240607 Vigésima Aula:Conclusões do Curso (2)
I- Sobre a revisão da Literatura:
a) Para os clássicos, dinheiro é uma mercadoria como outra qualquer. Pode ser estudada através de um modelo de demanda e oferta. A inflação decorre de um excesso de oferta.
b) A política monetária não consegue afetar a produção e o emprego, A economia tende naturalmente ao pleno emprego. Ninguém considera o dinheiro um fim em si mesmo, mas apenas uma passagem, um facilitador do funcionamento de uma grande economia de trocas.
c) Consequentemente, a inflação é um problema apenas por causa do imposto inflacionário e pelo “peso morto” causado pela inflação que leva o público a “economizar” dinheiro desnecessariamente.
d) O dinheiro dos clássicos pretende ser real—ouro ou qualquer outra coisa que tenha valor de uso e de troca em si mesmo. Lutam contra o dinheiro mito. Mas o dinheiro clássico, dinheiro real, é ele mesmo um mito. Isto é, um discurso, onde a essência é mais importante do que a existência.
e) Keynes não fala explicitamente sobre a inflação, pois está escrevendo sobre um período de deflação e desemprego.
f) A política monetária pode ser ineficaz pela atração do dinheiro como porto seguro, líquido e sem risco (armadilha da liquidez). O investimento é uma decisão difícil de explicar, dependendo dos “humores” dos capitalistas (a demanda de investimento pode ser pouco sensível à taxa de juros).
g) A ilusão monetária, ou a rigidez de preços nominais, é para os clássicos um “defeito” no funcionamento da economia capitalista. Para Keynes e Kaldor, a existência do dinheiro depende da rigidez de algum preço nominal, que mais tarde será chamado de âncora. Sem âncora ou sem ilusão monetária, não há dinheiro.
h) O dinheiro real de Keynes é um mito.
i) Por outro lado, os neoclássicos estendem o conceito de dinheiro como representante geral do valor e aplicação preferencial dos capitalistas e mostram principalmente os artigos do Tobin, que o dinheiro concorre com os investimentos e modifica a taxa de crescimento e a relação capital - produto da economia.
j) Levada ao extremo, a diferença entre clássicos e não clássicos se referem ao horizonte de tempo. Para os clássicos, a economia tende no longo prazo a um equilíbrio onde o dinheiro é apenas um véu e os preços relativos estão em equilíbrio em cada mercado. O longo prazo é um horizonte de tempo que espera, imóvel, que os desequilíbrios de curto prazo se resolvam. Para os não clássicos, o longo prazo está sempre muito distante e o equilíbrio de longo prazo se altera em função dos desequilíbrios de curto prazo.
k) A prosperidade e o crescimento da economia mundial depois da II Grande Guerra transformam o dinheiro em crédito. A idéia de controlar a quantidade de dinheiro, dos clássicos, perde sentido numa economia de pagamentos feitos por sistemas informatizados.
l) No mundo onde as finanças se tornam tanto importantes, a teoria das expectativas racionais se torna a melhor teoria. As decisões econômicas passam a ser um jogo entre os formuladores da política monetária e os agentes econômicos. As autoridades devem apenas coordenar expectativas.
m) Quando a inflação se apresenta como problema importante para a economia—depois da II Grande Guerra e até os anos 80—os clássicos insistem no excesso de dinheiro como causa principal. Enquanto os herdeiros keynesianos insistem na idéia de inflação de custos.
n) A inflação de custos não explica a inflação. A inflação decorre antes da procura de um valor real do dinheiro, isto é, do seu poder de compra. A indexação é um caso extremo desta procura. Ou seja, a inflação decorre da inexistência de uma âncora ou de algum preço relevante que seja rígido em termos nominais, como o salário ou a taxa de câmbio.
o) Hoje em dia, a política econômica “politicamente correta” propõe taxas de câmbio flutuantes e taxas de juros fixadas em função da inflação doméstica.
p) É uma proposta consistente com um mundo onde falta um sistema internacional de pagamentos e onde os mercados financeiros são livres e muito importantes. No lugar de taxas de câmbio fixas, como no sistema Bretton Woods, taxas de câmbio que não são em tese manipuladas pelos Bancos Centrais. E no lugar do controle da quantidade de moeda, que não faria sentido hoje , controle da taxas de juros sem olhar para a situação do balanço de pagamentos.
q) É um sistema que pode funcionar bem se operado pragmaticamente, isto é, se estiver disposto a alterar as regras básicas em caso de necessidade. E que funciona bem enquanto os desequilíbrios externos dos Estados Unidos forem absorvidos voluntariamente pelos superávits externos da Ásia e da China, especialmente. Em caso de crise, não está definida qual a solução.
r) A teoria que orienta o regime de metas de inflação se baseia na presença de uma curva de Philips negativamente inclinada, ou seja, na idéia de que inflação e desemprego estão negativamente inclinados. E usa uma linguagem de inflação de custos—core inflation, mecanismos de transmissão, etc.
s) O discurso afirma que a teoria keynesiana morreu nos anos 80. Mas a teoria que orienta a política econômica atual é de extração keynesiana e não clássica ou monetarista. O que mudou foi a prioridade dada ao pleno emprego. Agora, a prioridade número um é a estabilidade do valor da moeda, custe o que custar em termos de emprego. Taxas flutuantes auxiliam na manutenção do emprego. Mas a âncora mais importante da economia mundial são os salários chineses e a liberalização do comércio que segura os salários nominais e a inflação do mundo inteiro.
II - A estabilização do valor da moeda brasileira.
a) Desde os anos quarenta, a inflação brasileira tem sido alta e persistente.
b) Depois do governo JK a inflação atinge valores mais elevados ainda e acentua-se a tendência a aceleração. O governo militar que se instala a partir de 64, introduz a indexação formal na economia o que torna a inflação menos problemática, enquanto existe uma âncora como os salários nominais até 1974.
c) A indexação transforma a taxa de inflação como a verdadeira moeda nacional que exerce a função de unidade de conta. Para que este dinheiro exista, é necessário que a indexação seja imperfeita, isto é, que existam preços submetidos a “ilusão monetária” e nominalmente rígidos. O salário desempenha este papel até 74.
d) Depois de 74, com o anúncio da redemocratização, as pressões salariais se tornam mais importantes. O choque do petróleo em 74 dobra a inflação da economia indexada que assume uma tendência crescente e incontrolável. A crise da dívida externa em 82, provoca maxi desvalorizações cambiais, isto é desvalorizações cambiais acima da taxa de inflação passada, que aceleram ainda mais a taxa de inflação.
e) Com o primeiro governo civil, em 1985, a inflação continua a subir e as pressões para correção salarial mais freqüente (e mais perfeita) adiciona combustível a inflação.
f) Aparecem propostas de indexação generalizada da economia, como mecanismo necessário para uma reforma monetária.
g) O país passa por cinco reformas monetárias - o Cruzado, o plano Bresser, o Plano Verão, o Plano Collor e o Plano Real.
h) Todos os planos propõem uma forma de indexação generalizada e congelamento de preços, com exceção do Real. O congelamento de preços tenta fazer o papel de uma ancora dos preços, de curto prazo e provisória, dada a impossibilidade de usar o câmbio como âncora, por causa da crise da divida externa. Ou os salários, que são a fonte da pressão.
i) O Plano Real adota uma indexação generalizada implementada gradualmente de março a julho de 94. E, como a divida externa havia sido renegociada em março do mesmo ano, usa o câmbio como ancora.
j) Nos primeiros quatro anos, o cambio fica sobre valorizado incentivando grandes déficits no balanço de pagamentos. O governo se endivida mais com taxas de juros muito altas e tomando empréstimos externos para evitar a desvalorização cambial.
k) A partir do final de 98, o cambio se desvaloriza, a inflação sobe. O Banco Central anuncia o regime de metas de inflação e câmbio flutuante.
l) O regime de metas atua tanto reduzindo a demanda doméstica quanto através da sobrevalorização cambial que combate a inflação, mas provoca redução da demanda interna, desindustrialização e desemprego.
m) A inflação chega a 3,5% a.a. depois de oito anos de plano Real e vinte e dois anos de reformas monetárias. O crescimento do país foi muito baixo e continua baixo.
n) O combate à inflação custou vinte anos de estagnação e baixo crescimento do emprego. E ainda custa.
o) Inflação e dinheiro são coisas mais importantes do que a teoria do imposto inflacionário e o peso morto da inflação sugerem.
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