120703 Quarta Aula
Monetaristas e Neoclássicos: A teoria quantitativa da moeda.
1)Nesta parte do curso, analisamos o debate entre monetaristas e neoclássicos. Neoclássicos são autores como Paul Samuelson, Robert Solow e principalmente James Tobin, no caso de teoria monetária e mercados financeiros.
2) Os neoclássicos incorporam a teoria keynesia à teoria clássica. São criticados pelos neokeynesianos . Os monetaristas entre os quais se destaca Milton Friedman criticam os neoclássicos e recuperam a teoria clássica.
3) Os neoclássicos são, portanto criticados por dois lados: pelos clássicos e pelos neokeynesianos. Por isto constituem um bom lugar para começar a estudar moeda, pois estão no cruzamento da controvérsia.
4) As aulas se dedicarão a artigos do Friedman e Tobin, mencionados na lista de leitura e colocados na pasta número 28 da biblioteca.
5) O debate ocorre entre os anos 1950 e meados dos anos 70. Características do período: as economias nacionais crescem rapidamente ( no Brasil, crescimento médio de 6% a.a. ), o sistema internacional de pagamentos ainda é regulado pelos acordos de Bretton Woods ( taxa de câmbio fixa e baixa mobilidade de capital, embora o mercado de eurodólar esteja crescendo rapidamente). Os modelos macroeconômicos se concentram em economias fechadas. Modelos de economia aberta são apresentados apenas em cursos de Finanças Internacionais. Hoje vários livros textos de macro já começam com economias abertas e mobilidade de capital. A inflação média mundial é muito maior do que atualmente. Os paises latinoamericanos tem taxas de inflação elevadas e sofrem do que passou a se chamar inflação latina.
6) A política econômica do “mainstream” da época obedece as recomendações da teoria neoclássica—existe uma relação negativa entre inflação e desemprego ( curva de Philips), menos inflação gera mais desemprego, o desemprego não é mais visto como temporário ou decorrente de um problema microeconômico( sindicatos) a política fiscal é estabilizadora Assim, os neoclássicos representam o pensamento vencedor. Enquanto os monetaristas são os críticos conservadores.
7) O debate pode ser analisado a partir das diferenças na conceituação de moeda. A diferença é importante.
8) Para os monetaristas, a moeda facilita as trocas . Como o custo marginal de produção da moeda é zero, a quantidade ótima de moeda a ser retida por cada empresa ou pessoa é dada pelo ponto em que a curva de demanda de moeda (em função da taxa de juros nominal) corta o eixo dos x , isto é, a demanda equivalente a juros nominais zero.( iguais ao custo marginal) . Como existe uma taxa de juros nominal maior do que zero, dada pela taxa de retorno do capital, as pessoas economizam moeda, o que representa uma perda de bem estar social, um desperdício desnecessário. Para evitar este desperdício, seria necessário levar a taxa de juros nominal ( taxa de juros real menos inflação) a zero. Como fazer isto? Gerando uma deflação igual a taxa de retorno do capital. (ver artigo do Bailey, The Welfare Costs of Inflationary Demand). Por outro lado, se houver inflação, o público paga um imposto sobre seus saldos monetários. A inflação gera um custo social chamado de “peso morto” da inflação.
9) A diferença com relação ao pensamento keynesiano é enorme. Para Keynes, a retenção de moeda reduz o montante de investimento e portanto gera uma demanda agregada menor e um nível de emprego ou de crescimento menor. Keynes até especula, apenas teóricamente, sobre a idéia de carimbar dinheiro. O dinheiro só teria valor legal se fosse utilizado periodicamente e cada vez que fosse utilizado seria carimbado. Sem carimbos em datas predeterminadas, perderia o valor.
10) São duas conceituações de dinheiro radicalmente diferentes. Para os monetaristas, dinheiro serve apenas para pagamentos de transações. Para Keynes e os neoclássicos dinheiro é reserva de valor. Portanto, precisamos conceituar o dinheiro rigorosamente se quisermos resolver o dilema entre as duas propostas.
11) Entre os clássicos, a moeda é introduzida no modelo de uma forma “ad hoc”, isto é, não é derivada da teoria geral dos mercados. Não se pode definir uma curva de indiferença entre moeda e outro bem, Por que alguém demandaria moeda que não tem utilidade em si mas serve apenas para facilitar as trocas? A teoria clássica propõe a teoria quantitativa da moeda:
MV= PY
MV- A quantidade de moeda, um estoque, vezes a velocidade de circulação, quantas vezes a moeda muda de mãos por ano.A quantidade de moeda é um estoque ( saldo de meios de pagamento, papel moeda em poder do público mais depósitos a vista). Multiplicada por V, torna-se um fluxo, quanitdade de meios de pagamento que passa pelos mercados POR ANO.
PY- é o produto real Y multiplicado pelo nível geral de preços( o preço médio de todos os produtos e serviços da economia), isto é, o valor do produto nominal, um trilhão de reais por ano, aproximadamente, na economia brasileira atualmente.
Y e constante no curto prazo, por que a economia está sempre em pleno emprego. A velocidade é constante, pois depende de hábitos de pagamento ( salários pagos mensalmente ou semanalmente, grau de integração vertical das empresas) . Se o Banco Central aumenta a quantidade de moeda, M, os preços P aumentam na mesma proporção.
12) A teoria quantitativa pode ser vista como uma identidade: MV é sempre idêntico a PY, por definição.
13) Ou como uma função de comportamento, a demanda de dinheiro. As famílias e empresas demandam dinheiro como uma proporção fixa do produto nominal. Poderia ser escrita como M=k. PY onde k=1/V, ou onde a proporção da renda ou do produto retidos como saldo para financiar transações é uma proporção fixa ( digamos 14% ) da renda nominal. A velocidade neste caso seria aproximadamente 7.
14) Mas de qual a teoria se deriva esta curva de demanda?
15) No artigo “The Quantitative Theory of Money—a Reestatement”, Friedman ( ver o artigo na pasta de Xerox n. 28) formula a teoria que justifica a demanda de moeda especificada pela Teoria Quantitativa da moeda.
16) Resumo simplificado do artigo: o dinheiro é um ativo, um estoque, de propriedade dos indivíduos e empresas. Assim, a demanda deste estoque como a demanda de qualquer outro estoque depende
a- dos rendimentos que paga ou serviços que oferece e
b- da variação esperada do seu preço.
c- das mesmas duas variáveis especificadas para todos os outros estoques substitutos ou complementares deste.
d- do nível de riqueza.
17) A demanda de dinheiro portanto depende de:
a- do rendimento da moeda, zero por definição/ Dinheiro é depósito a vista mais papel moeda em poder do público e ambos não rendem juros.
b- da variação esperada no preço do dinheiro, isto é, da inflação esperada.
c- do rendimento das ações: dividendos ou lucros das empresas mais variação esperada dos seus preços.
c- do rendimento dos títulos de renda fixa: juros de face mais variações nos preços dos títulos.
d- do rendimento do estoque de capital físico : produtividade do capital e variações no preço deste capital.
e- do rendimento do estoque de capital humano: produtividade do capital físico e variações no preço deste capital( medido pela diferença de salário entre pessoas mais educadas e menos educadas) e
f- finalmente, de uma variável escala, a riqueza total, que pode ser medida pelo estoque total de capital multiplicado pelo rendimento médio deste estoque de capital total.
18) A relação entre o rendimento total da moeda e o rendimento dos outros ativos pode ser de substituição ou de complementaridade. Esta é uma questão empírica a ser definida a partir da análise dos dados. O dinheiro pode ser um bem substituto ou complementar ao capital, aos títulos de renda fixa e as ações.
19) As variações do nível geral de preços, por hipótese, afetam apenas o rendimento do dinheiro e o rendimento dos títulos de renda fixa. Os títulos de renda variável não são sensíveis a variação do nível geral de preços. Se adicionarmos a hipótese de que os juros dos títulos de renda fixa são proporcionais ao rendimento do capital e das ações, nem os títulos de renda fixa são sensíveis a variações do nível geral de preços. O nível de produção e o estoque de riqueza são constantes no curto prazo.
20) Com estas hipóteses, a demanda de moeda acaba sendo uma função somente do nível geral de preços e do produto, exatamente como quer a teoria quantitativa da moeda.
21) Friedman construiu a base teórica da teoria quantitativa da moeda. A teoria quantitativa da moeda é uma boa teoria se os testes estatísticos não rejeitarem suas previsões—o nível geral de preços aumenta proporcionalmente ao aumento da quantidade de moeda.
22) A metodologia do Friedman—positivismo instrumental. Não importa o “realismo” das hipóteses. O critério é apenas saber se a teoria funciona. A realidade é inatingível e as hipóteses irrelevantes para distinguir entre boas e más teorias.
23) Testes da Teoria Quantitativa da Moeda. O ajustamento de estoques. A hipótese da renda permanente. As diversas definições estatísticas de dinheiro.
24) Em outro artigo, o professor Harry Johnson, da universidade de Chicago, dirá que a teoria quantitativa da moeda é uma “boa” teoria para economias que tem um mercado de capital pouco desenvolvido. Onde a escolha se dá entre mais dinheiro e menos bens e não entre mais dinheiro e menos de outros ativos financeiros.
25) A quantidade de dinheiro, sob estas hipóteses, não altera o rendimento do capital, dos ativos financeiros que o representam( ações e bonds). Altera apenas o preço dos bens.
26) Na próxima aula vamos analisar dois artigos do Tobin onde o dinheiro é apresentado como ativo que concorre com o capital ou é complementar ao estoque de capital.
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