quarta-feira, 11 de abril de 2007

090407 Sétima Aula

110407 Sétima Aula

Uma aritmética monetarista desagradável: expectativas racionais.

1) A partir dos anos 70, os Estados Unidos estavam envolvidos com a Guerra do Vietnã, o impeachment do Presidente Nixon, depois do caso Watergate, o movimento da contracultura com manifestações de rua contra a guerra e a discriminação racial. Era a época da guerrilha urbana, dos hippies, da droga, dos Panteras Negras, dos seqüestros de personalidades, da insegurança e pobreza nos centros urbanos das grandes cidades.
2) Em 1974, a OPEP, recém criada, eleva os preços do petróleo em 400%. Em 1979, os preços do petróleo são elevados novamente, o segundo choque do petróleo. Os países produtores de petróleo acumulam grandes reservas de dólares que são reemprestados pelos bancos americanos principalmente para os países da América Latina.
3) O governo brasileiro lança o II Plano Nacional de Desenvolvimento com investimentos pesados em uma nova onda de substituição de importações (bens de capital, matérias primas básicas como siderurgia e petroquímica, mineração, eletricidade e petróleo). Estes investimentos são financiados por dívidas em dólares usados para financiar o déficit do balanço comercial causado pelo preço elevado do petróleo. A economia brasileira cresce 6% a.a. apesar da recessão internacional. A inflação brasileira que se reduzia desde 1964 e chegava a 20% a.a. pula para 40% a.a. O país passa a racionar o consumo de gasolina que não é vendida durante os fins de semana, até a tarde dos domingos. Mais tarde, tem início o Proálcool com a introdução do etanol como combustível para automóveis.
4) A economia americana começa a apresentar taxas de inflação E taxas de desemprego crescentes. A curva de Philips estaria se deslocando para a direita.
5) Os monetaristas argumentam que a curva de Philips é um fenômeno de curto prazo. No curto prazo, mais inflação pode reduzir o desemprego, mas logo, trabalhadores e empresários “aprendem” como funciona a taxa de inflação e reagem adequadamente. Em prazo maior, a curva de Philips é vertical e a economia tende a taxa “natural” de desemprego. Que será chamada de NAIRU (non accelerating inflation rate of unemployement ou desemprego compatível com taxa estável de inflação).
6) O mercado financeiro internacional se desenvolve rapidamente desde os anos 60 com o aparecimento do mercado de eurodólar (mercado financeiro que usa o dólar como unidade de conta mas localizado na Europa e livre das regulamentações nacionais). Veja “Fear of Finance” , resenha da Economist citada na lista de leitura.
7) É o fim da era neoclássica ou keynesiana. Inicia-se a hegemonia do pensamento clássico, monetarista ou novo clássico. E a época da chamada globalização financeira.
8) Em 1979, Reagan assume o governo. Logo no início, enfrenta greve de controladores de vôo a que reage violentamente com demissão de todos os controladores. A reação governamental marca o ínício do enfraquecimento dos movimentos sindicais americanos que depois acontece no mundo inteiro.
9) Assim que assume, Reagan reduz impostos e aumenta o déficit público apesar dos cortes de gastos, particularmente na área social. O Federal Reserve eleva as taxas de juros para combater a inflação resultante do déficit público. A elevação dos juros torna os países da América Latina insolventes e ameaça de falência os bancos americanos, maiores credores da divida externa latina americana. Em 1982, na reunião do FMI no México, os bancos param de emprestar para a maioria dos paises latinoamericanos. As dívidas são renegociadas por comitês de bancos e pelo FMI. Os bancos americanos não podem lançar como débitos não cobráveis as dividas que possuem, sob o risco de irem à falência.
10) O artigo do Sargent trata da ineficácia da política monetária para combater a inflação quando há descoordenação entre as políticas monetárias e fiscal.
11) Friedman havia afirmado que a política monetária é capaz de controlar apenas a taxa de inflação. A taxa de juros real, o emprego e a taxa de crescimento da economia são dados e invariantes face a política monetária. A política monetária deveria apenas controlar o crescimento da base monetária que determina a taxa de inflação.
12) Sargent argumenta que no caso de falta de coordenação entre política monetária e fiscal (o caso da política econômica do Reagan de grandes déficits e taxas de juros muito altas), a política monetária não conseguiria controlar nem a taxa de inflação. Por isto é que o artigo se chama uma “aritmética monetarista desagradável”.
13) O argumento do Sargent pode ser resumido assim: se a taxa de juros real é fixada em nível maior do que a taxa de crescimento do produto, mais dia ou menos dia, esta dívida terá que ser monetizada. Se o público sabe que a dívida vai ser remonetizada, a inflação esperada no futuro será maior—mais base monetária , num modelo simples onde a demanda de moeda é dada pela Teoria Quantitativa da Moeda—implicará em mais inflação quando a dívida for resgatada por emissão de mais base ou mais moeda. Se a inflação esperada for maior no futuro, o público se livra da moeda imediatamente e a inflação sobe imediatamente.
14) As expectativas são racionais, isto é, baseiam-se no conhecimento completo do modelo macroeconômico que determina o comportamento da economia. No caso do artigo do Sargent, como a demanda de moeda é do tipo clássico, mais moeda significa mais inflação no futuro e mais inflação corrente. Nos modelos anteriores, do Friedman e do Cagan, que veremos nas aulas de hiperinflação, as expectativas eram determinadas pelo passado (expectativas defasadas) e especificadas como uma média ponderada das inflações passadas. Agora, as expectativas são formadas pelo conhecimento total do modelo. Os “agentes econômicos” reagem como se conhecessem o modelo macro da economia. É por isto que a política monetária passa a ser ineficaz.
15) A política monetária só produz efeitos sobre a produção e a renda se for inesperada, desconhecida pelos agentes, se for uma surpresa a qual não podem se adaptar.
16) O artigo é um clássico dos modelos de expectativas racionais. Com a hipótese de expectativas racionais, a economia passa a ser um “jogo” entre agentes econômicos e autoridades econômicas. Ambos conhecem o mesmo modelo e reagirão à política monetária imediatamente.
17) Noutra linha, aparecem os efeitos ricardianos. Os déficits públicos de hoje, geram expectativa de maiores impostos no futuro, destinados a cobrir este déficit. Estes impostos maiores são imediatamente descontados da renda permanente e reduzem o consumo corrente. A política fiscal passa a ser ineficaz também se os maiores gastos governamentais forem compensados por rendas permanentes menores e gastos menores de consumo do setor privado.
18) Assim, políticas monetárias e fiscais passam a ser menos capazes de alterar o ritmo de crescimento da economia ou da taxa de inflação.
19) Para os economistas novos clássicos, a instabilidade da economia capitalista resulta de movimentos reais inevitáveis (inovações tecnológicas, mudanças nos hábitos e na composição do consumo, eventos climáticos ou naturais) ou da tentativa do governo de aumentar o emprego acima da taxa NAIRU. Resgata-se o pensamento conservador. A economia deve ficar livre da intervenção do governo que apenas aumenta a instabilidade da economia. Mas o pensamento conservador volta renovado, mais radical e com argumentos mais fortes sobre a ineficácia das políticas keynesianas.
20) A idéia de expectativas racionais levanta vários problemas de método. Supomos que os “agentes” (não são mais trabalhadores e capitalistas, mas agentes, isto é, o trabalhador é também capitalista e o capitalista, trabalhador) usam o mesmo modelo que os economistas e as autoridades. Mas qual é este modelo? Clássico, ou keynesiano? Por outro lado, num mundo onde as finanças tem papel predominante, isto é, onde a bolsa de valores e os mercados financeiros são muito importantes, o modelo de expectativas racionais é um bom modelo. Rendimentos dependem do que os outros dependem do que venha acontecer. E não do que realmente acontece, pois o que realmente acontece pode tardar muito a acontecer. Num mundo onde a especulação é importante, as expectativas racionais são bom modelo. A questão é saber em que modelo a maioria acredita e quanto tempo leva para a realidade (o lucro prometido) aparecer.
21) Antes, os monetaristas insistiam no controle da taxa de crescimento da quantidade de moeda. Agora, num mundo em que o dinheiro não tem fronteiras e que o dinheiro assume várias formas—dívida pública de curto prazo, derivativos, e várias moedas—o controle monetária passa a ser sobre a taxa de juros
22) O artigo do Sargent levaria a conclusão de que a taxa de inflação brasileira deveria ser alta apesar das taxas de juros elevadas. Como a taxa de juros real tem sido de 10% a.a. enquanto a taxa de crescimento tem sido de 3% a.a. em média, nos últimos doze anos, o público deveria esperar que a dívida viesse a ser monetizada no futuro próximo, o que causaria um aumento na inflação esperada e na inflação corrente. Por isto é importante que a dívida pública tenha uma trajetória projetada de redução.
23) Um raciocínio de expectativas racionais também tem conseqüências importantes para a política cambial. O Banco Central compra dólares financiando estas compras com emissão de dívida pública. Se a dívida pública for vista como lastreada nas reservas do Banco Central, a compra de dólares em troca de dívida não alteraria a taxa cambial se a dívida for vista como ativo substituto dos dólares comprados. Assim, a taxa cambial não se reduziria pela intervenção do Banco Central.

Nenhum comentário: