sexta-feira, 8 de junho de 2007

110706 Décima Sétima Aula--Inflação Brasileira—Continuação.

110706 Décima Sétima Aula--Inflação Brasileira—Continuação.


1) O primeiro choque de petróleo dobrou a taxa de inflação brasileira, que foi de 20 para 40% a.a. O impacto de uma variação de preço relativo numa economia indexada é muito maior do que o resultado dos aumentos de preço diretos e indiretos causados pelo preço do petróleo, como vimos no texto do Brainard.
2) A reação do governo Geisel (1974-1979) foi implementar um plano de investimentos em energia, substituição de importações e diversificação de exportações. Cresceram os investimentos da Petrobrás, Petroquisa, Eletrobrás, Nuclebrás, Siderbrás, Telebrás e investimentos na indústria de bens de capital. A taxa de crescimento da economia se reduziu da média 7-16% do período do “milagre brasileiro”, para uma taxa da ordem de 5%. Estes investimentos e a estratégia foram definidas no Segundo Plano Nacional de Desenvolvimento, II PND.
3) A estratégia foi criticada. Enquanto os demais países do mundo adotavam uma política de contração da demanda agregada, o país adotava uma política de “fuga para frente”, mantendo a demanda agregada elevada e investindo em atividades que resolveriam o problema da importação de energia e acréscimo de exportações. Vários investimentos foram mal sucedidos como é o caso dos investimientos em energia nuclear e a Ferrovia do Aço sempre mencionados pelos críticos da política adotada.
4) Os preços maiores do petróleo geraram um déficit no balanço comercial muito grande e que precisava ser financiado, sob o risco de o país literalmente parar por falta de petróleo. Ao mesmo tempo, o consumo de gasolina foi racionado, fechando postos de gasolina aos sábados e nas manhãs de domingo.
5) A inflação sobe constantemente de 37% em 1974 a 80% em 1979.
6) O financiamento do déficit do balanço comercial se baseou na tomada de empréstimos em dólares para os investimentos das estatais. A dívida externa sobe rapidamente mas as reservas também. Havia um excesso de dólares, os petrodólares, nas mãos dos países da OPEP que precisava ser aplicado, “reciclado”. Portanto, havia disponibilidade de empréstimos para financiar o balanço comercial e os investimentos das estatais eram o motivo, “o lastro”, para a tomada destes recursos.
7) Consequentemente, aumentava o déficit público. O governo tomava dólares emprestados tanto diretamente através do Tesouro Nacional como indiretamente através das empresas estatais que financiavam os seus investimentos em moeda estrangeira.
8) Os diagnósticos sobre a inflação, portanto podiam ser feitos tanto pelo lado dos preços( o aumento do petróleo) como pelo lado do déficit público( pelo crescimento da dívida pública em dólares e o conseqüente aumento do endividamento e da emissão em reais).
9) Ao mesmo tempo, cresciam as pressões para alteração das leis salariais. A lei de 1964, do PAEG, já havia sido modificada em 1967. No período Geisel, que anunciou uma distensão política “lenta, segura e gradual”, as pressões salariais aumentam e mudam a lei salarial que se “aperfeiçoa”, com correções baseadas em inflação mais recente e aumentos reais baseados no aumento da produtividade. O que só aumenta as pressões inflacionárias.
10) Além disto, a taxa cambial é corrigida acima da taxa de inflação diversas vezes, em episódios chamados de “maxi desvalorização”, isto é, corrigidas acima do que a taxa de inflação corrente justificava. Portanto, a pressão inflacionária aumentava tanto do lado dos salários quanto do lado do câmbio.
11) O presidente Geisel é substituído pelo presidente Figueiredo em 1980.A lei salarial é modificada, prevendo correções mais “perfeitas”para salários mais baixos e “menos perfeitas”para salários maiores. Esta modificação leva o Ministro Mário Henrique Simonsen a pedir demissão, sendo substituído pelo Ministro Antonio Delfim Netto.
12) Em 1980, o Ministro Delfim, faz uma “maxidesvalorização” cambial e para controlar os efeitos inflacionários desta medida, prefixa a correção monetária e os índices de preço que deveriam ser utilizados para corrigir salários, aluguéis e preços controlados pelo Cip. A política dura menos do que um ano. É um primeiro passo de controle da inflação focado na indexação que depois seria adotado nas diversas reformas monetárias do período 1986-1994.
13) No ano anterior, em 1979, Reagan assumira o governo americano, reduzira impostos aumentando o déficit público americano e liberava importações. O Federal Reserve liderado pelo presidente Paul Volker eleva drásticamente as taxas de juros para controlar a continua elevação da taxa de inflação americana que chegava a dois dígitos. O resultado é uma apreciação da taxa cambial e aumento do desemprego que acabam por controlar e reduzir a inflação americana.
14) Na contabilidade bancária, empréstimos correntes são aqueles empréstimos que pagam pontualmente os juros. Com a elevação abrupta das taxas de juros americanas, os países da América Latina, endividados por causa das importações de petróleo, não conseguem pagar os juros nominais mais altos. Tomam novos empréstimos para “refinanciar” os juros devidos. O risco dos bancos com a região (a “exposure”, a participação destes empréstimos nos ativos totais) é muito elevada. Na reunião do FMI no México em 1982, os bancos suspendem os empréstimos voluntários para a região. A dívida passa a ser administrada por Comitês de Renegociação da dívida, onde participavam representantes dos bancos credores, autoridades econômicas dos países devedores. Além disto, a maior parte dos países latino americanos, o Brasil inclusive, toma empréstimos do FMI para refinanciar a dívida e o balanço comercial ainda deficitário. Estes empréstimos são concedidos mediante condições sobre a condução da política econômica nacional, que garantiriam a solvência do país. Entre estas condições, constava sempre e em primeiro lugar, uma política de controle do déficit público com metas de redução.
15) Contabilmente, o déficit público mais o excesso de investimentos sobre a poupança privada doméstica é igual ao déficit do balanço de pagamentos que precisa ser refinanciado. A imposição de controle sobre o déficit público visava controlar exatamente este déficit do balanço de pagamentos e, portanto as condições de repagamento dos empréstimos tomados. Entretanto, desconhece a natureza do déficit do balanço de pagamentos ( preços maiores do petróleo) e a impossibilidade de compensar este déficit no balanço de pagamentos pela redução de déficit público. A impossibilidade decorre, primeiro, de que o déficit público era gerado pela necessidade de novos empréstimos em dólares necessários para financiar o balanço de pagamentos. E em segundo lugar, da diferença quantitativa entre as receitas correntes e imposto correntes que geravam o déficit público e os imensos empréstimos em moeda estrangeira que eram necessários para financiar a conta maior do petróleo.
16) Em 1981, fracassada a experiência de prefixação das taxas de correção monetária, o Banco Central eleva drasticamente as taxas de juros, provocando grande redução do nível de atividades no período 81-83. A inflação, entretanto, sobe de 90 para 160% a.a.
17) Em 1983, ocorrem as primeiras eleições diretas, para governador, que não ocorriam desde 1964. Desde 64 os governadores eram eleitos pelas Assembléias Legislativas sob indicados pelo governo federal.
18) Em 1984, inicia-se uma campanha pelas eleições diretas para o presidente que substituiria o presidente Figueiredo. A campanha ganha o apoio das ruas e da imprensa. Paulo Maluf é candidato na eleição indireta. A proposta de eleição direta é derrotada no Congresso, mas Tancredo Neves é eleito indiretamente como o novo Presidente da República.
19) A inflação continua crescendo. Por causa do déficit público, diriam os “clássicos”. Tancredo lança o lema-“É proibido gastar”, como se o corte das mordomias, dos salários dos presidentes das estatais, dos salários dos funcionários públicos fosse suficiente para compensar o déficit público que continuava alto por causa da divida externa e seu financiamento.
20) O Presidente eleito adoece no dia da posse. Toma posse o Presidente Sarney com a inflação passando para a casa dos 200%, crise na dívida externa e pressões para mudar a política salarial. A correção salarial já era semestral e havia demandas para que passasse a trimestral ou mesmo mensal. A inflação era incontrolável e estava aberto o período das reformas monetárias.
21) O primeiro Ministro da Fazenda foi Francisco Dornelles. Elevou as taxas de juros e controlou o preço das estatais—energia elétrica, telefones, petróleo. A combinação das duas políticas aumentou radicalmente o déficit público. Primeiro porque as estatais passaram a produzir lucros menores ou imensos prejuízos. Segundo por que as despesas de juros aumentaram radicalmente.
22) Aparecem as primeiras propostas de indexação generalizada ou de “choques heterodoxos”. A próxima aula trata destas reformas.

quinta-feira, 7 de junho de 2007

040607 Décima Sexta Aula—A inflação brasileira.

040607 Décima Sexta Aula—A inflação brasileira.


1) Desde 1940, quando temos cálculos sistemáticos de índices de preços até 1994 a inflação no Brasil foi muito alta.
2) Maior do que dois dígitos em termos anuais desde 1941.Maior do que dois dígitos em termos mensais desde 1987. Maior do que 100% ao ano entre 1989 e 1994. atingiu o pico anual de 2 500% em 1994.
3) O gráfico abaixo mostra as taxas de inflação no período 1940-2006 calculada pelo IPCA da Fipe.

4) No período da Segunda Grande Guerra a inflação se elevou de 9 a 37% a.a. em 1944 devido ao encarecimento das importações e das matérias primas em geral. No fim da guerra, o país havia acumulado reservas e o Presidente Dutra, primeiro presidente depois da ditadura Vargas, libera importações. É criticado pois se afirma que importamos produtos de consumo desnecessários. Adota também uma política de austeridade e a infação cai para 15,85 e 18,97 em 45 e 46.
5) Entre 1950 e 1954, a inflação se eleva de 3% para 22,57%. É o período do segundo governo Vargas, agora eleito. Como fato marcante temos a criação da Petrobrás e o estabelecimento de uma política de salários mínimos.
6) O período JK, 1955-1960 é caracterizado por crescimento muito rápido de 6 a 7% a.a. A inflação se acelera vindo de 26% a.a. a 32%% a.a. A indústria cresce rapidamente puxada por investimentos nacionais e de multinacionais destacando-se a instalação de várias montadoras estrangeiras e a instalação de um setor de eletro doméstico.
7) Jânio sucede JK com uma plataforma de combate a corrupção e austeridade fiscal. A SUMOC, criada em 1945, edita a Instrução 204 unificando o câmbio que extingue subsídios ao papel da imprensa e a importação de trigo. A inflação chega a 43,51% a.a.
8) Jânio renuncia a Presidência em agosto de 1961. Os militares impõem como condição para que Jango, o vice-presidente assuma o cargo, que o regime se torne parlamentarista. A inflação continua subindo de 43% até 83,50 em 1964 quando se dá o golpe militar que retira Jango Goulart da presidência e nomeia o Marechal Castelo Branco como presidente. A inflação “descontrolada” é um dos argumentos retóricos do golpe militar, além da quebra da hierarquia militar (revolta dos sargentos e dos marinheiros). Jango anuncia o novo salário mínimo no famoso comício de 13 de março na frente da Central do Brasil.
9) Esta revisão rápida do período permite observar algumas características da inflação e da política antiinflacionária salientadas nas aulas anteriores.
10) Primeiro, a importância de dois fatores inflacionários: preços importantes, como o salário mínimo e a taxa cambial de um lado; e a política de controle do déficit e das suas formas de financiamento.
11) A liberação de importações do período Dutra e o aumento do salário mínimo no governo Jango Goulart são exemplos.
12) A austeridade fiscal do governo Dutra é outro exemplo, assim como o Plano Trienal elaborado por Celso Furtado no governo Jango é outro exemplo de política de controle de gastos e sua forma de financiamento.
13) Do lado da política de gastos e financiamento, vale lembrar a criação da SUMOC em 1945, cujo primeiro superintendente foi o Professor Otávio Gouveia de Bulhões que estabeleceu depósitos compulsórios para o sistema bancário e exigiu que o Banco do Brasil fizesse estes depósitos à conta da Sumoc na tentativa de extrair o poder de emissão ou o descontrole do Banco do Brasil que exercia as funções de banco comercial e banco financiador do Tesouro Nacional. A Sumoc foi criada como organização que no futuro se transformaria em Banco Central, o que só acontece com o primeiro governo militar em 1964.
14) O combate a subsídios do curto período Jânio, por outro lado, mostram o efeito da correção de preços relativos sobre a taxa de inflação que se eleva neste período.
15) Em segundo lugar, pode-se observar a ocorrência conjunta de períodos de instabilidade inflacionária e política, como exemplos de como a inflação refletem a situação política e inversamente, como a situação política se reflete na estabilidade de preços. E como a idéia de atribuir os problemas causados pela inflação ao “imposto inflacionário” ou ao “peso morto” da inflação deixa de considerar a importância da inflação como crise institucional.
16) O primeiro governo militar organiza sua política econômica no Plano de Ação Econômica do Governo Revolucionário (PAEG). No período 1964-1967, várias reformas estruturais, que compunham a plataforma do governo Jango são implementadas:
17) Criação de um Banco Central independente ( o mandato do presidente do BC era independente do mandato do presidente da República)
18) Renegociação da dívida externa.
19) Criação dos títulos reajustáveis (corrigidos pelo índice geral de preços) do Tesouro Nacional. A inflação era atribuída ao processo de financiamento do déficit público, por emissões, e não ao tamanho deste déficit. As ORTNS permitiram financiar o déficit em longo prazo já que eram títulos a prova de inflação.
20) O pagamento de impostos também passa a ser corrigido pela taxa de inflação.
21) Reforma tributária: criação de um imposto sobre valor adicionado sobre o comércio (ICM,pertencente aos estados), de outro imposto sobre valor adicionado sobre a atividade industrial (IPI), IRPF, IRPJ, ISS( dos municípios), impostos únicos sobre combustíveis e lubrificantes, sobre energia elétrica, cujos recursos seriam destinados a investimentos na área de petróleo e de energia elétrica.
22) Reforma Agrária, com a criação do INCRA e do Imposto sobre a Propriedade Agrícola.
23) Criação do BNH, banco de segunda linha( que redesconta) o sistema financeiro de habitação que agora poderia financiar construções residenciais com empréstimos corrigidos pela taxa de inflação.
24) Estabelecimento de uma lei salarial. Os salários seriam corrigidos pela inflação projetada no PAEG, que acabou sendo muito menor do que a inflação observada.
25) A taxa de inflação caiu rapidamente dos 85 % a.a. para 45% a.a. em 1966 e 25% em 1967,
26) A inflação era um fenômeno antigo e conhecido dos brasileiros. Portanto, corrigir preços em função da inflação era uma prática comum e indispensável. O governo militar entretanto estabelece a indexação formal, definida em lei, tanto para o mercado financeiro( ORTNs e taxa cambial) quanto para os salários ( lei salarial que depois será modificada muitas vezes) .
27) Vimos nas aulas passadas, do ponto de vista lógico, o dinheiro só existe se existir um preço importante que seja nominalmente rígido, os salários, por exemplo, ou a taxa de câmbio.
28) Vimos também que a indexação, ou a moeda tabular imaginada pelos neoclássicos do início do século XX, acabaria com a moeda, pois a inflação seria infinita.
29) Em outras palavras, se o valor do dinheiro depender de uma comprovação racional do seu valor—ouro ou poder de compra—o dinheiro deixa de existir, ou a inflação vai ao infinito.
30) A indexação bastante difundida pelas leis do governo militar transformaram os índices de preço como a verdadeira moeda nacional—a UPC, a unidade padrão de capital, do sistema financeiro da habitação ou a ORTN no mercado financeiro. O cálculo dos índices preços e a sua divulgação passam a ser eventos importantes no mercado financeiro, na economia e nos rendimentos de toda a economia.
31) Apesar disto, não existe uma “verdadeira taxa de inflação”. Existe uma variedade ampla de “índices de preço”, do ponto de vista teórico: Laspeyres, Paasche, Índice de Custo de Vida, Deflator Implícito do Produto. Além disto, existe outra grande variedade de formas de coleta de índice de preços—por telefone, no mercado, por cadernetas de despesas etc. Finalmente, os índices de preços resultam do processamento de vários milhares de preços coletados semanalmente. O processo de cálculo exige critérios de eliminação de preços que fogem muito da média, o que amplia ainda mais a margem de variação de preços. Não podemos dizer, de forma absoluta, que algum índice teórico ou prático é superior ou mais perfeito do que outro.
32) Deveríamos dizer que a inflação no mês passado foi menor do que 1%. Entretanto a indexação exige que os índices sejam calculados com duas casas decimais—a inflação foi de 0, 53% pois é usado na contabilidade, na correção da dívida pública e em outros preços.
33) Se a indexação fosse perfeita, a inflação iria ao infinito e nem o índice geral de preços poderia servir como medida de valor.
34) Assim, a indexação tinha diferentes graus de “perfeição”, ou seja, os preços eram corrigidos de forma diferente. O que for menos perfeitamente corrigido faz o papel do salário nominal rígido, servindo de âncora dos demais preços indexados.
35) A taxa de câmbio a partir de 1967 passou a ser corrigida semanalmente ou diariamente, mais tarde, por um valor anual definido pela taxa de inflação. Os dias ou as semanas em que seriam corrigidas assim como o valor da correção eram determinados por uma tabela de números aleatórios. Assim, o câmbio era o preço mais “perfeitamente corrigido”.
36) Depois, com defasagem bastante curta e correção plena, eram as ORTNS.
37) Em seguida, aluguéis, preços industriais (controlados pela CIP, criada em 64)
38) Os salários eram corrigidos anualmente e pela inflação projetada, no período 64-67. Depois, passaram a ser corrigidos pela inflação do ano passado. Assim, eram os preços de indexaçãomais imperfeita e faziam o papel de âncora que acabou por reduzir a taxa de inflação de 85% em 64 para 20% a.a. em 1973.
39) Por outro lado, numa economia indexada, a taxa de inflação demora a cair, pois o processo de indexação traz correções muito altas do passado para o momento atual.
40) E aumenta muito a taxa de inflação, quando algum preço relativo se corrige, como vimos no artigo do Brainard.
41) No primeiro choque do petróleo, em 1974 os preços do petróleo subiram quase 400%. A taxa de inflação brasileira pula de 20% a.a. e passa a 40% a.a. Daí para frente, a inflação subiu constantemente até 1994 com o Plano Real. A aceleração da inflação foi reduzida abruptamente pelos diversos planos de reforma monetária—o Cruzado, o Bresser, o Plano Collor que estudaremos a seguir, mas por períodos curtos de tempo. Apenas em 1994, com o Plano Real, a inflação se reduz e passa a ter uma trajetória descendente atingindo 3,5% em 2006 medida pelo IPC da Fipe.

sábado, 2 de junho de 2007

280507 Décima Quinta Aula--Area Monetária Ótima

280507Décima Quinta Aula-- Área Monetária Ótima: Taxas cambiais fixas e variáveis.


1) S. Paulo deve ter um dinheiro diferente do Rio? Brasil e Argentina devem usar o mesmo dinheiro? Em 2002, a comunidade econômica européia passou a usar uma moeda comum, o euro.
2) Esta é a questão que Mac Kinnon analisa no artigo da lista de leitura. Quais os critérios para estabelecer uma área monetária comum. Ao apresentar esta análise, levanta problemas importantes para o curso: o que determina o valor do dinheiro e a estabilidade deste valor.
3) Se a taxa cambial entre o euro e o dólar fosse fixa e todos confiassem que este valor fixado pudesse ser mantido constante e a conversibilidade de um dinheiro no outro fosse garantida, Estados Unidos e Europa teriam do ponto de vista prático a mesma moeda, ainda que com nomes diferentes e sujeitas a um fator de conversão, a taxa cambial.
4) Portanto, a discussão sobre áreas monetárias ótimas pode ser feita em termos de taxas cambiais fixas e taxas variáveis. Não chamamos de taxas cambiais flutuantes, pois estas seriam determinadas pelo mercado. O artigo discute se as taxas cambiais devem se manter constantes ou variar, seja a variação determinada pelo mercado ou pelas autoridades econômicas.
5) A política macroeconômica tem que atingir dois objetivos: o equilíbrio interno (demanda agregada igual a oferta agregada) e o equilíbrio externo ( entrada de moeda estrangeira igual a saída de moeda estrangeira, isto é, equilíbrio no balanço de pagamentos). Para isto, utiliza dois instrumentos—a política monetária e fiscal, que controla a demanda agregada, e a política cambial.
6) A política monetária e fiscal aumenta ou diminui o grau de absorção da economia, isto é, controla C+I+ G. A política cambial controla a demanda e a oferta agregada de produtos comerciáveis em relação aos produtos não comerciáveis. A política monetária controla o nível da demanda agregada e a política cambial modifica a composição da demanda agregada entre bens comerciáveis e não comerciáveis.
7) Uma redução dos gastos públicos diminui a demanda agregada tanto para bens comerciáveis quanto para bens não comerciáveis. Um aumento da taxa cambial modifica a composição da demanda e da oferta agregada: aumenta a demanda por bens comerciáveis e diminui a demanda e a oferta de bens não comerciáveis. A primeira política é chamada de “demand reducing” e a segunda, de “demand shifting”
8) Mac Kinnon introduz um terceiro objetivo a política macro: a estabilidade do nível geral de preços.
9) O índice geral de preços é dado por P= a.tc.pc+ b.pnc onde os índices c e nc representam os bens comerciáveis e não comerciáveis, a e b, a participação dos comerciáveis e não comerciáveis no PNB.
10) Considera dois casos: no caso de uma economia pequena e aberta e especializada na produção de um bem comerciável, a é grande e b pequeno. Neste caso, a estabilidade da moeda requer que a taxa cambial varie pouco. Pois o valor da moeda depende basicamente da estabilidade de preços dos bens comerciáveis. Para isto é preciso que tc seja estável. Países pequenos, portanto, devem ter taxas cambiais fixas para que tenham uma moeda de valor estável. A política de demand shifting não é eficaz pois a possibilidade de substituição entre bens comerciáveis e não comerciáveis é reduzida. Um desequilíbrio no balanço de pagamentos requer uma redução da demanda agregada tanto para bens comerciáveis como para bens não comerciáveis.
11) No caso de uma economia grande, b é grande e o desequilíbrio do balanço de pagamentos pode ser obtido tanto por demand reducing quanto por demand shifting. A estabilidade do valor da moeda não depende tanto da estabilidade dos preços dos bens comerciáveis.
12) Países pequenos e especializados na produção de alguns produtos precisam ter taxas cambiais fixas, isto é, tem que fazer parte de uma área monetária maior. Paises grandes com grande participação de produtos não comerciáveis podem ter moeda própria.
13) Se o mundo tiver estabilidade de preços e um país específico, não, é bom que a taxa cambial seja fixa para que se “importe“ estabilidade de preços. Se o mundo tiver inflação e o país não, é melhor ter taxas cambiais variáveis para proteger o país da inflação do resto do mundo.
14) Do ponto de vista deste curso e do problema inflacionário, o artigo chama a atenção do papel da taxa de câmbio no controle da inflação e sobre a possibilidade de um país ter moeda própria ou fazer parte de uma área monetária maior, através da manutenção de taxas de câmbio fixas.
15) No caso de países grandes, a taxa de câmbio funciona como um substituto para a flexibilidade de preços nominais. Se os salários não caem em termos nominais, a variação da taxa cambial muda o valor do salário real em termos de bens comerciáveis e portanto provoca um ajuste que a política de controle da demanda agregada não consegue fazer sem grande impacto sobre a produção e o emprego domésticos.
16) Um economista clássico consideraria a discussão irrelevante, pois supõe que os preços são nominalmente flexíveis e portanto não faz diferença procurar o equilíbrio via taxa cambial ou via demanda agregada em geral.

280507 Décima Quarta Aula-- A inflação é um fenômeno monetário

280507 Décima Quarta Aula—“A inflação é um fenômeno monetário” que pode ser causado por fenômenos reais.


1) Milton Friedman afirmava que a inflação era um fenômeno monetário. Estava certo—o crescimento do nível geral de preços, isto é, do preço médio de todas as coisas ou do poder de compra do dinheiro—é um fenômeno que afeta o dinheiro. Do ponto de vista retórico, esta afirmação pretendia ser interpretada como a causa da inflação é monetária, isto é, um crescimento excessivo da oferta de meios de pagamento.
2) Na discussão da hiperinflação alemã, vimos como ela pode ser controlada pela fixação de um preço, a taxa de câmbio, que então possibilitou o controle do déficit público. Ou seja, a estabilização de um preço importante do ponto de vista macroeconômico, estabilizou a taxa de inflação.
3) O conceito de inflação de custos, por outro lado, coloca os preços determinados em mercados específicos como o fator mais importante do fenômeno inflacionário. Embora os monetaristas argumentassem que a “indisciplina” no processo de fixação de preços resultasse da passividade da oferta monetária. Isto é, decorria da atitude do governo que financiava a pressão por aumento de preços com expansão da liquidez.
4) Taxa de câmbio e outros preços importantes são portanto trazidos a discussão sobre a inflação, colocando a oferta de meios de pagamentos numa posição secundária.
5) Na aula de hoje, discutimos o artigo de Julio Olivera citado na bibliografia que apresenta uma “tradução” da teoria estruturalista da inflação para a “língua neoclássica”.
6) Olivera pretende explicar porque no período 1945-1980 os países latino americanos sofriam uma inflação latina—alta, permanente e crescente. Enquanto os Estados Unidos e Europa viviam a “creeping inflation” e nos países pobres do Sul da Ásia ( pobres naquele período) e da África não havia inflação.
7) Existem dois processos típicos de formação de preços. Nos setores competitivos—que produzem produtos homogêneos, de tecnologia conhecida, sem barreiras a entrada e onde existe um grande número de produtores—os preços não podem ser controlados por nenhuma empresa individualmente. Neste caso os preços são flexíveis e variáveis, respondendo com rapidez ao aumento ou redução da oferta de meios de pagamentos, ou a variações da renda nominal (YP). Nestes setores, funcionaria a teoria quantitativa da moeda.
8) Em outros setores, onde os produtos são diferenciados por marca, qualidade ou publicidade, ou onde existem barreiras a entrada por causa da tecnologia de produção ou por causa de economias de escala, o processo de formação de preços é controlado pelas empresas. Que fixam preços levando em conta os custos variáveis de produção sobre os quais fixam uma margem desejada de lucros, um “mark - up”. Nestes setores, variações de demanda nominal afetam mais a quantidade produzida do que os preços que são nominalmente rígidos. Entre estes setores funcionaria uma “economia keynesiana” onde variações de demanda afetam o emprego e os preços são nominalmente rígidos.
9) Agricultura, industrias tradicionais( como a agricultura, a indústria têxtil, vestuário, alimentação e outras) são setores competitivos com preços nominalmente flexíveis que amortecem a variação da produção e do emprego face a variações de demanda nominal.
10) O setor manufatureiro em geral, as indústrias com economias de escala ( siderurgia, automóveis, petróleo, química, etc) são setores com preços nominalmente rígidos, onde as variações de demanda agregada nominal afetam mais a produção e o emprego do que os preços.
11) As economias podem ser classificadas também em função de outras características dadas pela oferta. Estados Unidos e Europa teriam mercado onde existe maior mobilidade de fatores e elasticidades de oferta maiores. África e Sul da Ásia eram economias mais primitivas, com pouca mobilidade de fatores e onde a elasticidade de oferta é sempre menor. Ou, em outras palavras, seriam países onde a curva de possibilidade de produção tem convexidade mais pronunciada, ou custos mais crescentes quando se altera a composição do produto.
12) Podemos agora combinar estas duas características para criar uma taxonomia de inflações.
13) Estados Unidos e Europa têm uma grande participação do setor manufatureiro e de indústrias de ponta, isto é, a participação dos setores de preços nominais rígidos na economia é elevada. Sob este critério, uma variação de preços relativos (causada pelo aumento dos preços do petróleo, ou aumento de salários) criaria uma pressão inflacionária. Por outro lado, são paises com estruturas produtivas diversificadas, capazes de responder a aumentos de preço relativo pela substituição na produção ou no consumo. A inflação resulta do produto de variações de preços nominais decorrentes de um choque de custo (que é grande) vezes a variação de preços relativos ( que é pequeno) por que a variação necessária é menor, dada a alta elasticidade preço da oferta. Ou seja, inflação, mas inflação baixa.
14) África e Sul da Ásia teriam inflação resultante de grandes variações de preços relativos ( por que a elasticidade preço da oferta é baixa) multiplicada por pequena variação de preços nominais (porque nestes paises predominam os setores de preços competitivos (a agricultura) . Resultado—não há inflação.
15) A América Latina estaria numa situação intermediária. As variações de preços relativos são grandes por que a elasticidade de oferta é pequena (pouca mobilidade de fatores entre regiões, infra-estrutura inadequada) e participação elevada dos setores industriais. A combinação da presença de baixa elasticidade de oferta e alta participação de setores com preços nominais rígidos geraria a inflação latina. A América Latina seria um continente adolescente—suficientemente crescido quando se considera a participação da indústria com preços nominais rígidos na economia, mas ainda “infantil”quando se considera a flexibilidade do parque produtivo para substituir produtos caros por produtos baratos.
16) A inflação latina, entretanto, precisaria ser financiada por uma política monetária passiva , ou seja, ausência de instituições capazes de controlar a oferta de meios de pagamentos ( um Banco Central, por exemplo).
17) Por outro lado, como vimos na aula passada, a inflação de custos só é relevante se houver “propagação” ou indexação de preços ao nível geral de preços. Em outras palavras, se o valor do dinheiro for dependente da sua verificação, isto é, da comparação do seu valor com o nível gera de preços.
18) Na próxima aula, analisamos a taxa cambial como um preço especial já que assume papel importante na análise da inflação brasileira e da estabilidade da moeda nacional.

sábado, 26 de maio de 2007

210507 Décima Terceira Aula- Não existe inflação de custos

210507 Décima Terceira Aula—Não existe inflação de custo.

1) A idéia de inflação de custos é criticada de duas formas. Primeiro, os monetaristas afirmam que ainda que existam variações de preços relativos, não haveria inflação se a política monetária não “ratificasse”a rigidez dos preços nominais emitindo mais dinheiro. Depois, como estudaremos nesta aula, analisando quantitativamente quanta inflação pode ser gerada por aumentos de preços importantes como salários, preço do petróleo ou variação da taxa cambial.
2) A aula está baseada no artigo de Brainard e Lowell mencionado na lista de leitura.
3) A questão é saber qual o impacto do aumento de preço de um produto isolado em todos os demais preços da economia. O preço do petróleo, por exemplo, afeta o preço dos transportes, da energia e, portanto de todos os outros preços da economia. Deveria ser importante para explicar os preços de todos os outros produtos e, portanto da inflação.
4) Para esta análise vamos usar o modelo de Leontieff que analisa a interrelação entre a produção de todos os bens da economia. Cada bem produzido pode ser utilizado como input de outros bens e como produto final. Assim, o aço é insumo da produção de automóveis, geladeiras, construção civil, etc. e ao mesmo tempo é utilizado como produto final quando é estoque para ser usado nos anos seguintes ou quando é exportado.
5) Leontieff supõe que todos os produtos sejam insumos de outros produtos e produtos finais para consumo, investimento ou exportações. E cada produto usa uma determinada quantidade de trabalho.
6) A produção é a coeficientes fixos. Aij é a quantidade fixa do produto i utilizado na produção de uma unidade do produto j.
7) A demonstração matemática será dada em aula e apresentada de forma imperfeita em nota a baixo.
8) Os resultados importantes são
9) O aumento de um por cento no preço do produto x causa um aumento de um por cento vezes a participação da produção bruta ( produção final mais intermediária) no produto nacional bruto.
10) Exemplo: se a produção total de petróleo representa 10% do produto nacional, um aumento do preço de 10% no preço do petróleo causa um aumento de dez por cento de dez por cento, um por cento , no nível geral de preços quando se consideram os efeitos diretos e indiretos do aumento de preço inicial.
11) É um resultado muito baixo, não explica a importância do petróleo.
12) O aumento final será ainda menor se alguns setores forem competitivos e não conseguirem repassar o aumento do preço do petróleo.
13) Portanto, levando em conta o impacto direto e indireto de um aumento de preços sobre os custos, o resultado final de um aumento de preço não explica a inflação. Não vale a pena controlar preços.
14) Entretanto, se algum preço, os salários por exemplo, exigirem correção em função do poder de compra, isto é, do nível geral de preços, um aumento de custo qualquer será multiplicado por um número igual a 1 sobre 1- a participação deste produto na produção final.
15) Em outras palavras, se algum setor for indexado, o aumento de qualquer preço gera um aumento de preço geral muito maior.
16) No limite, se todos os preços forem indexados, um aumento em qualquer preço pode gerar inflação infinita.
17) Para que a inflação não vá ao infinito é preciso que alguns preços pelo menos sejam rígidos nominalmente.
18) A inflação de custos, isto é, causada pela variação de algum preço isolado, só é importante se houver indexação ou, propagação como este efeito era chamado pelos estruturalistas.

NOTA
Foram omitidas as notações de matriz.

1) O modelo de Leontieff para quantidades

Dois produtos, x1 e x2.

x1=x11+x12 + y1

x1 é a produção bruta, isto é, a produção destinada a produção de x1 mesmo e de x2, ou seja, x1 tem dupla contagem. A produção final de x1 que pode ser destinada ao consumo, investimento ou exportação é dada por y1

parcelas da produção de x1 que são usadas na produção de x1 mesmo e de x2, respectivamente.

A mesma coisa para X2

x2=x21+x22

Hipótese sobre a produção de x1 e x2 – coeficientes fixos, isto é

a11=x11/x1 ou x1=a11.x11 e em geral

aij=xij/xj

x1 usa L1 de mão de obra e x2, usa L2

Escrevendo em termos de matriz


x1 a11 a12 x1 y1
= +
x2 a21 a22 x2 y2

e
x1
vezes L1 L2 =L
x2

ou

x=Ax+y (1)
e xL=L
onde x é um vetor coluna, A é a matriz de coeficientes técnicos e y é o vetor coluna de produtos finais.
e L é o vetor linha de coeficientes de trabalho utilizado para cada produto e L o total de trabalho disponível de trabalho para a economia.

Podemos reescrever (1) assim

(I-A)x=y ou seja, a produção final é dada pela matriz identidade I , menos a matriz de coeficientes técnicos.
e para saber quanto devemos produzir em termos brutos de cada produto, basta resolver para x, isto é,

-1
x=(I-A) .y isto é, a matriz I-A invertida vezes o vetor y.


2) O modelo de Leontieff para preços.
Supomos que cada produto gera uma margem de lucro dada por m1 para o produto x1 e m2 para x2.

o preço de x1 é dado por

p1=a11p1+a12p2+wL1+m1

p2=a12 p1+ a22p2 +wL2+m2
ou seja, o preço de p1 é igual aos custos de produção dados pelos coeficientes tecnicos de utilização de x1 e x2 vezes os respectivos preços unitários, mais o salário w vezes o coeficiente de mão de obra mais um margem m1.
Em termos matriciais, podemos escrever o vetor de preços como

(I-A)p=w.L+m

onde p é um vetor coluna de preços e m um vetor coluna de margens.

Resolvendo para p temos
-1
p=(wl+m) (I-A) ou seja o vetor de preços é dado por (wl+m) vezes o inverso de (I-A)


3) O deflator implícito do produto pode ser definido como

p= py/p0.y isto é o valor do produto nacional py medido a preços correntes sobre o valor do produto nacional a preços do periodo iniciaal, p0.
-1
podemos escrever py=p=(I-A)x=(wl+m)(I-A). (I-A)x= (wL+m) X


4) A derivada de py/p0.y com relação a qualquer margem , levando em conta os efeitos diretos e indiretos é dada por xi/po.y isto é pela participação da
produção bruta do produto cujo preço foi aumentado no produto nacional.

140507 Décima Segunda Aula- Inflação na América Latina

140507 Décima Segunda Aula—A inflação na América Latina.

1) No período posterior a Segunda Grande Guerra, entre 1945 e 1975 a economia mundial cresceu rapidamente assim como o emprego. A Europa recuperou-se da guerra e se tornou uma das três maiores economias do mundo, assim como o Japão. É o chamado “período dourado do capitalismo” onde a política econômica era chamada de keynesiana.
2) O Brasil cresceu a taxa média de 6% a.a. atingindo entre 1968 e 1973 taxas ainda maiores que chegaram a 11% a.a. no período batizado de “milagre brasileiro”.
3) As taxas de inflação médias observadas na economia mundial eram mais elevadas do que as taxas observadas no período atual de “globalização financeira”.
4) A inflação observada neste período podia ser classificada em vários tipos: a “creeping inflation” dos Estados Unidos e vários países da Europa. A “inflação latina” sempre alta e maior do que a média de outros países do mundo. África e Sudeste da Ásia não tinham problemas inflacionários.
5) Atualmente, as taxas de inflação médias no mundo, são muito baixas. E as taxas inflacionárias da América Latina também. Vale a pena comparar as taxas latinoamericanas atuais com a taxa média mundial para ver se a diferença observada no período 45-75 ainda permanecem.
6) Neste período, o debate sobre a inflação se dividia entre dois grupos: os monetaristas que atribuíam a inflação latina ao déficit público ou a forma como este déficit publico era financiado, isto é, por emissões. E os estruturalistas, escola originada entre os economistas da CEPAL —Comissão Econômica Para a América Latina—organização da ONU localizada em Santiago do Chile.
7) Para os estruturalistas, a inflação observada na América Latina decorria do próprio desenvolviimento econômico que alterava as características da economia e provocava mudanças importantes de preços relativos. Dado que os preços são nominalmente rígdos, a variação de preços relativos causava inflação.
8) As mudanças de preços relativos eram decorrentes do próprio desenvolvimento.
9) A urbanização aumentava a demanda e os preços de produtos alimentares. A agricultura era tradicional e não reagia aos estímulos de mercado, mais preocupada em controlar “currais eleitorais”do que em maximizar o lucro.
10) A industrialização provocava o aumento da demanda por importações . Como estes países exportavam produtos agrícolas de baixa elasticidade preço, o aumento das quantidades exportadas não aumentava a receita total. A elevação da taxa cambial causava inflação.
11) A infraestrutura era inadequada. Industrialização e urbanização provocavam aumentos de custo e consequentemente inflação.
12) A tentativa de combater a inflação por políticas de controle da demanda causaria apenas estagnação sem que a inflação fosse controlada.
13) A solução seram as reformas estruturais: a reforma agrária, a reforma cambial, a reforma bancária e assim por diante.
14) Os monetaristas contra argumentavam que tanta inflação não seria possível se não houvesse crescimento da oferta de meios de pagamento. Com M constante, os aumentos de preços relativos não causariam inflação.
15) Estruturalistas respondiam que a oferta de meios de pagamento era passiva, isto é, reagia ao crescimento dos preços.
16) Em resumo, os estruturalistas apresentavam um diagnóstico de inflação de custos como causa mais importante da inflação latina.

070507 Décima Primeira Aula-Hiperinflação na Alemanha

070507 Décima Primeira Aula – Hiperinflação na Alemanha.

1) Primeira Guerra, estipulou pesados pagamentos de reparação para a Alemanha de forma a compensar os paises aliados pelas despesas e destruição provocadas pela guerra. A decisão sobre estes pagamentos foi analisada por Keynes no “As conseqüências econômicas da Paz”.
2) A Alemanha passa a ter uma dívida externa desproporcional a sua capacidade de pagamento.
3) No período posterior ao fim da Guerra a Alemanha passa a ter imenso déficit público, decorrente dos gastos militares da guerra aumentado pela dívida externa. A inflação é alta.
4) No ano de 1923, a taxa de inflação muito alta, cresce rapidamente e atinge um máximo em outubro deste ano, quando após um acordo de refinanciamento da dívida externa, a taxa de cambio é estabilizada e a inflação termina abruptamente.
5) É um período dramático. A economia alemã chega à paralisia total, com problemas de abastecimento e até de sobrevivência dos alemães. Erich Maria Remarque tem um romance que descreve o período.
6) A hiperinflação atingiu vários países da região que se chamava de Europa Oriental—Tchecoslováquia, Hungria, Áustria e Polônia. Países que tem características comuns: alguns são estados novos decorrentes do desmantelamento do Império Austro Húngaro, como a Tchecoslováquia e a Hungria. Todos estavam sob a influência do marco alemão.
7) O episódio é importante para entender a inflação, um dos temas deste curso.
8) A ocorrência simultânea de hiperinflação e pesada dívida externa lembra imediatamente o período de superinflação de vários países da América Latina após a crise da dívida externa em 1982. Brasil, Argentina, Chile e outros países apresentaram taxas de inflação muito altas e crescentes. Apenas a Argentina chegou ao que se pode chamar de hiperinflação—uma taxa de inflação tão alta e tão crescente que paralisa completamente as compras e vendas de qualquer coisa.
9) O trabalho clássico sobre a hiper alemã é de Bresciani Turoni. No curso analilsaremos o trabalho de Cagan, da Universidade de Chicago , citado na bibliografia e a tese de doutorado do Gustavo Franco que critica a tese de Cagan.
10) Bresciani Turoni e Cagan atribuem o controle súbito e bem sucedido da hiperinflação a reforma fiscal que acaba com o déficit público alemão. Franco explica o fim da hiperinflação a estabilização da taxa cambial do marco alemão.
11) A tese de Cagan. Cagan estuda a demanda de moeda e este é o foco principal da sua tese. A hiper alemã oferece um laboratório adequado para estimar a demanda de moeda: a renda alemã é estável e a taxa nominal de juros (igual à taxa de inflação mais a taxa de juros real) é extremamente variável.
12) Estima a taxa de juros nominal ou a taxa de inflação esperada usando expectativas defasadas. A inflação esperada é dada por uma média móvel ponderada com pesos exponencialmente decrescentes das inflações passadas. A partir destas expectativas conclui que existe uma demanda de moeda negativamente inclinada com relação à inflação esperada. A tese foi premiada à época.
13) A partir desta demanda de moeda estima a curva de receita total do imposto inflacionário. Como estimou demandas lineares ou log lineares, a curva de receita total decorrente é uma parábola com um ponto de máximo.
14) Usando suas próprias estimativas mostra que os países que tiveram hiperinflação estavam além do ponto de máximo na curva de receita do imposto inflacionário. Como a curva de receita total é uma parábola, a mesma receita total de imposto inflacionário pode ser obtida com duas taxas de inflação: uma taxa mais baixa e outra mais alta. Os paises com hiper inflação recolhiam o imposto inflacionário com esta taxa mais alta e maior do que a que gerava o ponto de máximo. Conclui que “haviam ultrapassado” o ponto de máximo e que a procura por mais imposto inflacionário aumentava a taxa de inflação, mas reduzia a receita, levando a hiper. A reforma fiscal e o fim do déficit público permitiram o fim da hiperinflação.
15) Franco contra argumenta usando as mesmas estimativas de Cagan.
16) A curva de receita total do imposto inflacionário representa diversas receitas de imposto inflacionário (II) que podem ser coletadas em pontos de equilíbrio sobre a curva de demanda de moeda, isto é, pontos onde a inflação esperada é igual à inflação observada. O fato de a economia estar além do ponto de máximo desta curva não é um desequilíbrio nem exige que o governo emita cada vez mais chegando a hiper. Pode estar numa situação desconfortável, com um imposto inflacionário igual ao que poderia ser obtido com outra taxa de inflação menor. Mas não é desequilíbrio nem leva a hiper.
17) Franco argumenta que o déficit fiscal poderia gerar hiperinflação se fosse maior do que qualquer ponto da curva de receita total de II. Ou seja, se o déficit público estivesse acima da curva de receita total. Neste caso, o governo emitiria cada vez mais e recolheria cada vez menos II.
18) O mesmo argumento poderia ser apresentado de outra forma.
19) II= (M/P)vezes a inflação esperada.
20) GS=(delta M)/ P onde GS é o ganho de senhoriagem.
21) Quando a inflação esperada é igual à observada, delta M/M é igual à inflação observada e substituindo em 19, II= (M/P).(delta M/M ). Simplificando, II=GS quando a inflação esperada é igual a observada.
22) Se a inflação esperada for maior do que a observada, o imposto inflacionário é menor do que o ganho de senhoriagem. Se a inflação esperada for menor do que a observada, II será menor do que GS.
23) Ainda em outras palavras: se a emissão de moeda provocar uma expectativa de inflação maior do que a inflação observada, o imposto inflacionário será menor do que o ganho de senhoriagem. O governo emite 100 e o imposto inflacionário é 80, por exemplo. Emite mais ainda, 200 e o imposto inflacionário é 90. Ou seja, ao emitir mais arrecada menos imposto inflacionário. Neste caso, temos hiperinflação, neste caso estamos acima da curva de receita total de II.
24) Usando os dados de Cagan, Franco mostra que apenas em alguns casos de hiper chegamos a esta situação. Na maioria dos casos analisados, II era maior do que GS e portanto a hiper não podia ser atribuída a excesso de emissão ou ao déficit público.
25) Franco conclui que o fim da hiperinflação resultou da estabilização da taxa de câmbio o que foi possível apenas depois de uma renegociação dos pagamentos de reparação da Alemanha com os Estados Unidos, o país que tinha reservas em ouro e emitia a a moeda que já passava a ser a a moeda mais importante da economia mundial.
26) A analogia com a situação dos países da América Latina depois de 1982 é evidente. O controle da superinflação destes países só foi possível após a renegociação da divida externa e a fixação da taxa cambial.
27) A discussão na América Latina e no Brasil se deu nos mesmo termos. Alguns economistas diziam que a inflação só seria controlada depois de uma reforma fiscal. Outros diziam que o controle do déficit público só seria possível depois que a inflação fosse controlada. Pois a inflação reduz o valor real dos impostos arrecadados.