abandono do padrão ouro e ao crescimento da oferta de meios de pagamentos, Estados Unidos e Inglaterra , passavam por período de desemprego que atribuíam a restrição de crédito e a manutenção do regime do padrão ouro. A cooperação se tornara impossível.
A tentativa de defender taxas cambiais fixas e conversibilidade na ausência de cooperação e credibilidade nas políticas acabou por gerar medidas protecionistas através de tarifas e desvalorizações cambiais competitivas (a política de “beggar thy neighbor”) que reduziram o comércio internacional agravando ainda mais o desemprego nos diversos países. Foram estas medidas protecionistas e desvalorizações cambiais que inspiraram o diagnóstico freqüente segundo o qual a desobediência ao regime do padrão ouro havia prolongado e difundido a crise de desemprego. Na realidade, estas medidas se tornaram necessárias por causa da insistência em manter o regime de taxas cambiais fixas.
A política monetária também era limitada pela manutenção de taxas cambiais fixas e conversibilidade. A tentativa de acudir bancos insolventes gerava saídas de capital que obrigavam a suspensão do auxílio. Assim, falências bancárias se multiplicavam contraindo a oferta de crédito e de meios de pagamentos. O caso do Credianstalt, o mais famoso, ilustra bem o problema. Em 1931 o banco austríaco enfrenta dificuldades e entra em falência. As autoridades monetárias austríacas não podem auxiliá-lo porque a expansão monetária geraria, imediatamente, fuga de capitais e ameaça de desvalorização cambial. A falência deste banco gera crise monetária na Alemanha já que muitos alemães e bancos alemães tinham depósitos no banco austríaco. A Alemanha, por sua vez, não pode auxiliar os bancos alemães em dificuldades por causa do regime do padrão ouro e por restrições sobre a relação meios de pagamento - reservas em ouro impostas pelos Aliados como parte do acordo de paz de 1918.
A política fiscal, da mesma forma, estava impossibilitada de agir pelas regras de equilíbrio fiscal e pelo próprio regime do padrão ouro. A expansão monetária decorrente de desequilíbrios fiscais ameaçava ainda mais a estabilidade da taxa de câmbio e geraria saídas de ouro do país que experimentasse política fiscal expansionista.
O regime do padrão ouro, definido como um regime de moedas conversíveis em ouro a preços fixos era na realidade um regime de dinheiro fiduciário, isto é, dependente de fiducia, confiança na sua conversibilidade a taxas cambiais fixas. Esta confiança só podia ser mantida através da administração coordenada das taxas de juros que distribuíam crédito para os países com desequilíbrios no balanço de pagamentos, evitando o teste da conversibilidade. Sem crédito coordenado pela cooperação, o teste de confiança mostrou a realidade - as moedas não podiam ser convertidas a taxas fixas entre si e não eram lastreadas em ouro.
Em 1933(?) o presidente Franklin Delano Roosevelt desvaloriza a moeda americana e sai do padrão ouro.
Antes, a Bélgica havia desvalorizado a sua moeda e suspendido a conversibilidade. Ao mesmo tempo, expandiu o crédito interno. A economia doméstica da Bélgica se expandiu com nível geral de preços crescente. A desvalorização não ampliou as exportações porque a taxa cambial não se desvalorizou em termos reais devido a inflação interna.
Na Tchecoslováquia, a desvalorização cambial não foi acompanhada de expansão do crédito interno. As exportações aumentaram assim como as reservas, permitindo a expansão do crédito interno. Produção e emprego cresceram mais lentamente. A Inglaterra ficou entre estes dois casos extremos. A França desvalorizou e cortou credito domestico que neutralizaram beneficio da desvalorização.
Estava determinado o fim do padrão ouro. A expansão foi lenta e as desvalorizações cambiais descoordenadas. O “ethos” do padrão ouro impediu que as autoridades monetárias desvalorizassem ou expandissem o crédito mais ràpidamente, pois os agentes econômicos reagiriam, acostumados com a cultura do padrão ouro, com movimentações de capital ou receio de inflação. A política monetária é condicionada pelas crenças e hábitos da economia sobre as práticas consideradas corretas e as expectativas conceituais decorrentes de cada medida. O “ethos” do padrão ouro é responsável pela lentidão das reações da política monetária e, consequentemente, pela duração maior do desemprego. Ao mesmo tempo em que a economia passava por longa deflação, muitos países evitavam desvalorizar ou ampliar o crédito, com receio da inflação que haviam experimentado em períodos anteriores.
I-Introdução.
A primeira estrofe dos Lusíadas- “As armas e os barões assinalados”- repete o primeira estrofe da Eneida de Virgilio- “arma virumque” ou as “armas e os homens”- escrita mil e quinhentos anos antes. A Eneida conta a história da fundação de Roma, a partir da derrota de Tróia, cantada em verso por Homero mil e quinhentos anos antes.O conflito, a conversa e as controvérsias giram sempre sobre os mesmos temas. Somos prisioneiros de um “tecido de citações”.
A teoria monetária está submetida a mesma sorte. A discussão parece circular, passando sempre pelos mesmos lugares. É espiral - olha os mesmos lugares sob ângulos diferentes que, entretanto, se repetem.
Tomamos como ponto de partida a teoria e política monetária no final do século XIX durante a segunda revolução industrial, na Inglaterra no início do período Vitoriano, quando se consolida o Império Britânico. Poderíamos começar no século XIII e XIV no período da chamada Revolução Comercial quando as cidades do norte da Itália, do norte da Europa e as cidades espanholas se desenvolvem com o comércio de mercadorias trazidas do Oriente distante ou produzidas pelos artesãos destas cidades. Começamos mais tarde porque dinheiro, Estados nacionais e o capitalismo já estão consolidados.
O dinheiro só pode se transformar em mito na sociedade próspera, onde a produção de bens necessários a sobrevivência – saúde, alimentação, habitação e segurança – deixaram de ser a preocupação fundamental. Em economias primitivas ou em economias não capitalistas, o dinheiro não pode ser mito. Os Yanomani não usam dinheiro. Os mitos de sociedades primitivas apaziguam as forças da natureza, confortam o medo do inexplicável e sobrenatural. Não arriscam a própria sobrevivência, trabalhando com imagens que não sejam expressão direta do que precisam para sobreviver. Têm vida material singela e não acumulam dinheiro como representante de consumo ou riqueza futura. Dinheiro é produto de luxo. :
“Estatisticamente, os mitos estão à direita. As palavras dos ricos, [poderosos ou opressores] são multiformes, sutis, dispondo de todos os graus de dignidade. A direita tem a exclusividade da metalinguagem e do mito. O opressor quer conservar a existência sem aparecer. O oprimido não usa senão uma palavra, a da sua emancipação. O oprimido faz o mundo: quem trabalha para sobreviver não pode se dar ao luxo de produzir mitos. As imagens têm que corresponder às coisas diretamente. A linguagem do opressor visa a eternizar o mundo. A do oprimido, a transformá-lo.” .
A origem sagrada e irracional do dinheiro das sociedades primitivas não contradiz esta proposição: o dinheiro daquelas sociedades não organizava a produção, servia apenas para cancelar obrigações sociais, religiosas ou militares. Do ponto de vista material, era usada para medir estoques de bens de primeira necessidade mantidos nos templos. O dinheiro mito, que organiza a vida material da sociedade, só existe após determinado grau de riqueza material e desenvolvimento das instituições financeiras.
O debate em espiral começa com os clássicos, cujas obras mais importantes datam do final do século XVII e século XVIII. Evolui para os neoclássicos que completam e resolvem problemas da teoria dos antecessores. Do final da Grande Guerra em 1918 até 1945, o mundo vive longo período de violência, transformações políticas, crises monetárias e desemprego que se resolve apenas com o inicio da Segunda Guerra. O dinheiro - teoria e política monetárias - é o centro do redemoinho de violência, guerra e crises financeiras que resultam na publicação da Teoria Geral dos Juros do Emprego e da Renda, enquanto a realidade se impõe na prática “keynesiana” aos governos de Franklin Roosevelt, nos Estados Unidos, na política econômica do nazismo e na política de Getulio Vargas no Brasil.
Depois da Segunda Guerra, o movimento espiral continua, com nomes que repetem os do período anterior. A revolução keynesiana é reinterpretada pelos neoclássicos (diferentes dos neoclássicos de antes), por neokeynesianos e por monetaristas (que recuperam o pensamento dos neoclássicos do seculo XIX). Nos últimos vinte anos são substituídos pelos novos clássicos, novos monetaristas e novos keynesianos.
2- A teoria monetária clássica: período dourado da Teoria Quantitativa da Moeda, de 1870 a 1914.
Os clássicos - Mill, Jevons e Bagehot - tratam de todos os temas permanentes da teoria monetária. É possível que os filósofos digam a mesma coisa sobre Sócrates, Platão, Aristóteles e os sofistas. Nas artes e na literatura, a escola clássica procura o equilíbrio, a harmonia e o natural. Clássicos (autores dados em classe) são reescritos pelos leitores de todas as gerações. Podemos nos surpreender com a vida presente em textos tão antigos ou nos desesperar com a monotonia do horizonte.
O personagem da teoria econômica clássica é como as figuras dos quadros e esculturas clássicas um homem tranqüilo, harmônico e dominado pela razão. Trabalha para viver, realiza trocas para obter os bens e serviços necessários a sua sobrevivência. Não se ilude com o dinheiro.
É diferente dos personagens reais da sociedade capitalista. Não se parece nem com os cruéis personagens de Charles Dickens, avaros que exploram crianças, não é um “tycoon” nem um “trader” sentado a frente de várias telas de computador e gritando ordens de compra e venda ao telefone como costumamos imaginar. É mais próximo de um Robinson Crusoe do século XVIII ou de um “hippie” dos anos 70.
A teoria monetária clássica “desenha” um dinheiro que é signo e não mito, ou seja, um dinheiro onde o significante, o valor, não distorce o significado.
O dinheiro é uma medida de valor. Poderia ter qualquer valor, mas tem que ter um valor só. O dinheiro é uma mercadoria – o ouro. A quantidade de ouro é limitada, o ouro é durável e pode ser dividido em unidades de qualquer tamanho. É homogêneo, impessoal e anônimo. E principalmente, natural.
O preço do ouro é igual ao custo marginal de extração. O preço do dinheiro, isto é, o preço médio de todas as coisas expressas em dinheiro é igual ao preço do ouro. Não pode ser manipulado pelo governo de quem os clássicos e liberais desconfiam. Não pode ser politizado. O dinheiro é ouro e o seu valor, natural.
A quantidade de moeda em circulação é determinada pelas entradas e saídas de ouro no país. O país que exporta mais do que importa, recebe ouro pela diferença, aumenta a quantidade de meios de pagamento. O aumento de oferta de meios de pagamentos aumenta o nível geral de preços. Com taxas de câmbio fixas, o preço dos produtos exportáveis e importáveis fica relativamente menor, o país exporta menos e importa mais, e o equilíbrio do balanço comercial se restabelece.
Dinheiro serve apenas como meio de pagamento que facilita as trocas, “viabiliza o funcionamento de uma gigantesca economia de trocas” . Dinheiro não é unidade de conta -- os preços são preços relativos, um cafezinho custa um pão com manteiga. O significado não é o valor, mas o valor relativo. O dinheiro não muda preços relativos nem a teoria do valor - os preços são determinados no mercado pelo custo marginal de longo prazo de cada mercadoria. O valor do ouro não modifica os preços relativos - um cafezinho pode custar uma libra ou cem libras de ouro, mas custará sempre a mesma coisa que um pão com manteiga. O dinheiro é um signo - o significado não altera o significante. Não é mito.
O sistema financeiro multiplica as expressões do dinheiro - depósitos, notas bancárias lastreadas em ouro e notas bancários representando apenas crédito fiduciário, sem lastro em ouro. Bancos recebem ouro em depósito e emitem notas bancárias. Nota bancária é dinheiro? Os bancos fazem empréstimos e recebem depósitos. Depósito é dinheiro? Bancos emitem notas bancárias sem o correspondente depósito em ouro. As notas bancárias são dinheiro? O que é o dinheiro - apenas a moeda metálica ou a moeda metálica e outros significantes?
O desenvolvimento do sistema bancário modifica a teoria: no longo prazo, o nível de preços é igual ao custo marginal de produção de ouro. No curto prazo, o nível de preços é dado pela teoria quantitativa da moeda, ou seja, pela proporção entre a quantidade de dinheiro, (igual a quantidade de notas bancárias com lastro em ouro e depósitos a vista) e a quantidade de mercadorias produzidas. No curto prazo, a quantidade de dinheiro em circulação pode ser maior ou menor do que a quantidade de ouro. O nível geral de preços é determinado pela oferta de bens relativamente a demanda. A quantidade de dinheiro em circulação é um estoque (quantidade existente em determinado período de tempo). A quantidade de mercadorias produzidas é um variável fluxo, produção por ano. Se existem 100 moedas de ouro que valem um libra cada, ou seja, 100 libras, em circulação e se a produção nacional é de 1000 libras por ano, o dinheiro circulou, mudou de mãos 10 vezes por ano entre pagamentos e recebimentos.
A velocidade renda de circulação da moeda não é necessàriamente constante. Depende de hábitos de pagamento (mensal, semanal, anual), grau de integração das empresas e outras variáveis que por sua vez são constantes no curto prazo. Pode circular mais ou menos ràpidamente e causar variações de preços. “Coeteris paribus”, isto é, mantidas constantes as variáveis que determinam a velocidade renda de circulação da moeda, o nível de preços é determinado no curto prazo, pela quantidade de dinheiro em circulação. No longo prazo, pelo custo marginal de extração do ouro.
Como controlar a quantidade de dinheiro em circulação ainda que o dinheiro fosse mercadoria como outra qualquer?
O dinheiro projetado pela teoria clássica é sistema de significantes neutros que não modificam a realidade em que são aplicados. Como a língua sonhada pelos positivistas que dá um nome para cada coisa que existe e abomina a metafísica que fala de coisas que não existem. Cada coisa tem um preço que se expressa por dinheiro, mas o preço de cada coisa não é modificado pela forma em que são expressos em dinheiro. Exerce somente a função de meio de pagamento, não é nem unidade de conta nem reserva de valor.
O personagem da teoria clássica não trabalha para ganhar dinheiro. Trabalha para obter mercadorias que atendem as necessidades reais. A produção de mercadorias é idêntica a demanda de mercadorias, ou, nos termos da Lei de Say, a oferta cria sua própria demanda. Quem produziu, produziu para vender e comprar bens e serviços. A soma dos lucros, salários, juros e aluguéis é exatamente igual a soma das despesas de consumo e de investimento. Quem não consumiu, emprestou dinheiro para quem consumiu mais do que ganhou ou investiu. A demanda por bens de serviços é igual a oferta de bens e serviços. O homus oeconomicus clássico não guarda dinheiro como reserva de valor.
A taxa de juros resulta do retorno dos capitais investidos e da poupança, da disposição em não consumir. Se investimentos produzem altas taxas de retorno, a taxa de juros é alta. Se existe pressa em consumir e pouca poupança, a taxa de juros é alta. A taxa de juros é fenômeno real. O dinheiro não altera as taxas de juros.
Ciclos são períodos de variação positiva ou negativa do nível geral de preços causada por descobertas importantes de ouro (Lago Vitória na África e São Francisco nos Estados Unidos).
Dinheiros de diferentes países deviam ser trocados a taxa fixa, dada pela quantidade de ouro existente em cada moeda. Consequentemente, a quantidade de dinheiro em circulação depende do balanço de pagamentos. Superávits comerciais, exportações maiores do que importações aumentam a quantidade de ouro e de dinheiro em circulação. Os ciclos de variação de preços não são acompanhados sincronicamente pela variação dos salários, criando lucros excepcionais quando os preços subiam mais rapidamente que os salários e prejuízos quando caiam. Como conciliar o caráter neutro do dinheiro, que é apenas meio de pagamento e não unidade de contas com a realidade dos salários lentos para se ajustar? A variação do nível geral de preços não deveria afetar a economia se o dinheiro é signo e usado apenas como meio de pagamentos.
Novamente, o tempo resolve a inconsistência: no curto prazo, os preços nominais podem se afastar dos preços relativos. No longo prazo tendem a voltar. O longo prazo é um destino fixo como o nível médio do mar. A tempestade levanta e afunda a proa do navio em ondas gigantescas, mas quando acalma, retorna ao nível médio do mar.
O longo prazo parece ser o dia em que se “encerram” todas as atividades de troca e todo o dinheiro é redimido, trocado por ouro ou mercadorias. Este dia determina o funcionamento da economia no curto prazo, quando pode haver desvios - a quantidade de dinheiro pode ser maior do que a quantidade de ouro e os salários podem ser modificados pela oscilação no preço da moeda.
Os neoclássicos (Marshall, Fisher e Wicksell) de antes da I Grande Guerra completam e resolvem as inconsistências da teoria clássica.
O preço do ouro é determinado pela demanda de dinheiro. O estoque de ouro existente é grande relativamente à quantidade de ouro novo extraído das minas todos os anos. O preço do ouro só é alterado marginalmente pela descoberta de novas jazidas. Depende mais da demanda de dinheiro do que dos custos de extração. A utilização do ouro como dinheiro aumenta a demanda e o preço do ouro. É a demanda de dinheiro que determina o preço do ouro e não o preço do ouro que determina o preço do dinheiro. O preço da forma (do ouro) é determinado pelo seu sentido (o valor) que procurava um preço natural para si mesmo O nível geral de preços é determinado pela quantidade de dinheiro em circulação tanto no curto quanto no longo prazo
A quantidade de dinheiro não é “natural”. Precisa ser controlada pelo Banco Central. O sistema bancário precisa ser regulado. Para os economistas da Banking School dinheiro deveria ser o crédito criado pelos bancos e não precisava ser conversível em ouro. A quantidade de dinheiro reagia passivamente à demanda. A Currency School defendia a conversibilidade e o controle da emissão de dinheiro. A Currency School é vencedora - o Banco da Inglaterra foi dividido em banco emissor onde as reservas de ouro estariam concentradas e banco comercial, operando como banco comercial comum. Os Country Banks, bancos localizados fora do centro financeiro da City perdem o direito de emissão.
O dinheiro defendido pela Banking School é um dinheiro lastreado em empréstimos utilizados para produzir ou comercializar mercadorias. A quantidade de dinheiro, neste caso, é determinada pelo estado geral dos negócios e pelo nível de produção. O dinheiro proposto pela Currency School é estritamente ligado a quantidade de ouro existente nas reservas bancárias. A quantidade é limitada pela situação do balanço de pagamentos. Paradoxalmente, o dinheiro da Currency School é mito, papel conversível em ouro que tem “valor” enquanto o da Banking School, signo, papel que só tem valor se os créditos concedidos forem bons e pagos.
A necessidade de um “freio” ou de uma “ancora” que fixe o valor do dinheiro, exatamente o que não parece contemplado pela Banking School foi discutida por Wiksell. O equilíbrio do nível geral de preços é indeterminado quando o valor da moeda é dado pelo valor dos bens que a economia produz, pois quando se considera a economia como um agregado, o aumento dos custos das empresas, isto é, aumento de salários representa também um aumento de receitas. Para a economia como um todo o que é custo das empresas, é renda das famílias. Se aumentarem os salários, aumenta a renda das famílias, aumenta a demanda por mercadorias e os preços podem aumentar novamente. O equilíbrio do nível geral de preços, isto é, do preço do dinheiro, é indeterminado como é indeterminado o ponto de equilíbrio de um cilindro que tenha um movimento retilíneo e uniforme sobre uma superfície sem atrito. Para que o “cilindro” chegue a um estado de imobilidade é preciso que haja alguma força, a âncora, que desacelere o movimento até que a velocidade seja nula.
Wicksell apresenta dois modelos de fixação do nível geral de preços. Numa economia que trabalha apenas com moeda (pure cash economy),como proposto pela Currency School, o nível geral de preços é determinado pela quantidade de dinheiro em circulação. Se os empresários decidirem comprar matérias primas e contratar mão de obra e matérias primas em quantidade maior do que a disponível excesso a capacidade da economia, os preços sobem, falta dinheiro e o nível de atividade tem que se reduzir. O nível geral de preços é determinado pela quantidade de dinheiro em circulação.
Na economia que trabalha apenas com crédito, com proposto pela Banking School, a oferta e a demanda total de crédito dependem da taxa de juros. Existe uma taxa de juros “natural” que faz com que a quantidade de crédito seja proporcional à quantidade de produção anual e o nível geral de preços entra em equilíbrio. Juros abaixo da taxa natural criam excesso de crédito e pressão para que o nível geral de preços suba. Juros acima da taxa natural, ao contrário, diminuem o montante de crédito em circulação e o nível geral de preços cai. A teoria neoclássica começa a modificar a taxa de juros. A taxa de juros “natural” é determinada pela poupança e pelo investimento. A taxa de juros de mercado pode no curto prazo, ser diferente da taxa de juros natural.
Dinheiro serve apenas como meio de pagamento ou meio de troca. Preços relativos não são afetados pela quantidade maior ou menor de moeda ou de crédito. Fisher propõe a distinção entre taxa de juros nominal, que inclui a expectativa de inflação e taxas de juros reais, que descontam a variação esperada do nível geral de preços. O mundo real de preços relativos não é afetado pelo mundo aparente de preços nominais.
Os neoclássicos propõem um método tabular para calcular o valor do dinheiro que serve como unidade de conta. O método tabular consiste na indexação dos preços contratados ao nível geral de preços.
No curto prazo, os ciclos de preços afetam a economia, pois os salários são pouco “plásticos” usando a linguagem da época, ou nominalmente rígidos, como falamos atualmente. O desemprego não existe como conceito social e político. Mas preços caindo e subindo geram lucros e prejuízos excepcionais que, entretanto, só duram no curto prazo. Por que os salários são rígidos?
Curto e longo prazo continuam representando o mesmo problema que representavam para os clássicos. O longo prazo é o destino inexorável de diferentes curtos prazos ou o destino desenhado pela sucessão de curtos prazos?
Clássicos e neoclássicos “projetam” um dinheiro que é apenas meio de pagamentos e não unidade de contas ou reserva de valor. Desenham um dinheiro que é signo e não mito. Ao postular que o dinheiro é apenas véu- meio de pagamento- estão reagindo a transformação do signo em mito que resulta do desenvolvimento da indústria, das relações comerciais da Inglaterra com todo o mundo e com o desenvolvimento do mercado financeiro e bancário.
O dinheiro que movimenta a economia inglesa e européia é realmente um mito, a revelia do desejo dos clássicos e neoclássicos - os ciclos de preços afetam a atividade econômica por que os salários são rígidos. Se o dinheiro é apenas meio de pagamento, porque os salários não são plásticos? Ignorância dos trabalhadores, ilusão monetária? Apenas os trabalhadores são vítimas do dinheiro como mito? O dinheiro é um mito da cultura de massas?
O sistema bancário precisa ser regulado para evitar expansão exagerada da oferta de dinheiro e o Banco da Inglaterra precisa redescontar e dar liquidez aos bancos para evitar crises monetárias. Bagehot expressa a regra de ouro do banco central –“é preciso descontar, sempre descontar” para garantir a conversibilidade do dinheiro e evitar crises monetárias. O dinheiro-signo dos clássicos é irreal, o dinheiro real é mito.
Ou o dinheiro é apenas meio de pagamento e as variações do nível geral de preços não causam problema. Ou o dinheiro afeta o valor de produção e o nível de preços é indeterminado. A inconsistência é resolvida pela existência de um longo prazo invariável onde o dinheiro não tem importância, é apenas signo conveniente para operar uma imensa e complexa economia de trocas. A desmistificação do dinheiro pelos clássicos exigiu a mitificação do longo prazo como destino fixo das variações de curto prazo.
3- O funcionamento do padrão ouro no período anterior a Primeira Grande Guerra.
O padrão ouro funcionou bem no período 1870-1914. O comércio internacional cresceu, as crises monetárias e de balanço de pagamentos foram pouco freqüentes. Na maior parte do período as economias inglesa, francesa, alemã e americana passaram por deflações decorrentes da escassez de dinheiro-mercadoria, afetando o emprego e a produção.
Depois de 1918, entretanto, a tentativa de restabelecer o padrão ouro do período anterior a Guerra resultou em instabilidade financeira, crises de inflação na França, hiperinflação na Alemanha, Polônia, Hungria e Tchecoslováquia. A defesa das taxas de câmbio fixa geraram protecionismo através de tarifas e quotas que restringiram o comércio internacional. O período entre guerras é marcado por crises monetárias e restrições ao comércio internacional.
Kindleberger atribui o bom funcionamento do padrão ouro ao bom gerenciamento monetário e a liderança do Banco da Inglaterra como potência hegemônica. A Grã Bretanha e o Banco da Inglaterra estavam sempre dispostos a aumentar os empréstimos externos para evitar o desequilíbrio do balanço de pagamentos, evitando a saída de ouro e a redução da oferta de meios de pagamentos. Teria funcionado como emprestador de última instância. Kindleberger batizou esta teoria sobre o funcionamento do padrão ouro como teoria da estabilidade hegemônica.
No período entre guerras, as crises que afetaram a estabilidade monetária de tantos paises e geraram ciclos dolorosos de desemprego que culminaram na Grande Recessão de 1930 é atribuída a desobediência as regras do padrão ouro e às desvalorizações cambiais competitivas acompanhadas por protecionismo.
Eichengreeen desafia o argumento. O funcionamento suave do sistema do padrão ouro se baseia em dois pilares: credibilidade e cooperação.
O sistema de padrão ouro funcionou bem por que havia credibilidade no compromisso dos bancos centrais em manter taxa cambial fixa e conversibilidade das moedas nacionais em ouro. Credibilidade é acreditar em alguma coisa sem comprovação ou até que se exija a comprovação.
De acordo com os princípios do padrão ouro, paises com déficit deveriam remeter ouro para o exterior e diminuir a quantidade de dinheiro em circulação. O que provocaria deflação e consequentemente desemprego dado o caráter não plástico dos salários. Paises com superávit no balanço de pagamentos deveriam receber ouro do exterior, ampliar a oferta de meios de pagamentos e passar por inflação.
Enquanto paises com déficits no balanço de pagamentos são obrigados a reduzir a oferta de meios de pagamentos, paises com superávit podem evitar a expansão monetária e a inflação acumulando reservas e evitando a expansão monetária. O ajuste tende a ser assimétrico, exigindo deflação maior do país deficitário porque não é acompanhada de inflação pelos países superavitários.
A política monetária dos bancos centrais inglês, alemão e francês reduzia a amplitude deste tipo de ajuste através da administração das taxas de juros. No caso de déficits menores e temporários, o pai deficitário aumentava as taxas de juros e os paises superavitários reduziam as taxas de juros, através de uma cooperação tácita entre os bancos centrais. No caso de déficits mais severos ou permanentes, havia cooperação explicita entre os bancos centrais que manipulavam as taxas de juros de forma a ampliar a oferta de empréstimos externos para o paií deficitário.
A confiança na manutenção desta política que garantia a conversibilidade e as taxas de câmbio fixa reduzia a necessidade de empréstimos. Pois os capitais privados se dirigiam ràpidamente para os paises deficitários na certeza de que poderiam auferir taxas de juros maiores sem risco de desvalorização cambial ou ameaça de inconversibilidade. A credibilidade no compromisso de manutenção de taxas cambiais fixas promovia um movimento especulativo estabilizador, isto é, que dirigia os fluxos de capitais para o país com déficit de balanço de pagamentos.
Nenhum banco central isolado conseguiria administrar as taxas de juros de forma a reequilibrar o balanço de pagamentos sem a cooperação tácita ou explicita de outros bancos centrais. O Banco da Inglaterra tinha liderança natural sobre os demais bancos centrais, mas não prescindia da cooperação dos outros bancos centrais para alterar taxas de juros e atrair capitais necessários ao reequilibrio do balanço de pagamentos.
A cooperação era possível entre bancos centrais era possível porque as autoridades monetárias dos paises envolvidos compartilhavam do mesmo esquema conceitual e da mesma experiência favorável com o funcionamento do padrão ouro.
A fixação das taxas de juros em função da situação do balanço de pagamentos alterava o nível de emprego e salários diretamente. Entretanto, o trabalho era pouco sindicalizado e não havia consciência política da ligação entre balanço de pagamentos e nível de emprego nacional. O desempregado era chamado de “sem trabalho” nos Estados Unidos, vagabundo, andarilho (“cheminot”) ou destituído nos paises da Europa. O desemprego era problema individual decorrente de falta de energia disciplina ou depressão.
A situação não pode ser exagerada. Havia movimentos sindicais e crise social,mas sempre que o banco central precisasse escolher entre o equilíbrio externo e o emprego doméstico, não precisava hesitar e priorizava o equilibrio externo.
As contas fiscais eram equilibradas e não existiam déficits fiscais. As receitas tributárias eram baseadas principalmente em tarifas aduaneiras e impostos de importação, não havendo impostos sobre a renda ou a propriedade. Não havia conflito sobre a distribuição da carga tributária. A cooperação entre bancos centrais era possível.
Credibilidade e cooperação, portanto, garantiram o funcionamento suave do padrão ouro no período 1870 –1914.
Mas o funcionamento do padrão ouro era diferente do funcionamento previsto pela teoria do padrão ouro. A confiança nos dinheiros nacionais que se baseava na conversibilidade destes dinheiros em ouro era mantida pela política monetária que evitava desequilíbrios e o teste de comprovação, isto é, a conversibilidade do dinheiro em ouro.
O padrão ouro real funcionava suavemente por que todos acreditavam que o padrão ouro teórico era a melhor forma de organizar o sistema monetário. A “crença” fornecia “crédito” para o pais deficitário por parte do país superavitário e cooperação entre os bancos centrais que compartilhavam da mesma fé.
O padrão ouro, isto é, a conversibilidade do dinheiro nacional em ouro, funcionava porque os agentes econômicos acreditavam que a moeda podia ser convertida em ouro e os bancos centrais manipulavam as taxas de juros de forma a evitar que o teste de conversibilidade fosse aplicado.
A administração desta política era possível graças a uma constelação política que garantia equilíbrio fiscal, por um lado e a ignorância social das relações entre este a política monetária e o nível de emprego e salário dos trabalhadores. O padrão ouro é um mito, “uma história que não requer comprovação”, uma crença compartilhada na essência de um dinheiro que não existe.
O regime do padrão ouro não é uma farsa. A essência do regime é administrar a política monetária em função do balanço de pagamentos e é assim que o padrão ouro funcionava. Mas a política monetária era administrada e não automática como propunham os seus defensores. Da mesma forma, o dinheiro era conversível em ouro, mas a conversibilidade era potencial e não real. A política monetária administrava taxas de juros para evitar que o teste de conversibilidade fosse levado ao limite. O nível geral de preços das diversas economias oscilava em função do balanço de pagamentos. Mas a política monetária evitava a amplitude destas variações e seus efeitos sobre a produção e o emprego. Nos mitos, a essência tem precedência sobre a existência.
A Primeira Grande Guerra e destrói os dois eixos que garantiram o sucesso anterior: credibilidade e cooperação.
Os diversos participantes da Primeira Guerra passam a ter desequilíbrios fiscais decorrentes das despesas de guerra e a definição da carga tributária baseada em novos impostos reabre o debate político sobre o financiamento das despesas públicas.
O sindicalismo que se amplia durante a Primeira Guerra por iniciativa dos diferentes governos para controlar a agitação trabalhista durante o conflito, transforma o desemprego em questão política e constrange a ação dos bancos centrais.
A estrutura de endividamento se modifica: os Aliados passam a ser devedores dos Estados Unidos que havia fornecido empréstimos durante a guerra e credores da Alemanha a quem foram impostos os pagamentos de reparação.
Os diferentes bancos centrais europeus e o americano deixam de compartilhar das mesmas estruturas conceituais e estão relacionados por créditos e dívidas que impedem a cooperação. A encenação do padrão ouro não é mais possível.
A credibilidade na manutenção das taxas cambiais fixas e na conversibilidade do dinheiro em ouro fica ameaçada pela questão política interna do desemprego. O mito não é adequado a nova realidade e se transforma em estorvo.
4- A economia mundial após a Primeira Grande Guerra: a impossibilidade de manter a farsa.
A primeira Grande Guerra resulta tanto do expansionismo da Alemanha no Oriente Próximo quanto dos conflitos eslavo-germânicos nos Bálcãs. De um lado estão a Alemanha, o Império Austro-Húngaro, a Turquia, a Bulgária e de outro a França, a Sérvia, o Japão,a Itália, a România e Portugal a quem se juntam mais tarde os Estados Unidos, a Grécia, a China e muitos estados da América do Sul.
Tem início com o assassinato do arquiduque herdeiro do Império Austro Húngaro em Saravejo e termina com a assinatura do Tratado de Versalhes que impõe pesados pagamentos de reparação a Alemanha.. O Tratado de Versalhes é assinado em um vagão de trem estacionado em Versalhes vingando o tratado de paz anterior, assinado entre a Prússia vitoriosa e a França derrotada em 1871. Os pagamentos de reparação fixados pelos Aliados vitoriosos são exorbitantes e dão origem a instabilidade financeira permanente na Alemanha derrotada que passa por dramática crise de hiperinflação em 1923.
O mapa da Europa modifica-se dramaticamente- o Império austro-húngaro desmembra-se em diversos países- Áustria, Hungria, Tchecoslováquia, Sérvia e Montenegro. Os paises derrotados, que pertencem á área de influência do marco alemão, vivem crises de hiperinflação nos anos 20. A França acumula dívidas de guerra com os Estados Unidos e têm créditos vultosos contra a Alemanha gerados pelo Acordo de Versalhes.
O mundo pacificado se reúne sob a Liga das Nações, a nível político e funda o Banco da Basiléia com o objetivo de regular as relações financeiras internacionais. A doutrina econômica proposta é simples: cada país deveria restabelecer as paridades cambiais de antes da Grande Guerra, corrigindo as taxas cambiais pela inflação ocorrida no período. O restabelecimento de taxas cambiais permitiria a reinstituição do padrão ouro, modificado agora pela possibilidade de utilizar em maior escala, moedas conversíveis em ouro como se fossem reservas de ouro. Assim, por exemplo,as reservas em dinheiro austríaco seriam consideradas reservas em ouro se este dinheiro mantivesse política adequada de reservas. O mundo deve recuperar a prosperidade anterior a Grande Guerra reconstruindo o regime monetário anterior.
A correção das taxas cambiais pela inflação supõe que a inflação ou a deflação são fenômenos neutros, isto é, que alteram o valor da moeda mas não alteram os preços relativos. O dinheiro é apenas um véu, meio de pagamento ou de troca, que não muda preços relativos, isto é, que não exerce o papel de unidade de conta. Como o dinheiro não é visto como reserva de valor, isto é, ativo financeiro, o seu preço depende apenas dos preços das mercadorias que pode comprar.
A tentativa de reconstrução do padrão ouro no período entre guerras criou instabilidade monetária em diversos países, protecionismo e redução dos fluxos comerciais, desvalorizações cambiais que culminaram com a crise da Bolsa de Nova York e um longo período de depressão que dura de 1930 até o início da Segunda Guerra em 1939.
Por que o padrão ouro não funcionou suavemente depois da Guerra de 14 e como as crises monetárias do período entre guerras culminaram com a grande depressão de 1930 que se estende até o início da Segunda Guerra Mundial?
A Primeira Guerra Mundial fortaleceu o balanço comercial e o balanço de capitais dos Estados Unidos e enfraqueceu o das outras nações. Os Estados Unidos se tornaram grande exportador de produtos agrícolas e industriais e credor dos países da Europa por conta de despesas da guerra. A América Latina precisava de empréstimos para compensar a queda de preços dos produtos que exportava e apenas os Estados Unidos poderia reciclar os superávits comerciais e os créditos que recebia para financiar estes paises. Se os empréstimos americanos fossem interrompidos, o balanço de pagamentos dos países europeu mantido graças ao fluxo de empréstimos americanos ficaria desequilibrado. Conforme perdessem ouro e reservas em moeda estrangeira a conversibilidade das moedas européias seria ameaçada.
No início, o financiamento do comércio internacional funcionou suavemente com generosos empréstimos americanos. A Alemanha e as novas nações da Europa Oriental receberam empréstimos que permitiram o restabelecimento das taxas cambiais do período anterior a guerra e permitiram combater a hiperinflação. A Inglaterra restabelece a paridade cambial do pré-guerra sem grandes dificuldades.
A política de crédito acomodatícia dos Estados Unidos é mal vista no país, sendo responsabilizada pelo crescimento excessivo dos preços das ações na Bolsa de Nova York. Em 1928 o Federal Reserve adota política monetária restritiva infelizmente coincide com o mesmo movimento restritivo por parte do Banco da França. França e Estados Unidos drenam ouro dos outros países.
Juros americanos crescentes cortam os empréstimos externos e no verão de 28 , os paises da Europa adotam igualmente políticas restritiva para defender a paridade do ouro e os pagamentos das dividas. O serviço da dívida era mantido na expectativa de acesso futuro ao mercado financeiro internacional.
O aumento das taxas de juros acaba por gerar o Crash da Bolsa de Nova York que é seguido por grande depressão nos Estados Unidos e no resto do mundo. O comércio internacional se reduz pela falta de liquidez, pelas medidas contracionistas adotadas para defender as taxas cambiais fixas e a conversibilidade e por medidas protecionistas. O protecionismo agrava o problema dos países da América Latina onde em 1931 muitos paises entram em default. Em 1932, é a vez da Europa Central e em 1933, a Alemanha. A suspensão dos pagamentos de dívida externa acaba por agravar a situação do balanço de pagamentos da Inglaterra que dependia muito destes pagamentos para manter o equilíbrio das contas externas, criando a crise da libra esterlina em 1931.
A grande recessão que se inicia nos Estados Unidos a partir dos anos 30 é um grande mistério. Não há consenso sobre as causas. O aperto da política monetária em 28 e 29 é apenas o deflagrador da crise através da derrubada no preço das ações. A recessão pode ser explicada por desequilíbrios na indústria de automóvel? Ou pelo efeito perda de riqueza que acompanha a desvalorização das ações na Bolsa?
O debate não tem solução. Mas a recessão que se inicia nos Estados Unidos já afetava anteriormente a Europa. As exportações americanas já mostravam sinais de declínio antes da queda da produção industrial que se inicia mais tarde. Por isto, a virada da economia foi tão severa - não havia como desviar a produção do mercado doméstico para o internacional.
Portanto, a depressão não se explica apenas pela política monetária restritiva americana, mas principalmente pelo sistema do padrão ouro que transmitia os efeitos desta política restritiva a todos os países do mundo, gerando medidas contracionistas que ampliavam os efeitos iniciais. Por outro lado, o Federal Reserve não reagiam a melhoria do balanço de pagamentos afrouxando a política monetária enquanto o boom da bolsa continuava. O Fed aumentava as taxas de juros, em vez de diminuí-las.
Nada disto, entretanto é suficiente para explicar por que os demais paises não afrouxavam a política monetária e fiscal. A explicação está na manutenção do regime do padrão ouro: enquanto as taxas cambiais e a conversibilidade eram mantidas, a política fiscal e a monetária tinham que ser restritivas. A Inglaterra tentou adotar políticas expansionistas em 1930, os Estados Unidos em 1931-33, a Bélgica em 34 e a França em 34-35. Todas tiveram que voltar atrás, face à perda de reservas e a ameaça sobre a conversibilidade de suas moedas. Portanto, mesmo os Estados Unidos e a França, paises lideres em termos de reservas de ouro não conseguiam adotar políticas expansionistas enquanto o regime do padrão ouro estivesse em vigor a menos que adotasse políticas expansionistas ao mesmo tempo, o que exigiria cooperação internacional.
Aconteceram encontros internacionais como a Conferencia Econômica de Londres em 1933. Mas questão das dividas de guerra, ainda sem solução, complicavam as negociações. E as autoridades monetárias tinham visões diferentes sobre o problema e a solução. Os franceses temiam a inflação porque haviam passado por inflação de dois dígitos em 1926 e atribuíam a inflação a políticas expansionistas em desobediência as regras do padrão ouro. Os ingleses percebiam a recessão como resultada das altas taxas de juros. Os americanos pensavam como os franceses enquanto Hoover era o presidente, e como os ingleses, quando Franklin Delano Roosevelt assumiu a presidência.
A grande recessão de 1930 iniciou-se, portanto, com a mudança da política monetária americana nos anos 28-30. Mas o que a propagou pelo resto do mundo foi o regime do padrão ouro, isto é, a manutenção de taxas cambiais fixas e conversibilidade das moedas nacionais em ouro.
As falências bancárias levavam a liquidação de depósitos bancários sem que os bancos centrais pudessem fazer empréstimos aos bancos domésticos, pois as defesas da taxa cambial e das reservas impediam políticas expansionistas. Quando os depósitos bancários estrangeiros eram importantes o problema se tornava mais grave. Bancos alemães mantinham depósitos em Viena e bancos austríacos, na Alemanha. Quando os bancos austríacos entram em falência, o efeito se propaga para a Alemanha, mas o Reichsbank não pode oferecer empréstimos de liquidez por que está impedido de fazê-lo pelos acordos da dívida externa e pela obrigação de manter 40% da oferta de meios de pagamento garantida pelo ouro. A crise bancária austríaca se propaga para a Alemanha, Hungria e outros países da Europa Central.
O mesmo tipo de crise ocorre nos Estados Unidos em 33 e na Bélgica em 1934. Dinamarca e Suécia fora do padrão ouro desde 1931 tinham liberdade para agir. O padrão ouro não era garantia mais de estabilidade, mas ao contrário, o maior empecilho para a manutenção da estabilidade.
No período entre guerras, os bancos centrais poderiam manter como reserva equivalente ao ouro, moedas de outros países que fizessem parte do sistema do padrão ouro. Assim, qualquer mudança nas taxas cambiais ou nas regras de conversibilidade de uma moeda afetava imediatamente a posição de reservas de todos os bancos centrais e exigia medidas monetárias restritivas.
A partir do momento em que a política monetária dos Estados Unidos deixa de ter como objetivo o equilíbrio do balanço de pagamentos das economias mais importantes do mundo, o regime do padrão ouro entra em crise.
O padrão ouro pode funcionar suavemente apenas quando a política monetária de todos os paises funcionava harmonicamente tendo como objetivo garantir o equilíbrio do balanço de pagamentos. A elevação dos preços da Bolsa de Nova York é o deflagrador do movimento desarmônico da política monetária americana, o pais mais importante em termos de superávits comerciais e de fluxos de capital. Este é o movimento deflagrador da crise.
A difusão da crise e a sua duração decorrem da tentativa de manutenção do regime quando ele não era mais viável, porque não contava mais com a credibilidade e a cooperação dos paises mais importantes da Europa e dos Estados Unidos.
Os bancos centrais não podiam mais colaborar entre si na administração de taxas de juros. Em parte, por que as tentativas de cooperação explícita eram impossíveis devido a nova estrutura de endividamento entre estes paises e particularmente pela imensa dívida de pagamentos de reparação da Alemanha. Em parte, por que alguns bancos centrais, como o Banco da França estavam impossibilitados, de realizar acordos de cooperação depois que um novo estatuto desenhado para protegê-lo de pressões políticas proibia esta cooperação.
Finalmente, por que compartilhavam de visões conceituais diferentes sobre o problema monetário. Enquanto a França e Alemanha tinham tido experiência dolorosa com a inflação que atribuíam ao abandono do padrão ouro e ao crescimento da oferta de meios de pagamentos, Estados Unidos e Inglaterra , passavam por período de desemprego que atribuíam a restrição de crédito e a manutenção do regime do padrão ouro. A cooperação se tornara impossível.
A tentativa de defender taxas cambiais fixas e conversibilidade na ausência de cooperação e credibilidade nas políticas acabou por gerar medidas protecionistas através de tarifas e desvalorizações cambiais competitivas (a política de “beggar thy neighbor”) que reduziram o comércio internacional agravando ainda mais o desemprego nos diversos países. Foram estas medidas protecionistas e desvalorizações cambiais que inspiraram o diagnóstico freqüente segundo o qual a desobediência ao regime do padrão ouro havia prolongado e difundido a crise de desemprego. Na realidade, estas medidas se tornaram necessárias por causa da insistência em manter o regime de taxas cambiais fixas.
A política monetária também era limitada pela manutenção de taxas cambiais fixas e conversibilidade. A tentativa de acudir bancos insolventes gerava saídas de capital que obrigavam a suspensão do auxílio. Assim, falências bancárias se multiplicavam contraindo a oferta de crédito e de meios de pagamentos. O caso do Credianstalt, o mais famoso, ilustra bem o problema. Em 1931 o banco austríaco enfrenta dificuldades e entra em falência. As autoridades monetárias austríacas não podem auxiliá-lo porque a expansão monetária geraria, imediatamente, fuga de capitais e ameaça de desvalorização cambial. A falência deste banco gera crise monetária na Alemanha já que muitos alemães e bancos alemães tinham depósitos no banco austríaco. A Alemanha, por sua vez, não pode auxiliar os bancos alemães em dificuldades por causa do regime do padrão ouro e por restrições sobre a relação meios de pagamento - reservas em ouro impostas pelos Aliados como parte do acordo de paz de 1918.
A política fiscal, da mesma forma, estava impossibilitada de agir pelas regras de equilíbrio fiscal e pelo próprio regime do padrão ouro. A expansão monetária decorrente de desequilíbrios fiscais ameaçava ainda mais a estabilidade da taxa de câmbio e geraria saídas de ouro do país que experimentasse política fiscal expansionista.
O regime do padrão ouro, definido como um regime de moedas conversíveis em ouro a preços fixos era na realidade um regime de dinheiro fiduciário, isto é, dependente de fiducia, confiança na sua conversibilidade a taxas cambiais fixas. Esta confiança só podia ser mantida através da administração coordenada das taxas de juros que distribuíam crédito para os países com desequilíbrios no balanço de pagamentos, evitando o teste da conversibilidade. Sem crédito coordenado pela cooperação, o teste de confiança mostrou a realidade - as moedas não podiam ser convertidas a taxas fixas entre si e não eram lastreadas em ouro.
Em 1933(?) o presidente Franklin Delano Roosevelt desvaloriza a moeda americana e sai do padrão ouro.
Antes, a Bélgica havia desvalorizado a sua moeda e suspendido a conversibilidade. Ao mesmo tempo, expandiu o crédito interno. A economia doméstica da Bélgica se expandiu com nível geral de preços crescente. A desvalorização não ampliou as exportações porque a taxa cambial não se desvalorizou em termos reais devido a inflação interna.
Na Tchecoslováquia, a desvalorização cambial não foi acompanhada de expansão do crédito interno. As exportações aumentaram assim como as reservas, permitindo a expansão do crédito interno. Produção e emprego cresceram mais lentamente. A Inglaterra ficou entre estes dois casos extremos. A França desvalorizou e cortou credito domestico que neutralizaram beneficio da desvalorização.
Estava determinado o fim do padrão ouro. A expansão foi lenta e as desvalorizações cambiais descoordenadas. O “ethos” do padrão ouro impediu que as autoridades monetárias desvalorizassem ou expandissem o crédito mais ràpidamente, pois os agentes econômicos reagiriam, acostumados com a cultura do padrão ouro, com movimentações de capital ou receio de inflação. A política monetária é condicionada pelas crenças e hábitos da economia sobre as práticas consideradas corretas e as expectativas conceituais decorrentes de cada medida. O “ethos” do padrão ouro é responsável pela lentidão das reações da política monetária e, consequentemente, pela duração maior do desemprego. Ao mesmo tempo em que a economia passava por longa deflação, muitos países evitavam desvalorizar ou ampliar o crédito, com receio da inflação que haviam experimentado em períodos anteriores.
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