300407 Décima Aula- O período de ouro da Teoria Quantiativa da Moeda.
I-Introdução.
A primeira estrofe dos Lusíadas- “As armas e os barões assinalados”- repete o primeira estrofe da Eneida de Virgilio- “arma virumque” ou as “armas e os homens”- escrita mil e quinhentos anos antes. A Eneida conta a história da fundação de Roma, a partir da derrota de Tróia, cantada em verso por Homero mil e quinhentos anos antes.O conflito, a conversa e as controvérsias giram sempre sobre os mesmos temas. Somos prisioneiros de um “tecido de citações”.
A teoria monetária está submetida a mesma sorte. A discussão parece circular, passando sempre pelos mesmos lugares. É espiral - olha os mesmos lugares sob ângulos diferentes que, entretanto, se repetem.
Tomamos como ponto de partida a teoria e política monetária no final do século XIX durante a segunda revolução industrial, na Inglaterra no início do período Vitoriano, quando se consolida o Império Britânico. Poderíamos começar no século XIII e XIV no período da chamada Revolução Comercial quando as cidades do norte da Itália, do norte da Europa e as cidades espanholas se desenvolvem com o comércio de mercadorias trazidas do Oriente distante ou produzidas pelos artesãos destas cidades. Começamos mais tarde porque dinheiro, Estados nacionais e o capitalismo já estão consolidados.
O dinheiro só pode se transformar em mito na sociedade próspera, onde a produção de bens necessários a sobrevivência – saúde, alimentação, habitação e segurança – deixaram de ser a preocupação fundamental. Em economias primitivas ou em economias não capitalistas, o dinheiro não pode ser mito. Os Yanomani não usam dinheiro. Os mitos de sociedades primitivas apaziguam as forças da natureza, confortam o medo do inexplicável e sobrenatural. Não arriscam a própria sobrevivência, trabalhando com imagens que não sejam expressão direta do que precisam para sobreviver. Têm vida material singela e não acumulam dinheiro como representante de consumo ou riqueza futura. Dinheiro é produto de luxo. :
“Estatisticamente, os mitos estão à direita. As palavras dos ricos, [poderosos ou opressores] são multiformes, sutis, dispondo de todos os graus de dignidade. A direita tem a exclusividade da metalinguagem e do mito. O opressor quer conservar a existência sem aparecer. O oprimido não usa senão uma palavra, a da sua emancipação. O oprimido faz o mundo: quem trabalha para sobreviver não pode se dar ao luxo de produzir mitos. As imagens têm que corresponder às coisas diretamente. A linguagem do opressor visa a eternizar o mundo. A do oprimido, a transformá-lo.” .
A origem sagrada e irracional do dinheiro das sociedades primitivas não contradiz esta proposição: o dinheiro daquelas sociedades não organizava a produção, servia apenas para cancelar obrigações sociais, religiosas ou militares. Do ponto de vista material, era usada para medir estoques de bens de primeira necessidade mantidos nos templos. O dinheiro mito, que organiza a vida material da sociedade, só existe após determinado grau de riqueza material e desenvolvimento das instituições financeiras.
O debate em espiral começa com os clássicos, cujas obras mais importantes datam do final do século XVII e século XVIII. Evolui para os neoclássicos que completam e resolvem problemas da teoria dos antecessores. Do final da Grande Guerra em 1918 até 1945, o mundo vive longo período de violência, transformações políticas, crises monetárias e desemprego que se resolve apenas com o inicio da Segunda Guerra. O dinheiro - teoria e política monetárias - é o centro do redemoinho de violência, guerra e crises financeiras que resultam na publicação da Teoria Geral dos Juros do Emprego e da Renda, enquanto a realidade se impõe na prática “keynesiana” aos governos de Franklin Roosevelt, nos Estados Unidos, na política econômica do nazismo e na política de Getulio Vargas no Brasil.
Depois da Segunda Guerra, o movimento espiral continua, com nomes que repetem os do período anterior. A revolução keynesiana é reinterpretada pelos neoclássicos (diferentes dos neoclássicos de antes), por neokeynesianos e por monetaristas (que recuperam o pensamento dos neoclássicos do seculo XIX). Nos últimos vinte anos são substituídos pelos novos clássicos, novos monetaristas e novos keynesianos.
2- A teoria monetária clássica: período dourado da Teoria Quantitativa da Moeda, de 1870 a 1914.
Os clássicos - Mill, Jevons e Bagehot - tratam de todos os temas permanentes da teoria monetária. É possível que os filósofos digam a mesma coisa sobre Sócrates, Platão, Aristóteles e os sofistas. Nas artes e na literatura, a escola clássica procura o equilíbrio, a harmonia e o natural. Clássicos (autores dados em classe) são reescritos pelos leitores de todas as gerações. Podemos nos surpreender com a vida presente em textos tão antigos ou nos desesperar com a monotonia do horizonte.
O personagem da teoria econômica clássica é como as figuras dos quadros e esculturas clássicas um homem tranqüilo, harmônico e dominado pela razão. Trabalha para viver, realiza trocas para obter os bens e serviços necessários a sua sobrevivência. Não se ilude com o dinheiro.
É diferente dos personagens reais da sociedade capitalista. Não se parece nem com os cruéis personagens de Charles Dickens, avaros que exploram crianças, não é um “tycoon” nem um “trader” sentado a frente de várias telas de computador e gritando ordens de compra e venda ao telefone como costumamos imaginar. É mais próximo de um Robinson Crusoe do século XVIII ou de um “hippie” dos anos 70.
A teoria monetária clássica “desenha” um dinheiro que é signo e não mito, ou seja, um dinheiro onde o significante, o valor, não distorce o significado.
O dinheiro é uma medida de valor. Poderia ter qualquer valor, mas tem que ter um valor só. O dinheiro é uma mercadoria – o ouro. A quantidade de ouro é limitada, o ouro é durável e pode ser dividido em unidades de qualquer tamanho. É homogêneo, impessoal e anônimo. E principalmente, natural.
O preço do ouro é igual ao custo marginal de extração. O preço do dinheiro, isto é, o preço médio de todas as coisas expressas em dinheiro é igual ao preço do ouro. Não pode ser manipulado pelo governo de quem os clássicos e liberais desconfiam. Não pode ser politizado. O dinheiro é ouro e o seu valor, natural.
A quantidade de moeda em circulação é determinada pelas entradas e saídas de ouro no país. O país que exporta mais do que importa, recebe ouro pela diferença, aumenta a quantidade de meios de pagamento. O aumento de oferta de meios de pagamentos aumenta o nível geral de preços. Com taxas de câmbio fixas, o preço dos produtos exportáveis e importáveis fica relativamente menor, o país exporta menos e importa mais, e o equilíbrio do balanço comercial se restabelece.
Dinheiro serve apenas como meio de pagamento que facilita as trocas, “viabiliza o funcionamento de uma gigantesca economia de trocas” . Dinheiro não é unidade de conta -- os preços são preços relativos, um cafezinho custa um pão com manteiga. O significado não é o valor, mas o valor relativo. O dinheiro não muda preços relativos nem a teoria do valor - os preços são determinados no mercado pelo custo marginal de longo prazo de cada mercadoria. O valor do ouro não modifica os preços relativos - um cafezinho pode custar uma libra ou cem libras de ouro, mas custará sempre a mesma coisa que um pão com manteiga. O dinheiro é um signo - o significado não altera o significante. Não é mito.
O sistema financeiro multiplica as expressões do dinheiro - depósitos, notas bancárias lastreadas em ouro e notas bancários representando apenas crédito fiduciário, sem lastro em ouro. Bancos recebem ouro em depósito e emitem notas bancárias. Nota bancária é dinheiro? Os bancos fazem empréstimos e recebem depósitos. Depósito é dinheiro? Bancos emitem notas bancárias sem o correspondente depósito em ouro. As notas bancárias são dinheiro? O que é o dinheiro - apenas a moeda metálica ou a moeda metálica e outros significantes?
O desenvolvimento do sistema bancário modifica a teoria: no longo prazo, o nível de preços é igual ao custo marginal de produção de ouro. No curto prazo, o nível de preços é dado pela teoria quantitativa da moeda, ou seja, pela proporção entre a quantidade de dinheiro, (igual a quantidade de notas bancárias com lastro em ouro e depósitos a vista) e a quantidade de mercadorias produzidas. No curto prazo, a quantidade de dinheiro em circulação pode ser maior ou menor do que a quantidade de ouro. O nível geral de preços é determinado pela oferta de bens relativamente a demanda. A quantidade de dinheiro em circulação é um estoque (quantidade existente em determinado período de tempo). A quantidade de mercadorias produzidas é um variável fluxo, produção por ano. Se existem 100 moedas de ouro que valem um libra cada, ou seja, 100 libras, em circulação e se a produção nacional é de 1000 libras por ano, o dinheiro circulou, mudou de mãos 10 vezes por ano entre pagamentos e recebimentos.
A velocidade renda de circulação da moeda não é necessàriamente constante. Depende de hábitos de pagamento (mensal, semanal, anual), grau de integração das empresas e outras variáveis que por sua vez são constantes no curto prazo. Pode circular mais ou menos ràpidamente e causar variações de preços. “Coeteris paribus”, isto é, mantidas constantes as variáveis que determinam a velocidade renda de circulação da moeda, o nível de preços é determinado no curto prazo, pela quantidade de dinheiro em circulação. No longo prazo, pelo custo marginal de extração do ouro.
Como controlar a quantidade de dinheiro em circulação ainda que o dinheiro fosse mercadoria como outra qualquer?
O dinheiro projetado pela teoria clássica é sistema de significantes neutros que não modificam a realidade em que são aplicados. Como a língua sonhada pelos positivistas que dá um nome para cada coisa que existe e abomina a metafísica que fala de coisas que não existem. Cada coisa tem um preço que se expressa por dinheiro, mas o preço de cada coisa não é modificado pela forma em que são expressos em dinheiro. Exerce somente a função de meio de pagamento, não é nem unidade de conta nem reserva de valor.
O personagem da teoria clássica não trabalha para ganhar dinheiro. Trabalha para obter mercadorias que atendem as necessidades reais. A produção de mercadorias é idêntica a demanda de mercadorias, ou, nos termos da Lei de Say, a oferta cria sua própria demanda. Quem produziu, produziu para vender e comprar bens e serviços. A soma dos lucros, salários, juros e aluguéis é exatamente igual a soma das despesas de consumo e de investimento. Quem não consumiu, emprestou dinheiro para quem consumiu mais do que ganhou ou investiu. A demanda por bens de serviços é igual a oferta de bens e serviços. O homus oeconomicus clássico não guarda dinheiro como reserva de valor.
A taxa de juros resulta do retorno dos capitais investidos e da poupança, da disposição em não consumir. Se investimentos produzem altas taxas de retorno, a taxa de juros é alta. Se existe pressa em consumir e pouca poupança, a taxa de juros é alta. A taxa de juros é fenômeno real. O dinheiro não altera as taxas de juros.
Ciclos são períodos de variação positiva ou negativa do nível geral de preços causada por descobertas importantes de ouro (Lago Vitória na África e São Francisco nos Estados Unidos).
Dinheiros de diferentes países deviam ser trocados a taxa fixa, dada pela quantidade de ouro existente em cada moeda. Consequentemente, a quantidade de dinheiro em circulação depende do balanço de pagamentos. Superávits comerciais, exportações maiores do que importações aumentam a quantidade de ouro e de dinheiro em circulação. Os ciclos de variação de preços não são acompanhados sincronicamente pela variação dos salários, criando lucros excepcionais quando os preços subiam mais rapidamente que os salários e prejuízos quando caiam. Como conciliar o caráter neutro do dinheiro, que é apenas meio de pagamento e não unidade de contas com a realidade dos salários lentos para se ajustar? A variação do nível geral de preços não deveria afetar a economia se o dinheiro é signo e usado apenas como meio de pagamentos.
Novamente, o tempo resolve a inconsistência: no curto prazo, os preços nominais podem se afastar dos preços relativos. No longo prazo tendem a voltar. O longo prazo é um destino fixo como o nível médio do mar. A tempestade levanta e afunda a proa do navio em ondas gigantescas, mas quando acalma, retorna ao nível médio do mar.
O longo prazo parece ser o dia em que se “encerram” todas as atividades de troca e todo o dinheiro é redimido, trocado por ouro ou mercadorias. Este dia determina o funcionamento da economia no curto prazo, quando pode haver desvios - a quantidade de dinheiro pode ser maior do que a quantidade de ouro e os salários podem ser modificados pela oscilação no preço da moeda.
Os neoclássicos (Marshall, Fisher e Wicksell) de antes da I Grande Guerra completam e resolvem as inconsistências da teoria clássica.
O preço do ouro é determinado pela demanda de dinheiro. O estoque de ouro existente é grande relativamente à quantidade de ouro novo extraído das minas todos os anos. O preço do ouro só é alterado marginalmente pela descoberta de novas jazidas. Depende mais da demanda de dinheiro do que dos custos de extração. A utilização do ouro como dinheiro aumenta a demanda e o preço do ouro. É a demanda de dinheiro que determina o preço do ouro e não o preço do ouro que determina o preço do dinheiro. O preço da forma (do ouro) é determinado pelo seu sentido (o valor) que procurava um preço natural para si mesmo O nível geral de preços é determinado pela quantidade de dinheiro em circulação tanto no curto quanto no longo prazo
A quantidade de dinheiro não é “natural”. Precisa ser controlada pelo Banco Central. O sistema bancário precisa ser regulado. Para os economistas da Banking School dinheiro deveria ser o crédito criado pelos bancos e não precisava ser conversível em ouro. A quantidade de dinheiro reagia passivamente à demanda. A Currency School defendia a conversibilidade e o controle da emissão de dinheiro. A Currency School é vencedora - o Banco da Inglaterra foi dividido em banco emissor onde as reservas de ouro estariam concentradas e banco comercial, operando como banco comercial comum. Os Country Banks, bancos localizados fora do centro financeiro da City perdem o direito de emissão.
O dinheiro defendido pela Banking School é um dinheiro lastreado em empréstimos utilizados para produzir ou comercializar mercadorias. A quantidade de dinheiro, neste caso, é determinada pelo estado geral dos negócios e pelo nível de produção. O dinheiro proposto pela Currency School é estritamente ligado a quantidade de ouro existente nas reservas bancárias. A quantidade é limitada pela situação do balanço de pagamentos. Paradoxalmente, o dinheiro da Currency School é mito, papel conversível em ouro que tem “valor” enquanto o da Banking School, signo, papel que só tem valor se os créditos concedidos forem bons e pagos.
A necessidade de um “freio” ou de uma “ancora” que fixe o valor do dinheiro, exatamente o que não parece contemplado pela Banking School foi discutida por Wiksell. O equilíbrio do nível geral de preços é indeterminado quando o valor da moeda é dado pelo valor dos bens que a economia produz, pois quando se considera a economia como um agregado, o aumento dos custos das empresas, isto é, aumento de salários representa também um aumento de receitas. Para a economia como um todo o que é custo das empresas, é renda das famílias. Se aumentarem os salários, aumenta a renda das famílias, aumenta a demanda por mercadorias e os preços podem aumentar novamente. O equilíbrio do nível geral de preços, isto é, do preço do dinheiro, é indeterminado como é indeterminado o ponto de equilíbrio de um cilindro que tenha um movimento retilíneo e uniforme sobre uma superfície sem atrito. Para que o “cilindro” chegue a um estado de imobilidade é preciso que haja alguma força, a âncora, que desacelere o movimento até que a velocidade seja nula.
Wicksell apresenta dois modelos de fixação do nível geral de preços. Numa economia que trabalha apenas com moeda (pure cash economy),como proposto pela Currency School, o nível geral de preços é determinado pela quantidade de dinheiro em circulação. Se os empresários decidirem comprar matérias primas e contratar mão de obra e matérias primas em quantidade maior do que a disponível excesso a capacidade da economia, os preços sobem, falta dinheiro e o nível de atividade tem que se reduzir. O nível geral de preços é determinado pela quantidade de dinheiro em circulação.
Na economia que trabalha apenas com crédito, com proposto pela Banking School, a oferta e a demanda total de crédito dependem da taxa de juros. Existe uma taxa de juros “natural” que faz com que a quantidade de crédito seja proporcional à quantidade de produção anual e o nível geral de preços entra em equilíbrio. Juros abaixo da taxa natural criam excesso de crédito e pressão para que o nível geral de preços suba. Juros acima da taxa natural, ao contrário, diminuem o montante de crédito em circulação e o nível geral de preços cai. A teoria neoclássica começa a modificar a taxa de juros. A taxa de juros “natural” é determinada pela poupança e pelo investimento. A taxa de juros de mercado pode no curto prazo, ser diferente da taxa de juros natural.
Dinheiro serve apenas como meio de pagamento ou meio de troca. Preços relativos não são afetados pela quantidade maior ou menor de moeda ou de crédito. Fisher propõe a distinção entre taxa de juros nominal, que inclui a expectativa de inflação e taxas de juros reais, que descontam a variação esperada do nível geral de preços. O mundo real de preços relativos não é afetado pelo mundo aparente de preços nominais.
Os neoclássicos propõem um método tabular para calcular o valor do dinheiro que serve como unidade de conta. O método tabular consiste na indexação dos preços contratados ao nível geral de preços.
No curto prazo, os ciclos de preços afetam a economia, pois os salários são pouco “plásticos” usando a linguagem da época, ou nominalmente rígidos, como falamos atualmente. O desemprego não existe como conceito social e político. Mas preços caindo e subindo geram lucros e prejuízos excepcionais que, entretanto, só duram no curto prazo. Por que os salários são rígidos?
Curto e longo prazo continuam representando o mesmo problema que representavam para os clássicos. O longo prazo é o destino inexorável de diferentes curtos prazos ou o destino desenhado pela sucessão de curtos prazos?
Clássicos e neoclássicos “projetam” um dinheiro que é apenas meio de pagamentos e não unidade de contas ou reserva de valor. Desenham um dinheiro que é signo e não mito. Ao postular que o dinheiro é apenas véu- meio de pagamento- estão reagindo a transformação do signo em mito que resulta do desenvolvimento da indústria, das relações comerciais da Inglaterra com todo o mundo e com o desenvolvimento do mercado financeiro e bancário.
O dinheiro que movimenta a economia inglesa e européia é realmente um mito, a revelia do desejo dos clássicos e neoclássicos - os ciclos de preços afetam a atividade econômica por que os salários são rígidos. Se o dinheiro é apenas meio de pagamento, porque os salários não são plásticos? Ignorância dos trabalhadores, ilusão monetária? Apenas os trabalhadores são vítimas do dinheiro como mito? O dinheiro é um mito da cultura de massas?
O sistema bancário precisa ser regulado para evitar expansão exagerada da oferta de dinheiro e o Banco da Inglaterra precisa redescontar e dar liquidez aos bancos para evitar crises monetárias. Bagehot expressa a regra de ouro do banco central –“é preciso descontar, sempre descontar” para garantir a conversibilidade do dinheiro e evitar crises monetárias. O dinheiro-signo dos clássicos é irreal, o dinheiro real é mito.
Ou o dinheiro é apenas meio de pagamento e as variações do nível geral de preços não causam problema. Ou o dinheiro afeta o valor de produção e o nível de preços é indeterminado. A inconsistência é resolvida pela existência de um longo prazo invariável onde o dinheiro não tem importância, é apenas signo conveniente para operar uma imensa e complexa economia de trocas. A desmistificação do dinheiro pelos clássicos exigiu a mitificação do longo prazo como destino fixo das variações de curto prazo.
3- O funcionamento do padrão ouro no período anterior a Primeira Grande Guerra.
O padrão ouro funcionou bem no período 1870-1914. O comércio internacional cresceu, as crises monetárias e de balanço de pagamentos foram pouco freqüentes. Na maior parte do período as economias inglesa, francesa, alemã e americana passaram por deflações decorrentes da escassez de dinheiro-mercadoria, afetando o emprego e a produção.
Depois de 1918, entretanto, a tentativa de restabelecer o padrão ouro do período anterior a Guerra resultou em instabilidade financeira, crises de inflação na França, hiperinflação na Alemanha, Polônia, Hungria e Tchecoslováquia. A defesa das taxas de câmbio fixa geraram protecionismo através de tarifas e quotas que restringiram o comércio internacional. O período entre guerras é marcado por crises monetárias e restrições ao comércio internacional.
Kindleberger atribui o bom funcionamento do padrão ouro ao bom gerenciamento monetário e a liderança do Banco da Inglaterra como potência hegemônica. A Grã Bretanha e o Banco da Inglaterra estavam sempre dispostos a aumentar os empréstimos externos para evitar o desequilíbrio do balanço de pagamentos, evitando a saída de ouro e a redução da oferta de meios de pagamentos. Teria funcionado como emprestador de última instância. Kindleberger batizou esta teoria sobre o funcionamento do padrão ouro como teoria da estabilidade hegemônica.
No período entre guerras, as crises que afetaram a estabilidade monetária de tantos paises e geraram ciclos dolorosos de desemprego que culminaram na Grande Recessão de 1930 é atribuída a desobediência as regras do padrão ouro e às desvalorizações cambiais competitivas acompanhadas por protecionismo.
Eichengreeen desafia o argumento. O funcionamento suave do sistema do padrão ouro se baseia em dois pilares: credibilidade e cooperação.
O sistema de padrão ouro funcionou bem por que havia credibilidade no compromisso dos bancos centrais em manter taxa cambial fixa e conversibilidade das moedas nacionais em ouro. Credibilidade é acreditar em alguma coisa sem comprovação ou até que se exija a comprovação.
De acordo com os princípios do padrão ouro, paises com déficit deveriam remeter ouro para o exterior e diminuir a quantidade de dinheiro em circulação. O que provocaria deflação e consequentemente desemprego dado o caráter não plástico dos salários. Paises com superávit no balanço de pagamentos deveriam receber ouro do exterior, ampliar a oferta de meios de pagamentos e passar por inflação.
Enquanto paises com déficits no balanço de pagamentos são obrigados a reduzir a oferta de meios de pagamentos, paises com superávit podem evitar a expansão monetária e a inflação acumulando reservas e evitando a expansão monetária. O ajuste tende a ser assimétrico, exigindo deflação maior do país deficitário porque não é acompanhada de inflação pelos países superavitários.
A política monetária dos bancos centrais inglês, alemão e francês reduzia a amplitude deste tipo de ajuste através da administração das taxas de juros. No caso de déficits menores e temporários, o pai deficitário aumentava as taxas de juros e os paises superavitários reduziam as taxas de juros, através de uma cooperação tácita entre os bancos centrais. No caso de déficits mais severos ou permanentes, havia cooperação explicita entre os bancos centrais que manipulavam as taxas de juros de forma a ampliar a oferta de empréstimos externos para o paií deficitário.
A confiança na manutenção desta política que garantia a conversibilidade e as taxas de câmbio fixa reduzia a necessidade de empréstimos. Pois os capitais privados se dirigiam ràpidamente para os paises deficitários na certeza de que poderiam auferir taxas de juros maiores sem risco de desvalorização cambial ou ameaça de inconversibilidade. A credibilidade no compromisso de manutenção de taxas cambiais fixas promovia um movimento especulativo estabilizador, isto é, que dirigia os fluxos de capitais para o país com déficit de balanço de pagamentos.
Nenhum banco central isolado conseguiria administrar as taxas de juros de forma a reequilibrar o balanço de pagamentos sem a cooperação tácita ou explicita de outros bancos centrais. O Banco da Inglaterra tinha liderança natural sobre os demais bancos centrais, mas não prescindia da cooperação dos outros bancos centrais para alterar taxas de juros e atrair capitais necessários ao reequilibrio do balanço de pagamentos.
A cooperação era possível entre bancos centrais era possível porque as autoridades monetárias dos paises envolvidos compartilhavam do mesmo esquema conceitual e da mesma experiência favorável com o funcionamento do padrão ouro.
A fixação das taxas de juros em função da situação do balanço de pagamentos alterava o nível de emprego e salários diretamente. Entretanto, o trabalho era pouco sindicalizado e não havia consciência política da ligação entre balanço de pagamentos e nível de emprego nacional. O desempregado era chamado de “sem trabalho” nos Estados Unidos, vagabundo, andarilho (“cheminot”) ou destituído nos paises da Europa. O desemprego era problema individual decorrente de falta de energia disciplina ou depressão.
A situação não pode ser exagerada. Havia movimentos sindicais e crise social,mas sempre que o banco central precisasse escolher entre o equilíbrio externo e o emprego doméstico, não precisava hesitar e priorizava o equilibrio externo.
As contas fiscais eram equilibradas e não existiam déficits fiscais. As receitas tributárias eram baseadas principalmente em tarifas aduaneiras e impostos de importação, não havendo impostos sobre a renda ou a propriedade. Não havia conflito sobre a distribuição da carga tributária. A cooperação entre bancos centrais era possível.
Credibilidade e cooperação, portanto, garantiram o funcionamento suave do padrão ouro no período 1870 –1914.
Mas o funcionamento do padrão ouro era diferente do funcionamento previsto pela teoria do padrão ouro. A confiança nos dinheiros nacionais que se baseava na conversibilidade destes dinheiros em ouro era mantida pela política monetária que evitava desequilíbrios e o teste de comprovação, isto é, a conversibilidade do dinheiro em ouro.
O padrão ouro real funcionava suavemente por que todos acreditavam que o padrão ouro teórico era a melhor forma de organizar o sistema monetário. A “crença” fornecia “crédito” para o pais deficitário por parte do país superavitário e cooperação entre os bancos centrais que compartilhavam da mesma fé.
O padrão ouro, isto é, a conversibilidade do dinheiro nacional em ouro, funcionava porque os agentes econômicos acreditavam que a moeda podia ser convertida em ouro e os bancos centrais manipulavam as taxas de juros de forma a evitar que o teste de conversibilidade fosse aplicado.
A administração desta política era possível graças a uma constelação política que garantia equilíbrio fiscal, por um lado e a ignorância social das relações entre este a política monetária e o nível de emprego e salário dos trabalhadores. O padrão ouro é um mito, “uma história que não requer comprovação”, uma crença compartilhada na essência de um dinheiro que não existe.
O regime do padrão ouro não é uma farsa. A essência do regime é administrar a política monetária em função do balanço de pagamentos e é assim que o padrão ouro funcionava. Mas a política monetária era administrada e não automática como propunham os seus defensores. Da mesma forma, o dinheiro era conversível em ouro, mas a conversibilidade era potencial e não real. A política monetária administrava taxas de juros para evitar que o teste de conversibilidade fosse levado ao limite. O nível geral de preços das diversas economias oscilava em função do balanço de pagamentos. Mas a política monetária evitava a amplitude destas variações e seus efeitos sobre a produção e o emprego. Nos mitos, a essência tem precedência sobre a existência.
A Primeira Grande Guerra e destrói os dois eixos que garantiram o sucesso anterior: credibilidade e cooperação.
Os diversos participantes da Primeira Guerra passam a ter desequilíbrios fiscais decorrentes das despesas de guerra e a definição da carga tributária baseada em novos impostos reabre o debate político sobre o financiamento das despesas públicas.
O sindicalismo que se amplia durante a Primeira Guerra por iniciativa dos diferentes governos para controlar a agitação trabalhista durante o conflito, transforma o desemprego em questão política e constrange a ação dos bancos centrais.
A estrutura de endividamento se modifica: os Aliados passam a ser devedores dos Estados Unidos que havia fornecido empréstimos durante a guerra e credores da Alemanha a quem foram impostos os pagamentos de reparação.
Os diferentes bancos centrais europeus e o americano deixam de compartilhar das mesmas estruturas conceituais e estão relacionados por créditos e dívidas que impedem a cooperação. A encenação do padrão ouro não é mais possível.
A credibilidade na manutenção das taxas cambiais fixas e na conversibilidade do dinheiro em ouro fica ameaçada pela questão política interna do desemprego. O mito não é adequado a nova realidade e se transforma em estorvo.
4- A economia mundial após a Primeira Grande Guerra: a impossibilidade de manter a farsa.
A primeira Grande Guerra resulta tanto do expansionismo da Alemanha no Oriente Próximo quanto dos conflitos eslavo-germânicos nos Bálcãs. De um lado estão a Alemanha, o Império Austro-Húngaro, a Turquia, a Bulgária e de outro a França, a Sérvia, o Japão,a Itália, a România e Portugal a quem se juntam mais tarde os Estados Unidos, a Grécia, a China e muitos estados da América do Sul.
Tem início com o assassinato do arquiduque herdeiro do Império Austro Húngaro em Saravejo e termina com a assinatura do Tratado de Versalhes que impõe pesados pagamentos de reparação a Alemanha.. O Tratado de Versalhes é assinado em um vagão de trem estacionado em Versalhes vingando o tratado de paz anterior, assinado entre a Prússia vitoriosa e a França derrotada em 1871. Os pagamentos de reparação fixados pelos Aliados vitoriosos são exorbitantes e dão origem a instabilidade financeira permanente na Alemanha derrotada que passa por dramática crise de hiperinflação em 1923.
O mapa da Europa modifica-se dramaticamente- o Império austro-húngaro desmembra-se em diversos países- Áustria, Hungria, Tchecoslováquia, Sérvia e Montenegro. Os paises derrotados, que pertencem á área de influência do marco alemão, vivem crises de hiperinflação nos anos 20. A França acumula dívidas de guerra com os Estados Unidos e têm créditos vultosos contra a Alemanha gerados pelo Acordo de Versalhes.
O mundo pacificado se reúne sob a Liga das Nações, a nível político e funda o Banco da Basiléia com o objetivo de regular as relações financeiras internacionais. A doutrina econômica proposta é simples: cada país deveria restabelecer as paridades cambiais de antes da Grande Guerra, corrigindo as taxas cambiais pela inflação ocorrida no período. O restabelecimento de taxas cambiais permitiria a reinstituição do padrão ouro, modificado agora pela possibilidade de utilizar em maior escala, moedas conversíveis em ouro como se fossem reservas de ouro. Assim, por exemplo,as reservas em dinheiro austríaco seriam consideradas reservas em ouro se este dinheiro mantivesse política adequada de reservas. O mundo deve recuperar a prosperidade anterior a Grande Guerra reconstruindo o regime monetário anterior.
A correção das taxas cambiais pela inflação supõe que a inflação ou a deflação são fenômenos neutros, isto é, que alteram o valor da moeda mas não alteram os preços relativos. O dinheiro é apenas um véu, meio de pagamento ou de troca, que não muda preços relativos, isto é, que não exerce o papel de unidade de conta. Como o dinheiro não é visto como reserva de valor, isto é, ativo financeiro, o seu preço depende apenas dos preços das mercadorias que pode comprar.
A tentativa de reconstrução do padrão ouro no período entre guerras criou instabilidade monetária em diversos países, protecionismo e redução dos fluxos comerciais, desvalorizações cambiais que culminaram com a crise da Bolsa de Nova York e um longo período de depressão que dura de 1930 até o início da Segunda Guerra em 1939.
Por que o padrão ouro não funcionou suavemente depois da Guerra de 14 e como as crises monetárias do período entre guerras culminaram com a grande depressão de 1930 que se estende até o início da Segunda Guerra Mundial?
A Primeira Guerra Mundial fortaleceu o balanço comercial e o balanço de capitais dos Estados Unidos e enfraqueceu o das outras nações. Os Estados Unidos se tornaram grande exportador de produtos agrícolas e industriais e credor dos países da Europa por conta de despesas da guerra. A América Latina precisava de empréstimos para compensar a queda de preços dos produtos que exportava e apenas os Estados Unidos poderia reciclar os superávits comerciais e os créditos que recebia para financiar estes paises. Se os empréstimos americanos fossem interrompidos, o balanço de pagamentos dos países europeu mantido graças ao fluxo de empréstimos americanos ficaria desequilibrado. Conforme perdessem ouro e reservas em moeda estrangeira a conversibilidade das moedas européias seria ameaçada.
No início, o financiamento do comércio internacional funcionou suavemente com generosos empréstimos americanos. A Alemanha e as novas nações da Europa Oriental receberam empréstimos que permitiram o restabelecimento das taxas cambiais do período anterior a guerra e permitiram combater a hiperinflação. A Inglaterra restabelece a paridade cambial do pré-guerra sem grandes dificuldades.
A política de crédito acomodatícia dos Estados Unidos é mal vista no país, sendo responsabilizada pelo crescimento excessivo dos preços das ações na Bolsa de Nova York. Em 1928 o Federal Reserve adota política monetária restritiva infelizmente coincide com o mesmo movimento restritivo por parte do Banco da França. França e Estados Unidos drenam ouro dos outros países.
Juros americanos crescentes cortam os empréstimos externos e no verão de 28 , os paises da Europa adotam igualmente políticas restritiva para defender a paridade do ouro e os pagamentos das dividas. O serviço da dívida era mantido na expectativa de acesso futuro ao mercado financeiro internacional.
O aumento das taxas de juros acaba por gerar o Crash da Bolsa de Nova York que é seguido por grande depressão nos Estados Unidos e no resto do mundo. O comércio internacional se reduz pela falta de liquidez, pelas medidas contracionistas adotadas para defender as taxas cambiais fixas e a conversibilidade e por medidas protecionistas. O protecionismo agrava o problema dos países da América Latina onde em 1931 muitos paises entram em default. Em 1932, é a vez da Europa Central e em 1933, a Alemanha. A suspensão dos pagamentos de dívida externa acaba por agravar a situação do balanço de pagamentos da Inglaterra que dependia muito destes pagamentos para manter o equilíbrio das contas externas, criando a crise da libra esterlina em 1931.
A grande recessão que se inicia nos Estados Unidos a partir dos anos 30 é um grande mistério. Não há consenso sobre as causas. O aperto da política monetária em 28 e 29 é apenas o deflagrador da crise através da derrubada no preço das ações. A recessão pode ser explicada por desequilíbrios na indústria de automóvel? Ou pelo efeito perda de riqueza que acompanha a desvalorização das ações na Bolsa?
O debate não tem solução. Mas a recessão que se inicia nos Estados Unidos já afetava anteriormente a Europa. As exportações americanas já mostravam sinais de declínio antes da queda da produção industrial que se inicia mais tarde. Por isto, a virada da economia foi tão severa - não havia como desviar a produção do mercado doméstico para o internacional.
Portanto, a depressão não se explica apenas pela política monetária restritiva americana, mas principalmente pelo sistema do padrão ouro que transmitia os efeitos desta política restritiva a todos os países do mundo, gerando medidas contracionistas que ampliavam os efeitos iniciais. Por outro lado, o Federal Reserve não reagiam a melhoria do balanço de pagamentos afrouxando a política monetária enquanto o boom da bolsa continuava. O Fed aumentava as taxas de juros, em vez de diminuí-las.
Nada disto, entretanto é suficiente para explicar por que os demais paises não afrouxavam a política monetária e fiscal. A explicação está na manutenção do regime do padrão ouro: enquanto as taxas cambiais e a conversibilidade eram mantidas, a política fiscal e a monetária tinham que ser restritivas. A Inglaterra tentou adotar políticas expansionistas em 1930, os Estados Unidos em 1931-33, a Bélgica em 34 e a França em 34-35. Todas tiveram que voltar atrás, face à perda de reservas e a ameaça sobre a conversibilidade de suas moedas. Portanto, mesmo os Estados Unidos e a França, paises lideres em termos de reservas de ouro não conseguiam adotar políticas expansionistas enquanto o regime do padrão ouro estivesse em vigor a menos que adotasse políticas expansionistas ao mesmo tempo, o que exigiria cooperação internacional.
Aconteceram encontros internacionais como a Conferencia Econômica de Londres em 1933. Mas questão das dividas de guerra, ainda sem solução, complicavam as negociações. E as autoridades monetárias tinham visões diferentes sobre o problema e a solução. Os franceses temiam a inflação porque haviam passado por inflação de dois dígitos em 1926 e atribuíam a inflação a políticas expansionistas em desobediência as regras do padrão ouro. Os ingleses percebiam a recessão como resultada das altas taxas de juros. Os americanos pensavam como os franceses enquanto Hoover era o presidente, e como os ingleses, quando Franklin Delano Roosevelt assumiu a presidência.
A grande recessão de 1930 iniciou-se, portanto, com a mudança da política monetária americana nos anos 28-30. Mas o que a propagou pelo resto do mundo foi o regime do padrão ouro, isto é, a manutenção de taxas cambiais fixas e conversibilidade das moedas nacionais em ouro.
As falências bancárias levavam a liquidação de depósitos bancários sem que os bancos centrais pudessem fazer empréstimos aos bancos domésticos, pois as defesas da taxa cambial e das reservas impediam políticas expansionistas. Quando os depósitos bancários estrangeiros eram importantes o problema se tornava mais grave. Bancos alemães mantinham depósitos em Viena e bancos austríacos, na Alemanha. Quando os bancos austríacos entram em falência, o efeito se propaga para a Alemanha, mas o Reichsbank não pode oferecer empréstimos de liquidez por que está impedido de fazê-lo pelos acordos da dívida externa e pela obrigação de manter 40% da oferta de meios de pagamento garantida pelo ouro. A crise bancária austríaca se propaga para a Alemanha, Hungria e outros países da Europa Central.
O mesmo tipo de crise ocorre nos Estados Unidos em 33 e na Bélgica em 1934. Dinamarca e Suécia fora do padrão ouro desde 1931 tinham liberdade para agir. O padrão ouro não era garantia mais de estabilidade, mas ao contrário, o maior empecilho para a manutenção da estabilidade.
No período entre guerras, os bancos centrais poderiam manter como reserva equivalente ao ouro, moedas de outros países que fizessem parte do sistema do padrão ouro. Assim, qualquer mudança nas taxas cambiais ou nas regras de conversibilidade de uma moeda afetava imediatamente a posição de reservas de todos os bancos centrais e exigia medidas monetárias restritivas.
A partir do momento em que a política monetária dos Estados Unidos deixa de ter como objetivo o equilíbrio do balanço de pagamentos das economias mais importantes do mundo, o regime do padrão ouro entra em crise.
O padrão ouro pode funcionar suavemente apenas quando a política monetária de todos os paises funcionava harmonicamente tendo como objetivo garantir o equilíbrio do balanço de pagamentos. A elevação dos preços da Bolsa de Nova York é o deflagrador do movimento desarmônico da política monetária americana, o pais mais importante em termos de superávits comerciais e de fluxos de capital. Este é o movimento deflagrador da crise.
A difusão da crise e a sua duração decorrem da tentativa de manutenção do regime quando ele não era mais viável, porque não contava mais com a credibilidade e a cooperação dos paises mais importantes da Europa e dos Estados Unidos.
Os bancos centrais não podiam mais colaborar entre si na administração de taxas de juros. Em parte, por que as tentativas de cooperação explícita eram impossíveis devido a nova estrutura de endividamento entre estes paises e particularmente pela imensa dívida de pagamentos de reparação da Alemanha. Em parte, por que alguns bancos centrais, como o Banco da França estavam impossibilitados, de realizar acordos de cooperação depois que um novo estatuto desenhado para protegê-lo de pressões políticas proibia esta cooperação.
Finalmente, por que compartilhavam de visões conceituais diferentes sobre o problema monetário. Enquanto a França e Alemanha tinham tido experiência dolorosa com a inflação que atribuíam ao abandono do padrão ouro e ao crescimento da oferta de meios de pagamentos, Estados Unidos e Inglaterra , passavam por período de desemprego que atribuíam a restrição de crédito e a manutenção do regime do padrão ouro. A cooperação se tornara impossível.
A tentativa de defender taxas cambiais fixas e conversibilidade na ausência de cooperação e credibilidade nas políticas acabou por gerar medidas protecionistas através de tarifas e desvalorizações cambiais competitivas (a política de “beggar thy neighbor”) que reduziram o comércio internacional agravando ainda mais o desemprego nos diversos países. Foram estas medidas protecionistas e desvalorizações cambiais que inspiraram o diagnóstico freqüente segundo o qual a desobediência ao regime do padrão ouro havia prolongado e difundido a crise de desemprego. Na realidade, estas medidas se tornaram necessárias por causa da insistência em manter o regime de taxas cambiais fixas.
A política monetária também era limitada pela manutenção de taxas cambiais fixas e conversibilidade. A tentativa de acudir bancos insolventes gerava saídas de capital que obrigavam a suspensão do auxílio. Assim, falências bancárias se multiplicavam contraindo a oferta de crédito e de meios de pagamentos. O caso do Credianstalt, o mais famoso, ilustra bem o problema. Em 1931 o banco austríaco enfrenta dificuldades e entra em falência. As autoridades monetárias austríacas não podem auxiliá-lo porque a expansão monetária geraria, imediatamente, fuga de capitais e ameaça de desvalorização cambial. A falência deste banco gera crise monetária na Alemanha já que muitos alemães e bancos alemães tinham depósitos no banco austríaco. A Alemanha, por sua vez, não pode auxiliar os bancos alemães em dificuldades por causa do regime do padrão ouro e por restrições sobre a relação meios de pagamento - reservas em ouro impostas pelos Aliados como parte do acordo de paz de 1918.
A política fiscal, da mesma forma, estava impossibilitada de agir pelas regras de equilíbrio fiscal e pelo próprio regime do padrão ouro. A expansão monetária decorrente de desequilíbrios fiscais ameaçava ainda mais a estabilidade da taxa de câmbio e geraria saídas de ouro do país que experimentasse política fiscal expansionista.
O regime do padrão ouro, definido como um regime de moedas conversíveis em ouro a preços fixos era na realidade um regime de dinheiro fiduciário, isto é, dependente de fiducia, confiança na sua conversibilidade a taxas cambiais fixas. Esta confiança só podia ser mantida através da administração coordenada das taxas de juros que distribuíam crédito para os países com desequilíbrios no balanço de pagamentos, evitando o teste da conversibilidade. Sem crédito coordenado pela cooperação, o teste de confiança mostrou a realidade - as moedas não podiam ser convertidas a taxas fixas entre si e não eram lastreadas em ouro.
Em 1933(?) o presidente Franklin Delano Roosevelt desvaloriza a moeda americana e sai do padrão ouro.
Antes, a Bélgica havia desvalorizado a sua moeda e suspendido a conversibilidade. Ao mesmo tempo, expandiu o crédito interno. A economia doméstica da Bélgica se expandiu com nível geral de preços crescente. A desvalorização não ampliou as exportações porque a taxa cambial não se desvalorizou em termos reais devido a inflação interna.
Na Tchecoslováquia, a desvalorização cambial não foi acompanhada de expansão do crédito interno. As exportações aumentaram assim como as reservas, permitindo a expansão do crédito interno. Produção e emprego cresceram mais lentamente. A Inglaterra ficou entre estes dois casos extremos. A França desvalorizou e cortou credito domestico que neutralizaram beneficio da desvalorização.
Estava determinado o fim do padrão ouro. A expansão foi lenta e as desvalorizações cambiais descoordenadas. O “ethos” do padrão ouro impediu que as autoridades monetárias desvalorizassem ou expandissem o crédito mais ràpidamente, pois os agentes econômicos reagiriam, acostumados com a cultura do padrão ouro, com movimentações de capital ou receio de inflação. A política monetária é condicionada pelas crenças e hábitos da economia sobre as práticas consideradas corretas e as expectativas conceituais decorrentes de cada medida. O “ethos” do padrão ouro é responsável pela lentidão das reações da política monetária e, consequentemente, pela duração maior do desemprego. Ao mesmo tempo em que a economia passava por longa deflação, muitos países evitavam desvalorizar ou ampliar o crédito, com receio da inflação que haviam experimentado em períodos anteriores.
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